Topo

Professora de Alagoas usa estatísticas de Messi para ensinar matemática

Professora Claricy Alves da Silva com os alunos em escola no sertão de Alagoas - Arquivo pessoal
Professora Claricy Alves da Silva com os alunos em escola no sertão de Alagoas Imagem: Arquivo pessoal

Ana Flávia Oliveira

Do UOL, em São Paulo

10/12/2021 04h00

Não é incomum que muitos estudantes temam as aulas de matemática. Os números, cálculos parecem não entrar na cabeça de muita gente. A professora Claricy Alves da Silva, da cidade de Santana do Ipanema, no sertão de Alagoas, dá aulas da disciplina há 19 anos, e sabe bem disso.

"A matemática já tem essa visão, de preconceito. Quando a gente, na sala de aula, já é o carrasco antes mesmo de passar na porta. Então até você mudar essa ideia nos alunos é difícil", disse Claricy em entrevista ao UOL.

Difícil, mas não impossível. Uma forma criativa de burlar esse preconceito é incluir em suas aulas temas do interesse dos alunos. Um dos que mais funcionam, diz ela, é o futebol, esporte do qual é fã. Recentemente, em uma atividade com alunos do 2º ano do Ensino Médio da rede estadual, por exemplo, usou dados da relação entre chutes ao gol e acertos de Lionel Messi, do PSG, considerado sete vezes o melhor jogador do mundo, e despertou interesse até de alunos pouco participativos.

"O material tem uma trave que tem pontos azuis [erros] e laranjas [gols]. Esses pontos dão ideia da posição de onde ele chuta e de onde ele acerta mais. A ideia era que eles notassem onde o Messi atuava melhor baseado nesses dados. Essa atividade não tem resposta certa, eles tinham que interpretar."

Atividade sobre desempenho de Messi usado em aula pela professora Claricy Alves da Silva, que dá aulas em Alagoas - Reprodução - Reprodução
Dados sobre desempenho de Messi usados em aula pela professora Claricy Alves da Silva, que leciona em Alagoas
Imagem: Reprodução

Observando a relação entre quantidade de chutes e gols marcados, primeiramente, os alunos criaram hipóteses de onde ele era melhor ou errava mais e levantaram alguns questionamentos. "Como era uma questão aberta, eles começaram a chegar a algumas conclusões: 'Será que ele erra isso tudo mesmo?' 'Então ele é persistente porque se ele erra tudo e mesmo assim, ele é o melhor do mundo, então é porque ele não desiste', coisas do tipo", conta a professora.

Dessa forma, Claricy conseguiu trabalhar com os alunos questões da mentalidade matemática, teoria da professora e pesquisadora norte-americana Jo Boaler, que defende que todo ser humano é capaz de aprender a disciplina desde que seja adequadamente estimulado.

"O bom desse tipo de atividade é que não tem [resposta exata]. Realmente ele vai pensar, como a gente diz, fora da caixinha mesmo. Não é aquela equação que o x vai ter que dar 10 e todo mundo vai encontrar 10. É a maneira como cada um visualiza. A mentalidade trabalha a valorização do erro e trata o erro de forma diferente para que eles se sintam mais acolhidos e tenham mais oportunidade de falar, mostrar que todo mundo é capaz, mas que precisa das condições necessárias, do apoio, do estímulo", explica.

O comportamento de um dos estudantes, geralmente mais calado e pouco participativo em sala, surpreendeu Claricy. "Um aluno que até então não falava e tinha dificuldade de falar nas aulas me chamou atenção. Ele não joga futebol, mas joga muito videogame, então sabia praticamente todos esses dados de Messi, que ele é esquerdo, onde joga, quais ligas participava, ele sabia explicar como funcionam as ligas".

Inclusão de esportes nas discussões matemáticas

Professora Claricy Alves da Silva - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A professora Claricy Alves da Silva tem 19 anos de experiência e sabe que o futebol atrai a atenção dos alunos
Imagem: Arquivo pessoal

Claricy afirma que os esportes, em geral, não apenas o futebol, proporcionam um vasto campo de discussão dentro de sala de aula. E ela gosta de explorar isso.

"A gente fez até uma feira 'Matemática e Esporte', só relacionando essa questão de onde a matemática entrava nos esportes. Fizemos um trabalho bem detalhado de natação. Por que o atleta fica naquela posição? O que acontece com os braços dele quando trabalham naquela posição? Qual era o ângulo do braço para ele ter maior impulso? Também entrou a questão do basquete, da parábola para acertar a bola na cesta. A gente já fez medição da quadra de basquete, calculou direitinho, pesquisou qual o tamanho indicado para construção das quadras e descobriu que a quadra da nossa escola não estava de acordo com as instruções", lembra.

Embora tente sempre agregar outros esportes, reconhece que o futebol é o queridinho e não perde oportunidades para apostar nisso. "Quando a gente fala de outros esportes, eles têm dificuldades para entender porque aqui, principalmente no interior, tanto meninos quanto meninas têm paixão maior por futebol ou futsal. Natação é difícil e não tem investimento em quadras de outros esportes. [futebol é] O que eles mais conhecem e o que mais gostam e é o que eu aproveito mais."

E como aproveita: já trabalhou, por exemplo, usando a tabela do Campeonato Brasileiro para explicar aos alunos termos como saldo de gols, negativos e positivos, risco de quedas para Série B, quantos jogos o time tem de ganhar para sair da zona de rebaixamento etc. Também costuma usar a velocidade e o ângulo dos chutes a gol para explicar o conceito de parábolas, entre outras atividades relacionando os dois temas.

Claricy reforça que o objetivo é sempre trabalhar a matemática de uma forma que se relacione com o dia a dia dos alunos. "Quando não faz sentido, a chance de sucesso é quase nula", sentencia.