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Vendramini revela febre e ligamento rompido em estreia dramática no UFC São Paulo

Felipe Paranhos, em Salvador (BA)

Ag. Fight

09/12/2018 10h00

Quem viu Luigi Vendramini adentrar o Ginásio do Ibirapuera ao som de um funk do MC Davi não imaginava o que o garoto de 22 anos estava passando naquele 22 de setembro, data de sua estreia no UFC. Embora não fosse perceptível aos olhos de quem o assistia pela TV ou ao vivo, o brasiliense entrou tremendo na arena - não de nervoso, mas de febre. E esta não foi a única situação difícil pela qual o atleta passou naquela semana.

Com nome italiano e apelido - 'The Italian Stallion', homenagem ao personagem Rocky Balboa - em inglês, Luigi aceitou a luta contra Elizeu 'Capoeira' com oito dias de antecedência. Vendramini é peso-leve (70 kg) e seu adversário, 15º colocado no ranking dos meio-médios (77 kg). Para completar, era sua primeira luta na maior organização de MMA do mundo e, desconhecido da maioria dos fãs que foram ao Ibirapuera, o jovem foi vaiado desde a pesagem cerimonial, na véspera da luta, como se gringo fosse. Ouviu 'Uh, vai morrer!', inclusive, tanto na sexta-feira quando ao entrar no octógono.

Apesar das adversidades, Luigi surpreendeu no primeiro round. Conseguiu se desvencilhar de uma apertada gravata peruana - versão mais complicada da guilhotina - aplicada por Capoeira, pegou as costas do rival ainda em pé e trabalhou um mata-leão por duas vezes. Com quase três minutos dominando o adversário, Vendramini claramente venceu o primeiro round, para a surpresa geral. No intervalo, durante a transmissão do Combate, a fala de um de seus treinadores passou despercebida do público em geral. "Você não machucou. Isso aí é só uma dor, só um desconforto". Não era, como contou o próprio lutador à Ag. Fight.

"Eu estava me sentindo bem, confiante, na sexta-feira estava tudo certo, aí eu cheguei no quarto do hotel à noite, umas 22h, depois de jantar, e comecei a sentir dor de cabeça. Fiquei gripado. Quando eu acordei , eu estava com uma sinusite que eu não conseguia acordar, cabeça doendo, tudo, comecei a ter calafrio e febre. Quando o doutor Márcio Tannuri entrou no quarto, eu estava com 39 de febre. Tomei dois antibióticos e um paracetamol duas horas antes de entrar na luta, dormi um pouco, acordei 30 minutos antes da hora da van e fui para a luta suando frio, tanto que quando eu tirei a camisa para lutar eu estava tremendo, mas de frio", revelou.

"Na primeira entrada de queda, antes de ele entrar com a guilhotina, eu rompi totalmente o ligamento do joelho. Naquela hora, eu já senti ele rompido, senti um 'quentão' assim. Eu já tinha rompido outra vez, então eu sabia qual era a sensação. Tanto é que eu entro na queda, rompo o joelho, cedo a posição e ele vai para a guilhotina. Aí pensei: 'Não vou bater, não vou bater', achei um jeito de sair e peguei as costas dele. Só que eu estava fraco, por causa da doença e dos antibióticos, e estava meio sem força. Ele estava muito forte, senti uma diferença de força absurda. E na hora que eu botei o triângulo nele, doía demais meu joelho. Começou a inchar, inchar, inchar. E na hora que eu pego o mata-leão e que eu encaixo a posição, ele cai no chão. E ele caiu em cima do joelho que estava rompido. Na hora soltei. Foi a primeira reação. Depois ele começou a se defender bem, ele vem de uma escola forte de jiu-jitsu, conseguiu escapar", falou.

No segundo round, o combate começou equilibrado, com ligeira vantagem para Elizeu. Luigi, então, tentou um chute baixo por dentro, que bateu de raspão na coxa de Capoeira. Com semblante de dor, o filho de italiano com suíça correu para a grade. E o veterano não perdoou. Joelhada voadora e nocaute. Apesar de ressaltando não ter a intenção de dar desculpas para a derrota, Vendramini explicou o que sentiu nos momentos anteriores ao golpes do atleta da CM System.

"No segundo round, eu venho com o joelho rompido, então eu começava a me movimentar e meu joelho tremia, como se a perna estivesse solta. Na hora que eu vou chutar ele, que eu chuto por dentro da perna e ele tira a perna, arrebentou menisco, ligamento, tudo. Na hora, eu botei a mão na perna e saí correndo, porque eu não sabia o que fazer, não tive reação. Na hora que eu rompeu tudo, senti a dor, botei a mão e comecei a correr, eu nem estava mais na luta. Deu aquele flashzão. Quando eu retornei, ele jogou a joelhada na minha cara. Nem vi a joelhada. Quando eu estava erguendo a cabeça, voltando a raciocinar que eu estava na luta, bum, bateu a joelhada. E dali eu não me lembro de mais nada. E ele, pô, top 15 da categoria, vinha de vários nocautes em caras duríssimos, o cara é matador, não iria perder a oportunidade. Ele viu que eu senti o joelho e veio com tudo", relatou.

O resultado causou a perda da invencibilidade de Luigi, que até então tinha oito lutas e oito vitórias. O atleta contou à Ag. Fight que mais difícil que a própria derrota foi ver a tristeza nos olhos do pai, Augusto, faixa-preta de jiu-jitsu e "herói" do brasiliense.

"Desci do octógono, meu pai chorando muito. Eu Nnunca tinha perdido em nada. Sempre ganhei tudo. No jiu-jitsu, no muay thai, no MMA, eu estava invicto em tudo. Meu pai ficou bem triste. Engraçado dizer, mas fiquei até com um pouco de raiva de Deus, assim: 'Por que fez isso comigo? Abdiquei de tudo para na estreia eu ser nocauteado?' E o que mais me deixou triste foi ver meu pai triste. A reação dele. Porque quando eu acordo do nocaute, a primeira pessoa que eu vejo é ele. E ele me acompanha nas minhas lutas desde que eu tenho, sei lá, 12 anos. E eu sempre venho vencendo, ele não conhecia a derrota. E foi um nocaute brutal. Eu acabo desmontado, eu não lembro de nada. Da joelhada para frente, eu fui realmente retomar minha consciência quando eu já estava dentro da ambulância indo para o hospital fazer a ressonância do joelho. Foi quando eu lembrei 'Meu nome é Luigi, eu luto MMA, eu moro em Brasília'. Foi difícil", falou.

Vendramini revelou que o clima de tristeza se alongou inclusive às semanas após o duelo contra Capoeira no UFC São Paulo. Amante das artes marciais, seu pai não colocou mais o quimono para treinar jiu-jitsu ou assistiu a uma luta do UFC. A derrota, portanto, causou um abalo familiar ainda não recuperado totalmente.

"Meu pai está arrasado até hoje. Meu pai treina há, sei lá, 30 anos, 40 anos? E todos os dias ele treinava. E hoje ele não assiste nem o UFC. Ele falou 'Eu não vou conseguir lutar uma roupa da Reebok, do UFC, até você lutar e ganhar'. Ele falou: 'Eu acordo todo dia de manhã e me vejo te catando no chão'. Foi uma parada muito triste. Foi a primeira vez que minha mãe me assistiu lutar foi nesse dia. Minha irmã chorou muito, meus amigos... Os bares pararam em Brasília para as pessoas assistirem às lutas, e meus amigos me contaram que ficou um clima pesado. E eu não entendia o porquê. Eu sempre treinei muito, vinha de vários nocautes, várias finalizações. O que eu fiquei magoado foi que eu não pude mostrar a minha trocação, não pude mostrar a minha luta, porque eu não tive chance de lutar. Parecia que tudo o que eu queria fazer não dava certo. Parece uma desculpa e tudo mais, porque o cara era muito duro, eu peguei uma luta duríssima, tanto que ninguém do plantel do UFC quis lutar com o Capoeira. Eles tiveram de pegar alguém de fora. Não tiro o mérito dele, o cara é duríssimo, foi matador, soube aproveitar, mas eu não estava no meu dia. Parecia que era para eu perder", falou.

Recuperando-se da cirurgia para reconstrução dos ligamentos do joelho, Vendramini deve retornar aos treinos em janeiro. Ele espera voltar ao octógono do UFC em maio, em sua categoria de origem. A sua segunda luta no Ultimate vai servir não só para mostrar seu trabalho em condições mais apropriadas, como também para orgulhar seu maior apoiador.

"Eu fiquei uns 20 dias parado depois da luta, naquela tristeza dentro de casa. Meu pai foi conversar comigo uns 15 dias depois. Ele ficou bem abalado. A próxima luta é bem importante para mim não só para mostrar meu nome, mas também para mostrar a meu pai que não é para ele ficar triste, que isso acontece, que não é só de vitórias que se vive", finalizou.

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