PUBLICIDADE
Topo

Coluna do Veterinário

Precisamos falar sobre os cães braquicefálicos, aqueles do focinho achatado

André Marchina Gonçalves

André Marchina Gonçalves é médico veterinário formado pela FMVZ-USP em 2012. Possui pós-graduação lato sensu em Anestesiologia Veterinária pela PAV e Anestesia Regional Veterinária pelo IEP Ranvier. Trabalhou em alguns dos principais hospitais e clínicas veterinárias de São Paulo entre 2013 e 2019, quando mudou-se para a Espanha. Atualmente é aluno da Universidade de Murcia, onde faz um masters em Medicina de Pequenos Animais.

Colaboração para o UOL, em Murcia (ESP)

14/10/2020 10h46

Com a chegada dessa onda de calor que atingiu o Brasil, você viu aqui no UOL Bichos dicas para o cuidado com seu cão nos dias mais quentes. Isso me lembrou de um assunto muito importante, que na minha opinião não tem recebido a devida atenção no Brasil: precisamos urgente falar sobre o problema dos braquicefálicos.

Para quem não sabe, os cães braquicefálicos são aqueles de focinho curto: pug, bulldog e bulldog francês, entre outros. Em especial, hoje vamos falar sobre essas três raças.

Elas têm se tornado cada vez mais populares no Brasil principalmente por seu aspecto 'feio-bonitinho' e seu temperamento adorável. Antes de mais nada, preciso deixar claro que eu realmente gosto muito desses animais. A grande maioria dos que conheci dessas raças eram cães incríveis. Gostar deles só me faz ter mais preocupações sobre a saúde destes bichos.

A conformação do focinho tão e cada vez mais achatado é uma característica selecionada por nós humanos. Esse aspecto é o que torna esses animais desejados, mas essa seleção também levou ao aparecimento de uma dificuldade respiratória que tem nome: chama-se Síndrome do Braquicefálico. Essa síndrome, embora possa aparecer em outras raças, está presente com maior frequência especialmente nestas três.

É caracterizada por algumas alterações primárias: estenose de narinas (abertura mais estreita das narinas), prolongamento de palato mole (a mucosa do céu da boca se estende até mais para trás do que o normal, bloqueando a entrada da traquéia), língua relativamente grande e hipoplasia de traquéia (diâmetro menor do que o normal), entre outras. Essas características a longo prazo também levam a outras alterações causadas pelo esforço inspiratório constante e que têm difícil tratamento.

O que isso tudo causa na prática? Obstrução de vias aéreas altas, que varia de acordo com o grau de acometimento e que causa muito sofrimento. Ela pode ser notada por meio dos seguintes sintomas: roncos quando dormem, ou até mesmo acordados, intolerância a exercício e calor, dificuldade para deglutir e regurgitação, ansiedade - que pode ser vista na expressão que ele apresenta e no seu comportamento, quando o animal fica sem posição confortável, não consegue deitar e dormir (às vezes dormem sentados ou em pé) - cianose (língua roxa) e colapso. Em longo prazo, também podem levar a problemas pulmonares e cardíacos, e em condições extremas à morte.

E porque lembrei desse assunto? Outro problema dessa condição é que nos dias quentes esses animais têm maior chance de desenvolver a hipertermia, que é um grande aumento da temperatura corporal. Isso ocorre porque cães não têm glândulas sudoríparas em todo o corpo como nós. O controle da temperatura se dá por meio dos coxins e principalmente pela boca, quando eles arfam, que é aquela respiração mais ofegante. Quando eles fazem isso, o ar expirado passa pelas vias aéreas e permite a evaporação da saliva, diminuindo a temperatura corporal. Nos braquicefálicos, suas alterações nas vias aéreas e a dificuldade respiratória não permitem a troca de calor adequada, levando à hipertermia, que é uma situação crítica, com risco de morte iminente

Além dessas alterações relacionadas à respiração, cães dessas raças estão mais predispostos a terem problemas oftálmicos, problemas de pele, gastro-intestinais, odontológicos, hérnias de disco e necessitarem de cesariana, entre outros. De acordo com a a associação britânica de veterinários, uma pesquisa realizada em 2017 demonstrou que 56% dos cães dessas raças atendidos necessitavam de algum tratamento para doenças relativas à raça.

O mais interessante dessas alterações é que muitas vezes, principalmente nos casos menos graves, elas não são consideradas um problema pelos donos. Um estudo publicado no ano passado demonstrou que existe uma normalização das alterações respiratórias desses animais, que muitas vezes são consideradas "da raça". Os donos acham bonitinho o ronco do seu cão e ele dormindo sentado, fazem vídeos e postam nas redes sociais. Essa normalização faz com que eles não sejam levados ao veterinário, ou que tratamentos sugeridos não sejam acatados até que a situação seja extrema.

Esse estudo revelou que, embora os animais fossem em geral jovens (média de idade de 2 anos), já apresentavam uma quantidade elevada de doenças, mas a percepção que seus donos tinham era em sua imensa maioria de que seu cão era saudável. Na minha experiência esse fenômeno é observado até entre veterinários donos de braquicefálicos.

A boa notícia é que uma série de estudos têm sido realizados para tentar por um fim ao problema ou minimizá-lo. Na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, existe um grupo de estudos que investiga exclusivamente a condição. Atualmente, esse grupo busca encontrar uma relação entre as características presentes nos indivíduos que apresentam a síndrome e alterações genéticas. Estabelecer essa associação pode ajudar a desenvolver uma estratégia de criação em que as características das raças sejam preservadas, mas que a proporção de indivíduos afetados seja menor.

A associação britânica de veterinários publicou em 2018 uma política sobre braquicefálicos. Entre outras coisas, ela tem como objetivo a revisão do padrão dessas raças e trabalho junto a criadores para uma melhoria na saúde desses cães no futuro, investimento em pesquisas para melhorar o diagnóstico e tratamento dessas alterações e a diminuição do uso desses animais em propagandas, ações de marketing e nas mídias sociais. Pesquisas demonstram que boa parte dos donos desses cães são jovens, e que a exposição desses animais por celebridades nas redes sociais contribuiu muito para o aumento de sua popularidade.

No Brasil, muito pouco se fala no assunto. A Confederação Brasileira de Cinofilia tem no regulamento de árbitros uma regra de não premiar animais que tenham qualquer dificuldade respiratória, mas não menciona especificamente a síndrome dos braquicefálicos. Entre os veterinários, os problemas dessas raças são amplamente conhecidos. Sempre dizemos que se não fosse por esses animais os hospitais e clínicas iriam a falência. No entanto, vejo pouca comunicação da gravidade desse problema para o público em geral.

É necessária a comunicação e um esforço conjunto dos veterinários, criadores e donos de cães para que esse problema possa ser combatido.

Por fim, se está planejando ter um cão braquicefálico, pesquise sobre esse tema e converse com um veterinário antes, procure um criador preocupado com o bem-estar dos animais e faça acompanhamentos periódicos de seu animal com um veterinário. É importante saber também que as cirurgias necessárias para a correção desses defeitos são procedimentos relativamente complexos, com custo elevado.

Se você já tem um cão com algum desses sintomas respiratórios, procure um veterinário o quanto antes. A síndrome do braquicefálico pode piorar com o tempo, já que o esforço respiratório constante leva a um agravamento nos sintomas e a alterações que dificultam ainda mais o tratamento. Assim, quanto antes tratado, maiores as chances de uma melhoria da qualidade de vida do seu amigo. Cães afetados pela síndrome também não devem ser utilizados para reprodução, já que essas características podem ser herdadas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.