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Projeto na França e no Rio forma fotógrafos analógicos de olho em Paris-24

Rafael Pezzo

Do UOL, em São Paulo

02/04/2022 04h00

"Cancelada" pelas máquinas digitais dos anos 2000, a fotografia analógica é uma tendência que vem ganhando cada vez mais adeptos no Instagram e no TikTok. E esse resgate também chegou ao esporte, principalmente através de uma página francesa que não existiria sem o futebol brasileiro.

Criado em 2018 e com 16,5 mil seguidores, a Analog Football é a primeira comunidade no Instagram de fotografia analógica voltada exclusivamente para o futebol. Além da rede social, a página tem também projeto social com filial no Rio de olho na Olimpíada de Paris, em 2024.

Tudo começou quando o parisiense Quentin Eveno, 27 anos, fundador do perfil, morou por um ano na capital carioca, em 2016. Apaixonado por futebol e fotografia, ele passou todo seu período no Brasil registrando suas idas aos estádios brasileiros, como Maracanã, Allianz Parque, Neo Química Arena, Morumbi, Pacaembu, Couto Pereira e Ilha do Retiro.

"Eu aparecia com a câmera e ninguém entendia nada. 'Que negócio velho é esse?'", relembra com bom humor o torcedor do Paris Saint-Germain. "Eu sempre achei as fotos de esporte muito iguais, muito mais jornalísticas do que artísticas. E normalmente as fotos focam na visão dos jogadores, mas eu queria mostrar a experiência do torcedor", explica ele em português fluente.

Sem encontrar onde publicar essas fotos, ele então decidiu criar a própria página, postando suas fotos, mas também as de outras pessoas que o enviassem por email. Nesses três anos, ele diz ter recebido cerca de 8 mil fotos e, em 2020, lançou um livro com cerca de 200, com o tema da comemoração do título mundial da França, em 2018.

De olho em Paris-24

Com o crescimento da Analog Football, Quentin se reuniu com o amigo Leo Kocha, que conheceu na faculdade de Políticas Públicas da qual se graduou, e criou um projeto social para formar jovens em fotografia analógica. Lançado em 2020, a Analog Sport sempre teve um objetivo gigante: tornar seus alunos os fotógrafos oficiais dos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024.

"Nós surgimos para ser um ponto dissonante em meio a uma mídia elitista e igual", declarou. "Já é difícil ver na fotografia pessoas de cor, mais jovens ou mais pobres. Além disso, esses meninos e meninas que nasceram e moram ao lado das arenas olímpicas têm muito mais conexão com os Jogos do que qualquer fotógrafo estrangeiro."

O trabalho dos jovens que se formaram em 2021 foi exposto duas vezes na capital francesa, abertas ao público geral e muito elogiadas pelos pais dos alunos. "Sem falar que é um evento de arte inserido em uma cena cultural tão excludente como é a de Paris", adiciona Eveno.

A estimativa é ter cerca de 50 fotógrafos aptos até os Jogos. Depois de receber um prêmio da prefeitura de Paris, o projeto passou a contar com apoio do comitê organizador, mas ainda assim a presença deles na Olimpíada é incerta. Eveno avisa que os jovens estarão nos eventos, seja com credencial ou ingresso.

Filial no Brasil

Quando morou no Rio, Quentin trabalhou com a ONG Onda Solidária e, desde a concepção da Analog Sport, já queria trazer o projeto para o Brasil. Isso foi possível no meio do ano passado, quando eles fecharam uma parceria com a Ligue 1 para o lançamento oficial dos uniformes da temporada 2021/22. Assim, os ensaios com as camisas dos times do Campeonato Francês foram realizados em Paris e no Rio, contando com os jovens da ONG carioca.

Presentes nas fotos da Ligue 1, Natasha Ferrari, de 17 anos, e Marcos Vinícios Botelho, 19, usam a mesma palavra para definir a fotografia analógica: poesia. "Não é só tirar a foto, tem que entender porque estou tirando. Preciso me concentrar no que quero mostrar", diz a garota.

Para Marcos Vinícios, "a partir de uma foto, é possível contar histórias, falar de sentimentos". "E nos aprofundamos na questão filosófica, nos preocupando com o material, que não é ilimitado como no digital", completa.

Os dois também participaram do primeiro workshop da Analog Sport com a Onda Solidária, em novembro de 2021. A ONG, que trabalha com jovens também no Rio, tem um espaço cultural em Santana do Deserto, em Minas Gerais, a cerca de duas horas e meia da capital carioca, e onde foram realizadas as aulas.

Ainda que tivessem tido contato com fotos de filme quando pequenos, eles nunca tinham tirado uma foto assim. "Eu via meus álbuns de aniversário de criança e falava 'nossa, quem tirou essa foto?', mas agora eu entendo o processo e sei que não é tão fácil", recorda Natasha dando risadas.

Para quem está começando, é comum cometer deslizes com os filmes, tirar fotos escuras, desfocadas. O problema é que tudo isso só é visto depois da revelação, o que pode ser frustrante. Para Natasha, "isso faz parte do aprendizado, e não é que são fotos ruins ou erradas. Para mim, elas só não ficaram tão boas", conta ela, que agora está montando seu primeiro álbum de fotos.

Por aqui, os coordenadores da ONG tratam como sonho a ida de um brasileiro à Olimpíada, o que já é suficiente para alimentar a imaginação dos alunos. "Essa chance faz nossos olhos brilharem bastante, nessa junção da arte e da fotografia com as questões culturais e esportivas", diz Marcos.

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