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Coluna do Veterinário

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Seu pet já teve um "infarto"? O problema deve ter sido outro

Problemas cardíacos de cães e gatos são bem diferentes que o dos humanos - Getty Images/iStockphoto
Problemas cardíacos de cães e gatos são bem diferentes que o dos humanos
Imagem: Getty Images/iStockphoto
André Marchina Gonçalves

André Marchina Gonçalves é médico veterinário formado pela FMVZ-USP em 2012. Possui pós-graduação lato sensu em Anestesiologia Veterinária pela PAV e Anestesia Regional Veterinária pelo IEP Ranvier. Trabalhou em alguns dos principais hospitais e clínicas veterinárias de São Paulo entre 2013 e 2019, quando mudou-se para a Espanha. Atualmente é aluno da Universidade de Murcia, onde faz um masters em Medicina de Pequenos Animais.

Colaboração para Nossa, em Murcia (ESP)

11/02/2021 04h00

Frequentemente ouço relatos de donos falando que seu cão teve um infarto. Por ser um problema tão frequente e assustador para nós, muitos proprietários acabam extrapolando ele para seus animais. Porém, felizmente esse não é um problema comum para nossos melhores amigos. Na maioria das vezes, os relatos de infarto em cães na verdade são uma confusão de algum sintoma relacionado a outras doenças do sistema cardiovascular.

As doenças cardíacas são a principal causa de morte entre as pessoas, e o infarto agudo do miocárdio é individualmente o que mais mata homens e mulheres. Nessa doença, ocorre a obstrução de uma artéria coronária, que é responsável por levar sangue ao músculo do coração. Com a obstrução, a região do órgão nutrida por essa artéria deixa de receber oxigênio e nutrientes.

Por que os infartos são mais raros em cães e gatos?

Em primeiro lugar, alguns dos fatores de risco para os infartos não ocorrem em nossos animais, como o tabagismo, por exemplo. Com a utilização de rações e dietas adequadas, eles também tendem a sofrer menos com problemas nutricionais que podem predispor aos infartos.

cachorro cão veterinário bichos - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
A própria anatomia do coração dos pets os torna mais imunes a um infarto.
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Porém, os principais fatores que fazem com que este seja um problema raro nos cães e gatos são características das próprias espécies. Em primeiro lugar, as arteriosclerose que são o estreitamento e endurecimento das paredes das artérias são bem menos comum neles. O mesmo ocorre com hipertensão arterial, que também é um fator de risco importante para os infartos. Como uma alteração primária em cães e gatos ela é menos frequente do que no homem.

Por último, a própria anatomia do coração deles os torna mais imunes a um infarto. Eles têm uma circulação colateral cardíaca muito bem desenvolvida. Ou seja, além das artérias coronárias principais, uma série de outros vasos menores também faz a nutrição sanguínea do músculo cardíaco. Isso significa que, em caso de haver alguma obstrução arterial, esses outros vasos acabam funcionando como um sistema reserva, garantindo a chegada de sangue.

O que são então os "infartos" de cães ou gatos?

Muitas vezes, o que é relatado como infarto ou ataque cardíaco do animal é uma síncope. Trata-se de uma perda transitória da consciência que ocorre quando há diminuição do fluxo sanguíneo no cérebro. Ela pode ser causada pelos mecanismos de regulação da pressão arterial e ritmo cardíaco e nesses casos não necessariamente representa algum grande risco ou necessite de tratamentos. Esses são os casos de animais que desmaiam quando ficam muito excitados, por exemplo. Situações como urinar, tossir ou defecar também podem desencadear um episódio em animais predispostos.

gato veterinário estetoscópio bichos - Getty Images - Getty Images
Muitos casos relatados como infarto nos pets são, na verdade, uma síncope
Imagem: Getty Images

Já as síncopes de origem cardíaca preocupam mais. Para funcionar, o coração gera impulsos elétricos, que se espalham pelo órgão e produzem a contração muscular, que é a batida do coração. Uma falha na geração ou condução desse impulso elétrico é chamada de arritmia.

Elas podem ter uma série de motivos de origem, que podem ser pela evolução de outra doença cardíaca, ou podem ser um problema primário na produção ou condução elétrica. Essas arritmias podem fazer com que o coração não bata de maneira eficiente por alguns segundos, e isso pode levar às síncopes. Estas necessitam tratamento, já que podem provocar situações mais graves e levar a uma outra situação comum nos infartos, a morte súbita. Outras alterações cardíacas importantes de origem estrutural também podem levar às síncopes, e necessitam tratamento.

Desse modo, por mais que provavelmente não seja por um infarto, é importante em caso de síncope uma busca aprofundada para a determinação de sua origem.

Outros problemas mais comuns

Embora as arritmias sejam preocupantes, elas também não são um problema muito comum em cães e gatos. Quando aparecem, em muitos casos são consequência do desenvolvimento de alguma alteração de tipo morfológicas.

As alterações morfológicas no coração podem ser originadas nas paredes cardíacas, nos vasos que saem dele ou nas válvulas que separam as diferentes câmaras do coração. São muitos tipos delas, e o que observamos é que uma ou outra é mais frequente de acordo com o tamanho e a raça dos cães.

A grande campeã em prevalência é a endocardiose de válvula mitral, uma alteração degenerativa que causa a insuficiência da válvula que separa o átrio esquerdo do ventrículo esquerdo. Essa doença está presente principalmente nos cães de raças pequenas, e sua evolução tende a ser lenta, ao decorrer de meses ou anos.

Com o passar do tempo, a alteração dessa válvula faz com que ela perca sua função. Boa parte do sangue que deveria ser bombeado pelo ventrículo esquerdo para a aorta acaba seguindo o caminho errado e volta para o átrio esquerdo.

Já nos cães maiores, a insuficiência de mitral não é tão frequente, e observamos outras alterações, como a cardiomiopatia dilatada, que é um aumento anormal da parede dos ventrículos. Esse músculo aumentado acaba perdendo força, como um elástico que é muito esticado, e consequentemente passa a perder sua função de bomba.

Nos gatos, essa doença também foi um problema, até que se descobriu que sua origem estava na falta de um aminoácido na dieta, a Taurina. Após isso, ele foi incorporado às rações de gatos, e hoje em dia a cardiomiopatia dilatada se tornou muito rara nessa espécie.

A doença cardíaca que mais atinge os gatos é outra alteração da musculatura do coração, a cardiomiopatia hipertrófica. Nesse caso, o que ocorre é que o músculo dos ventrículos começa a ficar muito grosso, diminuindo a capacidade de volume deles, e consequentemente a sua capacidade de bombear sangue para o corpo.

Diagnóstico e tratamento

Os problemas cardíacos podem levar a diversos sintomas, além da síncope citada anteriormente. Alguns dos sintomas mais comuns são tosse, indisposição, respiração acelerada, cansaço fácil, cianose (quando as mucosas ficam roxas, mas não vale para cães como os chow chow ou sharpei, que tem a língua roxa naturalmente!).

As informações dadas pelo proprietário do animal e um bom exame físico podem dar ao veterinário pistas de algum problema cardíaco.

Para a confirmação, hoje em dia temos à disposição muitos dos exames usados pelos cardiologistas humanos, como o eletrocardiograma, ecocardiograma, radiografia e até Holter, aquele exame em que se analisa o ritmo cardíaco por 24 horas. Dessa forma, podemos diagnosticar todas as alterações cardíacas.

Embora a maioria das doenças cardíacas não tenha cura, elas têm tratamentos que podem aliviar seus sintomas e retardar sua progressão. Como para qualquer doença, o importante nesses casos é o diagnóstico nas fases iniciais do problema. Por isso, como digo sempre, é importante levar seu animal ao veterinário regularmente, de modo a identificar qualquer problema antes do aparecimento dos sintomas.

Não sofrem infartos e ainda previnem nos seus donos!

Aproveito o tema de hoje para dar um argumento a mais para você que está tentando convencer alguém a ter um cachorro: um estudo retrospectivo publicado em 2019 concluiu que a probabilidade de donos de cães morrerem por uma doença cardiovascular é 31% menor do que entre as pessoas que não tem cães!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL