PUBLICIDADE
Topo

Coluna do Veterinário

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

"Meu cachorro comeu alguma coisa!": saiba o que fazer

Seu cachorro comeu alguma coisa que não devia? Procure um veterinário - Getty Images/iStockphoto
Seu cachorro comeu alguma coisa que não devia? Procure um veterinário Imagem: Getty Images/iStockphoto
André Marchina Gonçalves

André Marchina Gonçalves é médico veterinário formado pela FMVZ-USP em 2012. Possui pós-graduação lato sensu em Anestesiologia Veterinária pela PAV e Anestesia Regional Veterinária pelo IEP Ranvier. Trabalhou em alguns dos principais hospitais e clínicas veterinárias de São Paulo entre 2013 e 2019, quando mudou-se para a Espanha. Atualmente é aluno da Universidade de Murcia, onde faz um masters em Medicina de Pequenos Animais.

Colaboração para Nossa, em Murcia (ESP)

04/03/2021 04h00

A ingestão de corpos estranhos é um problema muito comum na clínica de pequenos animais. Na minha rotina de trabalho, já me deparei com diversos casos, e a lista de objetos é imensa. Entre os mais comuns estão ossos, caroços de frutas e bolinhas. Também é bem comum a ingestão de roupas, como meias e calcinhas, além de panos de chão e pedaços de tapetes.

Mas acredite: não há limites para o que os animais podem comer. Entre os objetos que presenciei estão cadeado, garfo (o mais incrível é que o cachorro nesse caso era pequeno, com mais ou menos 8 quilos), agulhas (muitas), anzol, pedras, peru de natal quase inteiro (esse não seria um corpo estranho se não estivesse com a redinha e o termômetro), caixa de remédio para dormir (com os comprimidos), bonecos, palito de sorvete, camisinha...

Consequências

Muitas podem ser as consequências da ingestão de um corpo estranho. Vai depender do tipo e tamanho do objeto, tamanho do animal e de onde o objeto para: asfixia, obstrução do trato digestivo (desde o esôfago até o intestino), ruptura dos órgãos, gastrite crônica...

Nos casos que citei acima, tive ainda outros tipos de consequências: o cão que comeu a caixa de remédio teve uma overdose e precisou de tratamento específico. O do peru de natal teve uma dilatação e torção gástrica, uma situação de risco extremo para os cães e que exige intervenção cirúrgica de emergência (nesse caso, na noite de Natal). Felizmente, os dois tiveram um final feliz e se recuperaram bem.

O que fazer?

É muito comum que o dono do animal queira esperar "pra ver se sai". Essa, de fato, é uma possibilidade, principalmente se o objeto é pequeno e o cão é grande. Porém, não é uma regra, e as consequências da ingestão de corpos estranhos podem ser desastrosas. Além disso, quanto antes identificado e removido o objeto, menor a chance de ele causar problemas.

Outra atitude muito comum é a de tentar induzir o vômito. Isso é extremamente contraindicado, principalmente para objetos perfuro-cortantes. O vômito pode fazer com que eles machuquem e até mesmo perfurem o esôfago, piorando o quadro. Além disso, os produtos utilizados para induzir o vômito em casa produzem irritação no esôfago e no estômago e podem dificultar a remoção do objeto por endoscopia.

Portanto, a única coisa a ser feita caso o seu animal coma algo que não deve é levá-lo ao veterinário imediatamente.

Imagem da radiografia do abdômen de um Golden Retriever, onde vemos o cadeado no estômago. Notamos pelas medidas (5,8 cm x 3,8 cm) que ele não era nada pequeno! - Divulgação - Divulgação
Imagem da radiografia do abdômen de um Golden Retriever, onde vemos o cadeado no estômago. Notamos pelas medidas (5,8 cm x 3,8 cm) que ele não era nada pequeno!
Imagem: Divulgação

Diagnóstico e tratamento

Na maioria das vezes, no entanto, os donos não veem o momento em que o animal come algo que não deveria. Nesse caso, é necessário estar atento aos sintomas. A ingestão de um corpo estranho pode ser confundida com outros problemas do trato gastrointestinal. Entre eles, podemos citar vômitos recorrentes, diarreia e dor abdominal.

Como já mencionado, se o objeto estiver no esôfago, também podemos observar regurgitação, engasgos e dificuldade para engolir e respirar.

Como podemos diferenciar?

Em geral, problemas de ingestão de corpos estranhos se dão principalmente em filhotes e jovens adultos e em animais que têm o costume de comer e destruir coisas. Filhotes de labrador são especialmente suspeitos! Quando um animal desse tipo aparece repentinamente com os sintomas descritos acima, já devemos ligar o alerta.

A confirmação da ingestão de qualquer objeto estranho é feita principalmente com a utilização de radiografias e ultrassom. Eles são essenciais para determinar o tipo e a localização dele e até mesmo para confirmar se o animal comeu mesmo o que os donos imaginam.

Depois desta confirmação, é possível planejar o que fazer. Nesse caso, o veterinário pode até indicar esperar sair, mas com a segurança que não é possível ter em casa. Também é possível que induza o vômito se a conclusão for de que o objeto ainda está no estômago e não poderia causar nenhum ferimento. Porém, nesse caso utilizamos medicamentos apropriados para isso, que não têm outros efeitos adversos.

Se a conclusão foi de que o objeto tem que ser retirado, temos duas opções. Felizmente, hoje em dia há cada vez maior a disponibilidade da endoscopia em veterinária. Essa é uma técnica segura e minimamente invasiva para a remoção de objetos em esôfago, estômago e comecinho do intestino.

Se o objeto está mais para o fim do intestino, a única opção é a cirurgia. Este é mais um motivo para procurar o veterinário o quanto antes. Quanto mais tempo passar, maior a chance de não ser possível remover o objeto com endoscopia. Em alguns casos, no entanto, independente do tempo passado, não é possível remover o objeto por endoscopia de maneira segura, e a única solução é a cirurgia.

Essas radiografias mostram um garfo ocupando grande parte do esôfago e do estômago do cachorro - Divulgação - Divulgação
Essas radiografias mostram um garfo ocupando grande parte do esôfago e do estômago do cachorro
Imagem: Divulgação
O que vemos mais facilmente é a parte metálica, mas o cabo de plástico também pode ser visto no estômago.  - Divulgação - Divulgação
O que vemos mais facilmente é a parte metálica, mas o cabo de plástico também pode ser visto no estômago.
Imagem: Divulgação

Linhas: o maior perigo

Este talvez seja o pior dos objetos que seu animal pode comer, e é um problema em especial para os gatos, que adoram brincar com elas.

Por incrível que pareça, a ingestão de um fio ou linha pode trazer um grande problema e ser pior do que outros objetos que parecem mais perigosos, como agulhas (muitas vezes os dois vêm em combo, já que o gato come a linha junto com a agulha de costura).

O problema é que, uma vez engolida, ela vai sendo "empurrada" pelo movimento do estômago e intestino. Com isso, a linha estica e começa a cortar as paredes do intestino em diversos pontos. Nesses casos, é necessário fazer uma cirurgia extremamente delicada para remover todos os pedaços, que podem ir desde a boca (em geral prendem embaixo da língua) até o ânus. Já tive alguns casos em que podíamos ver a linha saindo pelos dois extremos.

Prevenção

Como em todos os casos, a melhor solução é a prevenção. Evite o acesso a objetos que podem ser engolidos, principalmente se você tem um filhote destruidor em casa. Não dê frutas com caroço ou ossos, principalmente os de tamanho pequeno e os de frango, que se partem facilmente e geram fragmentos pontiagudos.

Um cuidado especial vale para os animais que já têm o histórico de terem comido coisas que não deviam. Infelizmente, eles não aprendem com seus erros, e os casos de reincidências são bem comuns.

Já tive um paciente que passou por cirurgia para retirada de objeto quatro vezes (seu problema era com panos), duas delas com intervalos de semanas. O problema nesses casos só piora, pois cada intervenção fica complicada e com um risco maior. Isso sem falar no gasto com exames, cirurgias e internação.

A destruição e ingestão de objetos também pode ser indicativo de estresse ou de algum problema comportamental. Se isso ocorrer na ausência dos donos, pode ser um caso de síndrome de angústia por separação. Nesses casos a consulta com um especialista em comportamento pode ajudar.

Em resumo, nunca duvide da capacidade do seu animal de comer o que não deve. Se acontecer, procure o veterinário o quanto antes.

Imagens das radiografias cedidas por:

Dra. Larissa Mandato Vaz

Dra. Carina Outi Baroni

Dr. Bruno Ferrante

Centro Veterinário Cães e Gatos 24H

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL