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Coluna do Veterinário

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Medo de anestesiar seu animal é mais perigoso do que a própria anestesia

Profissionais competentes e "plano de voo" tornam anestesia medida segura e necessária para pets - Getty Images
Profissionais competentes e "plano de voo" tornam anestesia medida segura e necessária para pets Imagem: Getty Images
André Marchina Gonçalves

André Marchina Gonçalves é médico veterinário formado pela FMVZ-USP em 2012. Possui pós-graduação lato sensu em Anestesiologia Veterinária pela PAV e Anestesia Regional Veterinária pelo IEP Ranvier. Trabalhou em alguns dos principais hospitais e clínicas veterinárias de São Paulo entre 2013 e 2019, quando mudou-se para a Espanha. Atualmente é aluno da Universidade de Murcia, onde faz um masters em Medicina de Pequenos Animais.

Colaboração para Nossa, em Murcia (ESP)

08/04/2021 04h00

A anestesia é uma especialidade médica que é pouco conhecida pelas pessoas e, quase sempre, o personagem esquecido nos filmes e séries de hospitais, nos quais, normalmente, o salvador é o cirurgião. Porém, me desculpem meus colegas cirurgiões, mas na vida real, o grande herói do centro cirúrgico é o anestesista!

É ele o responsável por cuidar de todo o manejo pré, trans e pós cirúrgico. É ele o responsável por administrar os fármacos que produzem a anestesia e, muito importante, a analgesia durante esse período. Nesse momento crítico, o anestesista também é o responsável por manter as constantes vitais: o coração batendo num ritmo adequado, a pressão arterial estável, a respiração levando oxigênio às células.

Em outras palavras, é ele quem mantém a vida. Todos os procedimentos cirúrgicos incríveis que realizamos hoje, como cirurgias cardíacas, ou transplantes de órgãos, só são possíveis por causa da anestesia.

Na veterinária é exatamente igual

O anestesista veterinário tem as mesmas funções do anestesista humano e, da mesma maneira, também é frequentemente esquecido. Durante as conversas com donos de animais antes do procedimento, algumas vezes já me perguntaram: "você também é veterinário, ou só anestesista?" ou "muito legal sua profissão, mas você pretende fazer faculdade de veterinária um dia?". Para ser um anestesista veterinário, você tem que ser, antes de mais nada, veterinário.

Esse desconhecimento da especialidade e da anestesia em si, acaba despertando um medo relacionado a ela. No dia a dia dos hospitais veterinários, isso é muito frequente. Porém, em alguns casos, esse medo acaba sendo muito exagerado e leva a algumas situações prejudicais aos animais. Em algumas especialidades veterinárias, como a oncologia, isso é muito evidente.

Trabalhando como anestesista, perdi as contas de quantas remoções de tumores enormes já participei (o recorde é um tumor de 4 quilos, em um cão que pesava 16 quilos antes da cirurgia).

De maneira inusitada, ao longo do tempo, vi esses casos acontecendo com os animais de dois tipos de donos, que são completamente opostos entre si: os relapsos, que não cuidam adequadamente dos seus bichos, e os que amam seus animais a ponto não conseguir imaginar viver sem eles.

Nesse segundo grupo, a soma do amor exagerado ao animal com o medo da anestesia leva a uma combinação muito perigosa. Com medo de perder seu "filho" durante a cirurgia, esses donos vão adiando o procedimento, e aquela bolinha que no começo tinha o tamanho de uma azeitona vai crescendo até o tamanho de uma noz, um limão, uma laranja, uma bola de futebol (sim, já vi cães com tumores de mamas do tamanho de bolas de futebol).

Quando chega uma situação em que já não é mais possível adiar, esses animais são finalmente levados para a cirurgia. Porém, além de todo sofrimento e dor causado por meses por esse tumor, nesse momento a cirurgia que antes seria simples e rápida acaba se tornando muito mais complicada e invasiva. Além disso, quanto mais tempo passa, maiores as chances de o tumor produzir metástases, diminuindo as chances de sucesso no tratamento.

Essa demora no tratamento também é muito vista na odontologia veterinária. Nesse caso, a demora para fazer um tratamento periodontal faz com que o que seria uma simples limpeza bucal acabe se tornando uma cirurgia dolorosa que envolve a extração de diversos dentes.

Anestesia e avião

Existem algumas analogias entre a anestesia e uma viagem de avião. São duas coisas extremamente seguras, mas que despertam muito medo nas pessoas. Em uma viagem de avião, existem dois momentos chave, onde o risco de alguma coisa dar errado são maiores: a decolagem e o pouso. Para minimizar esses riscos, é muito importante um bom plano de voo e uma checagem de todos os equipamentos e funções antes da decolagem.

Em anestesia, também existem dois momentos críticos: a decolagem é a indução, o início da anestesia, e o pouso é o despertar. No nosso caso, para minimizar os riscos, também deve ser feita uma checagem dos equipamentos anestésicos, instrumentos e medicações antes da "decolagem".

O "plano de voo" é o planejamento da anestesia, que é feito baseado no tipo de procedimento e condições do paciente. Para isso, fazemos uma série de exames prévios ao procedimento (exames de sangue, ultrassom, radiografias, eletrocardiogramas, ecocardiogramas, etc) e também um minucioso exame físico de nosso paciente.

Com base em todas as informações coletadas, o anestesista então determina qual o protocolo anestésico mais adequado e seguro para cada paciente.

Qual o risco de anestesiar meu animal?

Infelizmente, como toda atividade médica, a anestesia também tem um risco associado. A chance de algo ruim acontecer, porém, é muito baixa.

O risco de complicações graves decorrentes da anestesia varia de acordo com a espécie, idade, tipo de procedimento e, mais importante, com as condições físicas do paciente. A presença de doenças sistêmicas aumenta o risco anestésico de acordo com sua gravidade. Por isso, os animais são classificados antes do procedimento em uma escala que vai de I a V.

Para os cães e gatos saudáveis, que estão nas classes I e II, o risco de morte relacionada à anestesia, de acordo com estudo de revisão publicado na revista "Frontiers in Veterinary Science" em 2018 com mais de 200 mil animais, está em torno de 0,05% para cães e 0,11% para os gatos.

Para os animais que possuem alguma doença, esse risco é maior. Porém, ainda assim é possível fazer um protocolo anestésico seguro e o seu veterinário saberá avaliar se os benefícios do procedimento superam os seus riscos. Na grande maioria dos casos, o risco de não realizar uma cirurgia é bem maior do que o risco da anestesia.

Mesmo para os animais que possuem doenças crônicas, como por exemplo uma doença cardíaca, desde que devidamente tratados e estabilizados, são raras as vezes que essas alterações contraindicam em absoluto uma anestesia.

Além de piorar o prognóstico do tratamento da própria doença, a demora em realizar o procedimento cirúrgico também pode levar a aumento no risco anestésico.

Seguindo o exemplo daquele animal que eu citei, que tinha um tumor do tamanho de uma azeitona, sua classificação de risco anestésico, a princípio seria II. Depois de alguns meses, com a progressão da doença, essa classificação poderia passar a IV, com um risco anestésico quase 5 vezes maior, de acordo com o mesmo estudo citado acima. Ainda assim, nesse hipotético caso, provavelmente os benefícios da anestesia e cirurgia, compensariam seu risco anestésico.

Além dos fatores relacionados ao paciente, outros estudos demonstram que a presença de equipes treinadas, equipamentos, fármacos e monitoração adequados também são importantes na diminuição do risco anestésico.

Por último, voltando às analogias do avião e anestesia, voar é uma coisa muito segura, certo? Mas você entraria em um avião comandado por uma pessoa que não é piloto?

Novamente, isso também vale para a anestesia.

Um fator importante na diminuição do risco anestésico é a presença de um veterinário especializado em anestesia. Somente ele terá o treinamento adequado para fornecer uma anestesia segura e para lidar com as complicações que podem ocorrer.

O Brasil é um país imenso, com muitas realidades distintas. Dessa forma, sei que não são todos os lugares em que há a possibilidade de contar com um anestesista veterinário especializado, equipamentos e fármacos de última geração. Porém, sempre que possível, pergunte por esse profissional e busque clínicas que tenham à disposição o que há de melhor. Isso irá aumentar a segurança e o conforto para o seu animal.

Se hoje existem anestesistas veterinários no país — felizmente não são poucos —, muito disso se deve ao professor Flávio Massone. Esse professor emérito da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da UNESP de Botucatu foi um dos grandes nomes na área de anestesia veterinária e responsável, de maneira direta ou indireta, pela formação de possivelmente todos os veterinários anestesistas no Brasil.

Professor Massone infelizmente nos deixou na última semana, mas seu legado nessa especialidade tão importante, permanecerá. Esse texto é uma homenagem a esse profissional.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL