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Fome cinzenta retratada por Livre Acesso pode piorar após chuva

Colaboração para MOV, de São Paulo

30/10/2020 04h00

Livre Acesso - Reprodução - Reprodução
Luisa Mell conversa com a veterinária Carla Sassi em cena do Livre Acesso
Imagem: Reprodução

Os animais que conseguem sobreviver ao fogo que já destruiu 27% do Pantanal não encontram o que comer ou beber: eles enfrentam a chamada fome cinzenta. O segundo episódio do programa Livre Acesso mostra brigadistas que lutam contra ela. Assista no Facebook Watch clicando aqui.

Os bichos pantaneiros assolados pela inanição vão sofrer durante meses até que o bioma comece a se recuperar. O alerta de chuvas intensas na região feito pelo Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) nos últimos dias não é alento para a situação -com as precipitações, a grande quantidade de cinzas resultante dos incêndios contaminará a água.

"A chuva vai carregar as cinzas espalhadas por todo o Pantanal para os leitos de água que são usados pelos animais para beber", afirma o biólogo Frank Alarcón, que acompanhou a viagem da ativista Luisa Mell pelo Pantanal, registrada pelos dois primeiros episódios da segunda temporada do programa Livre Acesso. Quanto mais cinzas na água, menos oxigenação. Logo, a respiração dos peixes será prejudicada, assim como toda a cadeia biológica que depende dessa água.

As chuvas estabilizaram as cotas do rio Paraguai, segundo o último relatório do Serviço Geológico Brasileiro de 22 de outubro, sinalizando o fim do processo de vazante, mas as consequências dos incêndios que assolaram a maior área alagável do planeta nos últimos meses estão longe de um desfecho. Segundo Alarcón, para que os incêndios cessem, a chuva precisa ser extensa, pesada e ocorrer por muito tempo, só assim a água poderá penetrar e encharcar o solo a ponto de conter boa parte do chamado fogo subterrâneo: uma queimada que ocorre por baixo, lentamente e que pode incendiar um mesmo local mais de uma vez.

Livre Acesso - Reprodução - Reprodução
Tucano no Pantanal em programa Livre Acesso
Imagem: Reprodução

PIORA

"A partir do momento que começa a chover muito, as equipes de resgate de atenção aos animais, que já são muito pequenas e, normalmente, compostas de voluntários -ou seja, que precisam de recursos para poder pagar hospedagem, gasolina, transporte, comida, etc- não terão como se sustentar. Então, a tendência é que elas abandonem o local, mas isso não quer dizer que a situação está resolvida para os animais, muito pelo contrário", afirma Alarcón.

Esses voluntários espalham água e comida pelo bioma para que os animais sobreviventes não morram de fome. Para isso, as equipes de campo mapeiam os pontos já assistidos por meio de um aplicativo que funciona offline (já que a internet não chega na maioria dos locais), que organiza de forma colaborativa o trabalho de todos os grupos de ajuda.

A situação tende a piorar pelos próximos meses, até que a temperatura diminua e a vegetação floresça novamente, segundo Alarcón. "Você não tem como 'justificar', vamos dizer assim, para os seus financiadores ou para a opinião pública, a existência de brigadas ou de pessoas lá quando as chuvas começarem de verdade. Só que entre a chuva começar e o assunto se resolver, vai levar muito tempo."