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Coluna do Veterinário

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Deixar seu gato dentro de casa é melhor para ele - e para o mundo

Gato em casa - Getty Images
Gato em casa
Imagem: Getty Images
André Marchina Gonçalves

André Marchina Gonçalves é médico veterinário formado pela FMVZ-USP em 2012. Possui pós-graduação lato sensu em Anestesiologia Veterinária pela PAV e Anestesia Regional Veterinária pelo IEP Ranvier. Trabalhou em alguns dos principais hospitais e clínicas veterinárias de São Paulo entre 2013 e 2019, quando mudou-se para a Espanha. Atualmente é aluno da Universidade de Murcia, onde faz um masters em Medicina de Pequenos Animais.

Colaboração para Nossa, em Murcia (ESP)

16/04/2021 04h00

"O gato subiu no telhado". Essa expressão popular, que teve origem em uma piada, indica que alguma coisa vai mal. Parando para pensar um pouco, se trocarmos essa situação figurativa por seu sentido literal, ela segue indicando uma coisa que está mal: o gato não deve estar no telhado!

Lugar de gato é dentro de casa! E são muitas as razões para essa recomendação.

O primeiro e mais óbvio motivo é que gatos que não saem para a rua têm menor chance de se acidentarem. Em ambientes internos, seu animal certamente não cairá do telhado, mas também não será atropelado, não se envolverá em brigas com gatos de rua, não será atacado por cães...

Gatos mantidos em casa têm também menor risco de serem alvo da crueldade das pessoas, como por exemplo serem envenenados ou agredidos.

Ainda no quesito saúde, mas indo para as doenças, uma série delas pode ser evitada apenas mantendo seu animal seguro, sem sair. Duas muito importantes são doenças infecciosas virais que se dão através do contato com gatos contaminados, não têm tratamento e são fatais: a FIV (equivalente ao HIV nos gatos) e a FelV (um vírus que pode causar câncer). Além disso, estão mais expostos a parasitas como pulgas, carrapatos e às doenças que eles podem transmitir.

Nos animais caseiros, também é mais fácil identificar alguma doença. Isso se dá através da observação de seu comportamento, de sua urina e fezes, por exemplo. Essas observações são mais difíceis nos animais que saem para a rua.

Por todos esses motivos, estudos apontam que os gatos criados dentro de casa têm uma expectativa de vida muito maior do que os que vivem fora. Hoje em dia, gatos criados dentro de casa costumam passar com frequência dos 18, 20 anos, coisa que não se observa nos que têm acesso a ambientes externos.

Os animais com acesso à rua também têm um impacto negativo na saúde pública, uma vez que essa espécie pode transmitir zoonoses como a raiva, toxoplasmose, entre outras.

Ameaça controversa

Saindo da questão relacionada à saúde, um outro fator muito importante foi lembrado pelo meu amigo biólogo Daniel V. de Latorre. Esse é um assunto que gera muita polêmica pelo mundo:

Gatos são uma praga e uma ameaça à vida selvagem e é um problema muito maior do que eu pensava.

Sim, todos sabemos que os gatos são excelentes caçadores e muito donos são frequentemente surpreendidos com alguns "presentes" que seus animais trazem para casa: pássaros, ratos, baratas, lagartixas (estas, aliás, podem transmitir uma doença importante para eles)?.

Olhando a princípio, não parece que isso cause um grande impacto. Porém, pesquisadores fizeram a conta. Um estudo publicado na revista "Nature Communications", em 2013, estimou que, somente nos EUA, os gatos são responsáveis todos os anos pela morte de:

1,2 a 4 bilhões de aves
6,3 a 22,3 bilhões de mamíferos

Isso mesmo, a ordem de grandeza não está errada, são números na casa dos bilhões. De acordo com este mesmo estudo, a predação por gatos poderia ser a principal causa de mortes de espécies nativas relacionada à atividade humana (lembrando que os gatos foram introduzidos nos ambientes por nós).

O impacto é imenso, principalmente para as espécies ameaçadas de extinção. Um artigo de 2016, da revista da academia nacional de ciências dos Estados Unidos, lista os gatos como contribuintes para o processo de extinção de 430 espécies de mamíferos, aves e répteis. 63 dessas espécies já foram extintas nos últimos 500 anos.

Essas mortes são produzidas por gatos chamados ferais, que são os que vivem e se reproduzem de maneira selvagem, sem a intervenção humana. Esses animais são gatos que fugiram de casa, ou que são herdeiros de gatos com acesso à rua que não foram castrados e se reproduziram. Porém, gatos com donos também fazem parte do problema, já que, como comentado anteriormente, os gatos que têm dono também caçam quando saem de casa.

Como resolver o problema?

Aí é que entra a grande questão. O primeiro fator é a conscientização dos donos, seja pela saúde do animal, saúde pública, questão ambiental, ou por todos: Os gatos devem ficar dentro de casa.

Um argumento muito utilizado pelas pessoas que defendem o acesso dos animais a ambientes externos é o bem-estar deles. De fato, explorar o ambiente e caçar são atividades naturais dos felinos e contribuem para seu bem-estar. Porém, pesados todos os problemas citados, os riscos não superam os benefícios.

A solução para o bem-estar dos gatos passa, então, pelo enriquecimento ambiental, com o fornecimento de locais que possam escalar, arranhar, se esconder, etc., e o fornecimento de brinquedos e atividades que possam estimular seus comportamentos naturais. Além disso, os animais podem ter acesso ao ambiente externo de maneira controlada e com supervisão do dono, em locais de onde não possam escapar. Existe também a possibilidade de acostumar seu gato a passear na coleira, como um cão, e o seu veterinário pode instruí-lo de como fazer isso.

A castração também é de extrema importância. É importante ressaltar que, para os animais que têm acesso à rua, a castração dos gatos e gatas é recomendada a partir dos primeiros meses de vida, de maneira a evitar a proliferação dos animais sem dono e o estabelecimento de comunidades ferais. Gatos se reproduzem rapidamente, então um animal não castrado com acesso à rua, pode dar origem a uma família imensa em poucos meses.

E os gatos ferais?

Uma abordagem muito defendida para esses animais sem dono é a captura, castração e nova soltura. Dessa maneira, eles deixam de se reproduzir e a tendência é que, a longo prazo, as comunidades de gatos ferais reduzam de tamanho e deixem de existir. Isso, é claro, desde que não exista o abandono, ou fuga de novos animais.

Essa é uma alternativa menos drástica do que a eutanásia e mais viável do que a adoção. A adoção desses animais ferais costuma ser uma alternativa apenas para filhotes capturados jovens. Animais adultos, que não tiveram contato com humanos por toda a vida, em geral são agressivos e não se acostumam a viver em casa.

Porém, para muitos conservacionistas, a captura, castração e soltura é um grande problema, já que os animais castrados, não poderão se reproduzir, mas continuarão caçando. A solução para boa parte dessas pessoas seria a captura e eutanásia desses animais.

Essa é uma questão polêmica, e um estudo publicado pela revista "Plos One" em 2012, evidencia uma polarização entre conservacionistas e protetores de gatos existente nos EUA. Enquanto o primeiro grupo não tinha tanta preocupação com o bem-estar dos gatos ferais, o segundo ignorava os problemas causados por eles. Essa polarização dificulta a criação de políticas que visem resolver o problema do impacto ambiental causado pelos gatos, ao mesmo tempo em que proporcione um tratamento ético a esses animais.

No Brasil, uma revisão de Gabriel Jorge Chula Pereira e colegas, publicada no ano passado na revista "Pubvet", concluiu que em nosso país, os estudos sobre o impacto desses gatos ferais sobre outras espécies e a transmissão de doenças são escassos. Porém, considerando a enorme quantidade de gatos que vivem nas ruas do país, imagino que não deve ser um problema pequeno.

Como podemos ver, a questão de como criamos nossos animais é muito importante e complexa. O que sabemos de momento é que é importante manter o seu gato dentro de casa, para a saúde dele, humana e ambiental.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL