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Infantino segue caminho na Fifa apesar de crescente oposição no futebol

Gianni Infantino, presidente da Fifa - VCG/VCG via Getty Images
Gianni Infantino, presidente da Fifa Imagem: VCG/VCG via Getty Images

Lausana (Suíça)

25/02/2020 14h55

Gianni Infantino, no comando da Fifa há quatro anos e reeleito por unanimidade em junho do ano passado, segue em frente com seus projetos, mas precisa lidar com uma oposição crescente por parte das confederações.

Uma Copa do Mundo de 32 para 48 equipes a partir de 2026, um Mundial de Clubes com 24 equipes em 2021, uma reforma do mercado de transferências, um aumento na ajuda financeira às federações... Infantino, de 49 anos, não para de idealizar o futebol do futuro desde que sucedeu em 26 de fevereiro de 2016 Joseph Blatter, após o maior escândalo da história da Fifa.

"Infantino tem uma visão clara do que quer alcançar, é um homem de projetos", analisou um habitual integrante das reuniões da Fifa em Zurique.

"Mas, às vezes, seus projetos são extremamente perturbadores. Além disso, ele tem uma maneira de proceder que não gera unanimidade, já que segue em frente expondo publicamente suas ideias", completou o dirigente do futebol mundial.

Um claro exemplo disso foi o plano de Infantino de fazer com que o Catar sediasse a Copa do Mundo de 2022 em conjunto com países vizinhos, apesar dos fortes conflitos geopolíticos na região. Um plano que acabou sendo descartado.

"Foi uma boa ideia que não deu certo, enquanto que avançou à força seu projeto de um Mundial de Clubes com 24 equipes, apesar da oposição da Uefa", completou este especialista.

Jogador de Xadrez

Diante da influência crescente dos clubes mais ricos do mundo, que querem reformular a Liga dos Campeões para seu maior benefício, Infantino, um autêntico jogador de xadrez, move seus peões sobre o tabuleiro de um mundo no qual a política e os egos são peças importantes.

O dirigente suíço-italiano foi reeleito sem oposição no ano passado, mas seus projetos estão longe de serem consenso.

Provocaram, por exemplo, resistência do esloveno Aleksander Ceferin, presidente da Uefa, e do paraguaio Alejandro Domínguez, presidente da Conmebol, que se reuniram recentemente para estudar uma aliança contra a Fifa.

A Confederação Africana de Futebol (CAF) e seu presidente, o malgaxe Ahmad Ahmad, acusado de uma gestão financeira pouco rigorosa, acabam de se opor à tutela da Fifa ao não prolongar o mandato de Fatma Samoura, secretária-geral da Fifa e que supervisionava a CAF há seis meses.

"Todos os golpes são permitidos. Ninguém dá nada de graça e as relações estão tensas", confirmou Raffaele Poli, que dirige o Observatório do Futebol no Centro de Estudo do Esporte (Cies) em Neuchâtel, na Suíça.

'Ambição em todos os níveis'

"Existe uma ambição em todos os níveis do futebol, com esta vontade de extrair um máximo de dinheiro que me parece ser a racionalidade do futebol no final do século XX e do início do XXI. O apetite dos clubes é voraz. As federações e confederações, que devem dar as garantias, estão sob pressão por este pensamento único em dinheiro", opinou Poli.

Segundo vários observadores, Infantino tem como objetivo promover um formato único do futebol mundial, com ligas fechadas e privadas, seguindo o modelo dos campeonatos esportivos nos Estados Unidos.

"A postura de Infantino pode permitir conservar certas prerrogativas à Fifa", explicou Poli.

Por exemplo, o sistema de transferências que Infantino quer reformar, aumentando as indenizações para os clubes formadores. "Se seguíssemos o modelo da NBA (Liga de basquete americana) seria o fim das compensações entre clubes, mas estamos indo mais na direção de um reforço, o que é uma garantia", continuou o especialista do Cies.

Outro dirigente do futebol se mostrou menos benevolente com as ambições de Infantino. "É uma imposição. Sobre a governança, para tomar para si o poder e promover as reformas, nomeou uma secretária-geral fraca (Samoura). Ao nomear um 'diretor de comissões independentes' (o italiano Mario Gallavotti), acabou completamente com a independência da comissão de ética que havia sido suspensa por seu antecessor", criticou esta fonte.

"Infantino também prometeu um maior controle do destino da ajuda econômica para as confederações, contudo vemos na África que esses controles são menos rigorosos que antes", continuou este dirigente, afirmando que o presidente da Fifa exerce "uma forma de autocracia da qual as confederações já se cansaram".

Com todos estes embates, Infantino poderia viver um segundo mandato mais agitado, mas o fato de ter "concedido a Copa do Mundo de 2026 aos Estados Unidos (em conjunto com Canadá e México) foi uma trégua", disse Poli.

"E se seus projetos, como o Mundial de Clubes, funcionarem, ele sairá ainda mais forte", concluiu.