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Coluna do Veterinário

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Além de coceira, pulgas, carrapatos e mosquitos causam doenças em pets

Pulgas, carrapatos e mosquitos podem causar mais que simples coceiras em seu pet - Getty Images
Pulgas, carrapatos e mosquitos podem causar mais que simples coceiras em seu pet
Imagem: Getty Images
André Marchina Gonçalves

André Marchina Gonçalves é médico veterinário formado pela FMVZ-USP em 2012. Possui pós-graduação lato sensu em Anestesiologia Veterinária pela PAV e Anestesia Regional Veterinária pelo IEP Ranvier. Trabalhou em alguns dos principais hospitais e clínicas veterinárias de São Paulo entre 2013 e 2019, quando mudou-se para a Espanha. Atualmente é aluno da Universidade de Murcia, onde faz um masters em Medicina de Pequenos Animais.

Colaboração para Nossa, em Murcia (ESP)

23/04/2021 04h00

Começou a primavera aqui na Espanha, e com os dias mais quentes um problema sazonal: pulgas, carrapatos e mosquitos.

Aqui pertinho de casa tem uma área verde bem grande, com colinas e vales, onde existem muitos animais silvestres, como coelhos e raposas. Meus cachorros adoram passear por ali, já que são muitos os cheiros para explorar e também sempre tem cães de vizinhos para socializar. Porém, pela grande quantidade de cães e animais silvestres, a presença desses parasitas é grande e as duas últimas saídas ali renderam alguns carrapatos. Por isso, enquanto durar o calor, terei que evitar levá-los ali.

Esses parasitas são um problema sazonal porque temperaturas mais altas aceleram seu desenvolvimento e sua reprodução. Já em dias mais frios, eles tendem a diminuir sua atividade.

Bom, mas se é um problema de primavera e verão, porque estou falando sobre ele em pleno começo de outono brasileiro?

Acontece, que o nosso país tem um clima mais ameno, com temperaturas elevadas e menor variação ao longo do ano, principalmente nas regiões mais ao Norte. Assim, ainda que durante o inverno o problema diminua, essa diferença não é tão grande quanto em países mais frios.

Portanto, todo o ano é época para se lembrar da prevenção às pulgas, carrapatos e mosquitos no Brasil.

Como prevenir?

Existem diversos produtos que ajudam a prevenir a infestação por esses parasitas: comprimidos, pipetas para aplicação tópica, spray, coleiras... Seu veterinário pode receitar o que seja mais indicado em função do ambiente em que seu animal vive, da espécie, tamanho e da idade dele. Muito cuidado com produtos vendidos em alguns locais não especializados, e que não tenham sido receitados por um veterinário, já que podem não ser indicados para seu animal, e causar intoxicação.

Além do tratamento do animal, em caso de infestações massivas, também pode ser necessário utilizar produtos específicos para eliminar ovos e larvas no ambiente. Eles estão presentes em uma quantidade muito maior do que o número de parasitas adultos existentes no animal, e podem causar reinfestações futuras.

Meus cães tem duas proteções: tomam um comprimido contra pulgas e carrapatos e também utilizam uma coleira anti parasitas. Aparentemente estão funcionando bem, já que todos os carrapatos que encontrei neles estavam mortos, ou morrendo.

Então, se funcionam, o problema está resolvido e eu deveria voltar com eles aos passeios pelo mato, certo?

Não é tão simples. É possível que, até que o veneno aja sobre os bichinhos, meus cães tomem alguma picada.

Problema vai muito além das coceiras

A quantidade de doenças gerada pelas picadas desses animais é imensa, vou citar apenas algumas das mais importantes.

Começando pelas pulgas, elas são responsáveis pela transmissão do Dipylidium caninum. Apesar do nome, esse verme pode infestar tanto cães, como gatos. As pulgas são hospedeiras intermediárias deles e, ao usar a boca para se coçar, o cão ou gato pode ingeri-las. Uma vez no intestino, os dipylidium que estavam nas pulgas se prendem ao intestino e passam a parasitar este órgão. Este verme pode levar a problemas de vômitos e diarreias, e em casos de grande carga parasitária, anemia, obstrução intestinal, entre outros.

Além disso, em animais predispostos, a picada da pulga pode causar uma irritação na pele, chamada dermatite alérgica. Uma picada pode ser suficiente para desencadear essa reação de hipersensibilidade, que resulta em coceira. Esta, pode gerar outros problemas como a infecção da pele, causada por machucados que o animal faz ao se coçar.

Já os carrapatos são responsáveis por transmitir algumas doenças infecciosas, como a babesiose, anaplasmose e erliquiose. Essas doenças podem ser graves, dependendo de uma série de outros fatores como a carga parasitária, o estado geral, a idade e a presença de outras doenças concomitantes. Muitas vezes os pacientes apresentam alterações sanguíneas importantes, que precisam de internação e transfusões e podem causar a morte.

Leishmaniose

Meus cães utilizam coleira anti parasitas por causa das pulgas e carrapatos, mas sua principal função é evitar as picadas de um mosquitinho pequeno, chamado flebotomíneo, popularmente conhecido como mosquito palha. Esses mosquitos são responsáveis pela transmissão da leishmaniose, uma zoonose causada por um protozoário, muito frequente na zona do mar mediterrâneo. Essa é uma doença crônica que leva à aparição de diversos sintomas inespecíficos e que atinge os cães de maneira variável. Alguns podem ser portadores assintomáticos, enquanto outros podem apresentar sintomas graves.

O cão é o principal reservatório da doença, e mosquitos que picam cães contaminados, podem transmiti-la para humanos. O uso de coleiras repelentes nos animais é importante, então, para evitar a doença nos cães e também a transmissão para humanos.

No Brasil, a distribuição da leishmaniose é variável. É uma doença mais comum nas regiões Norte e Nordeste, porém, nas últimas décadas tem se expandido para outras regiões, como o interior da região Sudeste. No estado de São Paulo, tem se aproximado de grandes centros, como Campinas e a capital.

Por um temor de que o uso de medicamentos contra a leishmania em cães pudesse gerar resistência nos protozoários, até 2016 seu tratamento nessa espécie era proibido no Brasil. Os casos registrados de leishmaniose em cães tinham que ser notificados e os animais eutanasiados, independente da gravidade da doença, de maneira a evitar que se tornassem uma fonte de infecção. Neste ano, após pressão de veterinários e protetores de animais, foi autorizado o uso de um remédio contra a leishmaniose, possibilitando o tratamento dos cães. Essa medicação é de uso exclusivo veterinário.

Porém, mesmo com o tratamento permitido e, embora não exista comprovação científica de que a eutanásia de cães acometidos ajuda a controlar a doença, até hoje o ministério da saúde apresenta essa recomendação, mesmo para animais assintomáticos.

Aqui na Espanha, além da medicação autorizada no Brasil, outras medicações humanas têm seu uso liberado para o tratamento da leishmaniose canina. A eutanásia só é recomendada para os animais que apresentam quadros muito graves, que não possam ser revertidos pelas medicações e que levem a um comprometimento em sua qualidade de vida.

Além de prevenir a leishmaniose, essas coleiras também ajudam na prevenção da dirofilariose, conhecida como doença do verme do coração. Transmitido por algumas espécies de mosquito, como o aedes aegypti, (sim, o mesmo que transmite tantas doenças para nós), esse verme está presente principalmente em regiões litorâneas, e afeta especialmente os cães. Após entrarem na circulação sanguínea, os vermes parasitam órgãos como coração e pulmões, podendo causar importantes sintomas cardiorrespiratórios.

Notamos que a prevenção aos ectoparasitas, como pulgas, carrapatos e mosquitos vai muito além da questão de higiene e conforto para o seu pet. É um assunto de importância para a saúde deles e para a saúde pública.

Por isso, sempre converse com seu veterinário para poder prevenir da melhor maneira essas infestações. No caso das doenças, a vacina para a leishmaniose e o uso profilático de vermífugos para as verminoses, também ajudam na prevenção. Lembre-se que as medidas necessárias podem variar em função da região onde o animal vive.

Também é importante, antes de qualquer viagem com seu animal, consultar seu veterinário sobre o tipo de cuidado a ser tomado, em função dos parasitas existentes no destino.