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Judicialização de organizadas alçou figuras como heróis, diz especialista

Do UOL, em São Paulo

22/07/2021 23h31

A violência causada pelas torcidas organizadas no futebol foi seguida pela repressão por parte das autoridades, com extinção decretadas de grupos, que conseguiram retomar as atividades, além das proibições de bandeiras e instrumentos nos estádios, além da torcida única nos clássicos. O cenário em relação às brigas pouco mudou, elas continuaram fora, com mortos e feridos, enquanto autoridades foram alçadas à fama. Esta é a avaliação que faz Bernardo Buarque de Hollanda, sociólogo e maior pesquisador de torcidas organizadas no país.

Em entrevista a Mauro Cezar Pereira, no programa Dividida, do Canal UOL, o professor e pesquisador da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV-CPDOC) condena o que chama de judicialização das torcidas organizadas e o uso político do combate à violência no futebol.

"É uma discussão que perpassa a nossa, no Brasil essa ideia de sempre querer contrastar a regra com o costume, os valores com a normatividade, então você acha que simplesmente com um conjunto de medidas você vai e faz tábula rasa sobre aquilo que existe, sobre a cultura, sobre uma tradição, sobre o que está enraizado", afirma Buarque.

"Essa dinâmica também que nessa cruzada contra as torcidas, nessa criminalização, assim como a gente teve também um moralismo na política, que alçou à condição de heróis determinadas figuras, nós tivemos também aí esse processo de judicialização das torcidas que também tem justiceiros, tem as suas figuras, que são alçadas à condição de, vamos dizer, 'eu vou, a partir da minha vontade, resolver tudo?. Enfim, isso é realmente um problema que eu acho que está enraizado na cultura brasileira como um todo e esse tipo de solução é sempre muito mais custoso para a gente", completa.

O especialista afirma que o Brasil poderia buscar o exemplo de outros países, como a Alemanha, que conseguiu ter um controle maior em relação à violência das torcidas utilizando outros métodos, sem que para isso se proibisse a festa, as bandeiras e os instrumentos musicais.

"Eu costumo dizer que, além dos 7 a 1 em relação à Alemanha dentro de campo, acho que a Alemanha poderia ser um exemplo, não necessariamente para a gente implementar, mas para a gente ter como parâmetro em relação à política de prevenção à violência que eles fizeram desde os anos 1980. Falava-se tanto dos hooligans na Inglaterra, mas na Alemanha havia já problemas desde os anos 1980 e as autoridades, a liga alemã, as federações, houve toda uma mobilização para lidar com isso através de projetos como fan project", cita Buarque.

"Eles procuraram ter todo tipo de assistência pedagógica, psicológica, de assistência social, serviço social, ligado à prevenção à violência na Alemanha. Embora ainda seja um problema nos estádios alemães, a gente teve a possibilidade de ter a modernização dos estádios sem a perda da festa e hoje você tem aí, a gente fica olhando as torcidas alemãs com aquela admiração porque justamente eles conseguiram modernizar os estádios e não perder esse caráter festivo e ter por trás disso essa política, vamos dizer, preventiva e não apenas repressiva na relação com o fenômeno", conclui.

O Dividida vai ao ar às quintas-feiras, às 14h, sempre com transmissão em vídeo pela home do UOL e no canal do UOL Esporte no Youtube. Você também pode ouvir o Dividida no Spotify, Apple Podcasts, Google Podcasts e Amazon Music.

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