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Começo, apelido e estreia: 1º treinador relata 'nascimento' de Amanda Nunes

Carlos Antunes, no Rio de Janeiro (RJ)

Ag. Fight

03/06/2020 06h00

Amanda Nunes ostenta dois cinturões no UFC - Diego Ribas

Neste sábado (6), Amanda Nunes pode fazer ainda mais história no Ultimate. A baiana defende pela primeira vez o cinturão peso-pena (66 kg), diante de Felicia Spencer, e pode ser a primeira lutadora da história da organização a defender dois cinturões de forma simultânea - ela também possui o título do peso-galo (61 kg). Mas quem vê o sucesso da brasileira agora não imagina as adversidades pelas quais ela passou até chegar nesse patamar. Por isso, nada melhor do que seu primeiro treinador e incentivador no esporte, Ricardo Carvalho, em entrevista exclusiva à reportagem da Ag.Fight, para relatar os primeiros passos da 'Leoa' nas artes marciais, a origem de seu apelido e o pontapé inicial para sua escalada até o topo do MMA no mundo.

Com apenas 16 anos, Amanda Nunes teve a oportunidade de treinar em uma academia renomada em Salvador (BA). Com incentivo de sua irmã, Vanessa, a lutadora foi levada para conhecer as instalações da academia Edson Carvalho. No local, conheceu Ricardo, que foi seu mestre no jiu-jitsu e judô - uma vez que ele gostava de ensinar duas modalidades aos seus alunos. Como na época morava em Pojuca (BA), e não tinha condições financeiras de fazer essa viagem, que dura cerca de 1h40, a atleta decidiu morar no local.

"Ela morava num bairro distante da academia, no Porto da Barra e tinha um custo de ir e voltar. Depois ela foi pegando uma amizade com o pessoal. Foi devido isso que ela foi morar na equipe. Por conta da distância e por conta do custo. A gente ajudava como podia, mas não tínhamos muito. (...) Nossa academia é uma espécie de academia com alojamento. Outros atletas já moravam lá. Ela se adaptou, ela é disciplinada, muito dedicada. Ela gostava de treinar. Ela começou com jiu-jitsu, judô, depois karatê também e kickboxing. Comigo fazia judô, jiu-jitsu e condicionamento físico. Era saudável e muito alegre o dia a dia com ela", revelou o treinador.

Com a disciplina e foco, Amanda começou a se destacar nos campeonatos de jiu-jitsu em que participava. Na carreira na arte suave, a lutadora conquistou medalhas, venceu o campeonato Panamericano e o Mundial da modalidade. Com esse sucesso na arte suave, o mestre Ricardo Carvalho teve a ideia de dar o apelido que a lutadora carrega até hoje e é sua marca registrada.

"Nosso símbolo são dois leões, da nossa logomarca. Recebi um cartaz da África, que um leão nunca dá as costas para o outro. Também tinha uma outra foto, um leão na frente do outro, o que significava que um confiava no outro. Aí lançamos o símbolo. Como dois leões, nada melhor que uma leoa também. Então nasceu a história da 'Leoa'. A 'Leoa' entre os leões. Aí virou Leoa dos ringues e deu certo, graças a Deus", disse.

Se o rugido de Amanda já fazia barulho nos tatames em competições pelo Brasil e mundo, chegava cada vez mais perto o momento da lutadora se aventurar no seu grande sonho: o MMA. Apesar da equipe só ter homens praticando a modalidade, a atleta não se intimidou e se colocou entre eles, mostrando todo seu talento. Atento às suas performances, Ricardo foi o grande incentivador para ela fazer sua primeira luta, em 2008, contra Ana Maria 'Índia', no show Prime MMA 2, evento que aconteceu em Salvador

Ricardo Carvalho revelou Amanda Nunes para o MMA - Acervo Pessoal

"Nosso treinamento sempre teve essa parte de Vale-Tudo, porque sempre fez parte da nossa história. Já tinha levado muitos lutadores para participar e a Amanda ia junto. Ela tinha vontade de participar, de lutar MMA. Teve todo nosso apoio, se ela queria treinar, participar. E foi nesse momento que começou a história de mulheres no MMA. Ela foi se preparando e chegou a estrear aqui. Ela não estava muito preparada, mas tinha muita disposição e queria se jogar nisso. Ela lutou com a 'Índia'. Na época ela quase nocauteou, mas como a rival era faixa-preta, pegou o braço dela. Mas depois disso acendeu mais o fogo dela pelo MMA e treinou mais ainda. Decidiu que era isso que queria mesmo. A gente via muito potencial, porque por causa da dedicação e ela gostava muito. A gente imaginava que fosse crescer, era uma tendência no mundo o MMA crescer", contou.

Apesar da derrota na estreia, Amanda não se abateu e seguiu sua carreira nos ringues pelo Brasil, somando cinco vitórias seguidas e se colocando como um nome promissor no esporte. Foi nesse momento que o irmão de Ricardo, Edson Carvalho, decidiu dar um novo rumo para a baiana e levá-la para os Estados Unidos, com a meta de já colocá-la no Strikeforce, extinto evento que valorizava o MMA feminino na época.

"Depois que ela fez umas lutas aqui no Brasil, o Edson, que já morava nos Estados Unidos, veio aqui e olhou o potencial nela. Nessa ele perguntou se ela queria ir para os Estados Unidos e ela respondeu que sim. Ele preparou tudo de visto, documentação e entrou em contato com o Strikeforce para levá-la. Ele passou um tempo com ele lá nos Estados Unidos, treinou com ele e lançou ela. E em 14 segundos nocauteou a Julia Budd e dai para frente foi só alegria", comemorou Ricardo.

Ao ver todo o sucesso e o status que Amanda Nunes alcançou na carreira e dentro do UFC, Ricardo Carvalho não esconde o orgulho de ter sido seu primeiro treinador e que a incentivou no esporte. Segundo o baiano, o domínio de sua pupila, que não sabe o que é uma derrota desde 2014, ainda pode durar muito mais.

"Para a gente que plantou essa semente, regou e colheu frutos, é um motivo de muito orgulho e sinal que estamos no caminho certo. É uma satisfação grande, a melhor lutadora do mundo ter saído daqui e dando continuidade ao crescimento. É que nem filho, cresce para o mundo e estamos muito felizes com o sucesso dela.Com a estrutura e base que ela tem, tem capacidade de manter por muito tempo esse domínio. Ela tem condição boa de treinamento. Se mantiver o treino, condicionamento. Às vezes o glamour tira um pouco o foco do atleta, do ritmo. Se tive a disciplina de manter o treino, dá para manter por muito tempo. Vencendo adversárias duras, como a 'Cyborg', que estava há dez anos sem perder. Então tem tudo para dominar o MMA. Mas acho que ela estava querendo dar uma descansada e é bom parar no auge, né?!", finalizou.

Campeã peso-galo e peso-pena do UFC, Amanda fará a primeira defesa de título na categoria até 66 kg neste sábado (6), diante de Felicia Spencer. A baiana conquistou o cinturão da divisão ao nocautear a compatriota Cris 'Cyborg', então soberana da classe de peso mais pesada, em dezembro de 2018. Nas duas apresentações subsequentes, 'A Leoa', como é conhecida, enfrentou e superou desafiantes ao seu reinado no peso-galo.

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