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Mentor de técnicos argentinos ainda vê xenofobia no futebol brasileiro

Do UOL, em São Paulo

28/08/2021 04h00

O futebol brasileiro teve desde 2019 um número elevado de treinadores estrangeiros, tendo como fator de influência o sucesso de Jorge Jesus e Jorge Sampaoli, campeão e vice do Brasileirão daquele ano. Atualmente, sete clubes do Brasileirão contam com treinadores de outros países, com argentinos, portugueses, um uruguaio e outro paraguaio. Mas para o treinador argentino Leo Samaja, coordenador de cursos para técnicos da AFA, é difícil haver legado do trabalho dos estrangeiros e a resistência ainda é muito grande, envolvendo xenofobia.

Em entrevista a Mauro Cezar Pereira no programa Dividida, do Canal UOL, Samaja diz que ainda há um comportamento muito negativo dos brasileiros em relação aos profissionais estrangeiros e são poucas as exceções, o que impede os legados de trabalhos como os de Jesus e Sampaoli.

"Eu acho que no Brasil não se permite legados e muito menos quando esses legados falam outra língua ou nasceram em outra terra. Eu acho que esse é o maior problema do Brasil", afirma Samaja.

"É um país, é uma sociedade que se tornou muito xenófoba em relação a isso, em todos os aspectos. Tem muito nojo pelos estrangeiros, com raras exceções. Então há uma paixão numa dessas, chega, mobiliza, mas rapidamente se transforma para algo negativo, então, aí está a maior pedra do país, é esse ódio", completa.

O profissional também comenta a ausência de técnicos brasileiros no mercado europeu, enquanto há argentinos treinando clubes importantes em algumas das maiores ligas do mundo, com Marcelo Bielsa no Leeds United, da Inglaterra, Diego Simeone no Atlético de Madri e Eduardo Coudet no Celta de Vigo, da Espanha, além de Mauricio Pocchetino no Paris Saint-Germain e Jorge Sampaoli no Olympique de Marselha, na França.

Samaja ironiza as alegações de que o que dificulta a presença de técnicos brasileiros no exterior é o idioma na comparação aos argentinos e diz que a questão também vai além das certificações.

"Eu poderia dar uma resposta fácil e que aqui habitualmente nasce nos círculos de poder. Argentino fala francês, fala inglês, fala japonês, fala todas as línguas. Porque na Argentina nós falamos todos os idiomas. Aparentemente, querem fazer a gente acreditar nisso, como se fosse uma questão de língua. Eu creio que, culturalmente, a competência formativa, independentemente dos cursos, a competência formativa, a exigência, a rigorosidade, a dificuldade formativa cultural dentro do país é muito forte. Isso faz diferença, porque isso te permite ter um profissional não só qualificado, se não convincente, além de competente", afirma Samaja.

"A Argentina está destruída economicamente, socialmente, mas o que ainda mantém em pé a esperança no país é a educação. A educação não se corrompe, então, isso dá uma confiança diferente, um atleta sempre, um jogador mesmo, um jogador que que não tem tanta qualidade, tanta importância dentro das quatro linhas como os brasileiros, acabam sendo líderes, muitas vezes capitães ou o braço direito de muitos treinadores dentro de elencos e muitas vezes sem jogar, o caso do Mascherano que jogou pouco no Barcelona, o Gabriel Milito que jogou também bem pouco no Barcelona, então, aí eu acho que está um pouco do segredo: é a formação de base. A gente tem que pensar que o Brasil tem que mudar, o problema é muito mais profundo que simplesmente uma licença de treinador", conclui.

O Dividida vai ao ar às quintas-feiras, às 14h, sempre com transmissão em vídeo pela home do UOL e no canal do UOL Esporte no YouTube. Você também pode ouvir o Dividida no Spotify, Apple Podcasts, Google Podcasts e Amazon Music.

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