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Jornalista demitido de afiliada da Globo alega racismo em suspeita de furto

Hildázio Santana trabalhou por quase 20 anos na TV Bahia, afiliada da Globo - Reprodução/Instagram
Hildázio Santana trabalhou por quase 20 anos na TV Bahia, afiliada da Globo Imagem: Reprodução/Instagram

Bruno Madrid

Do UOL, em São Paulo

28/10/2021 14h35Atualizada em 28/10/2021 19h49

O jornalista Hildázio Santana, que atuava como coordenador de esportes da TV Bahia, afiliada da TV Globo, afirmou ter sido vítima de racismo por parte de um diretor ao ser demitido pela empresa após ser acusado de furtar uma cafeteira. Em nota enviada à reportagem do UOL Esporte, a empresa nega as acusações e alega que a demissão se deu por uma "decisão gerencial e natural do dia a dia de qualquer empresa privada".

A demissão ocorreu na semana passada e foi divulgada hoje pelo profissional, que disse ao UOL Esporte já estar em contato com advogados, que vão acompanhá-lo no caso.

Segundo Dadá, como é conhecido, a situação teria ocorrido após ele mudar provisoriamente uma das cafeteiras da sede da emissora de sala, já que iria conversar com alguns colegas em outro recinto. O ex-funcionário alega ter esquecido de colocá-la de volta no lugar de origem após participar de algumas reuniões. Ele ainda garante que o aparelho nunca foi retirado do prédio da TV Bahia.

"Retirei uma cafeteira pequena de uma sala e coloquei em outra. A cafeteira não saiu da TV Bahia, continua lá até hoje. No dia seguinte, fui chamado pelo diretor de jornalismo porque as imagens mostravam eu saindo com o equipamento de uma sala para outra. Não coloquei dentro de sacola, nem de mochila, nem embaixo da camisa. Saí com ela nas mãos e por onde passei existiam câmeras mostrando tudo. Há quase dez câmeras de uma sala para outra", relatou, inicialmente, no Instagram.

Hildázio Santana ao lado de Arnaldo Cezar Coelho; jornalista trabalhou em afiliada da Globo por quase 20 anos - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Hildázio Santana ao lado de Arnaldo Cezar Coelho; jornalista trabalhou em afiliada da Globo por quase 20 anos
Imagem: Reprodução/Instagram

Hildázio relata ter sido chamado pelo diretor de jornalismo, Eurico Meira da Costa, no dia seguinte, para conversar em uma sala. Além dos dois, segundo ele, Ana Raquel, gerente de jornalismo, também estava no local.

"O Eurico me colocou dentro de uma sala. Tentou me desligar por justa causa, me coagiu, me julgou, e no final me puniu com um desligamento da empresa. Me acusou da 'subtração' de um equipamento de café", disse Dadá. Vale ressaltar que, para um profissional ser demitido por justa causa, é necessária a comprovação de alguma irregularidade grave, conforme o previsto no artigo 482 da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas).

"Mesmo assim, ressaltei que levei a cafeteira apenas para fazer um café para me divertir com os colegas, e que iria colocar no mesmo lugar, mas por [ter feito] muitas reuniões, não deu tempo. Fui questionado pelo Eurico por que havia entrado de maneira 'furtiva' no local para pegar o equipamento", prosseguiu ele.

"Desde o início foi ameaça"

Em conversa com o UOL Esporte, Dadá Santana deu mais detalhes da sua versão do ocorrido.

"A conversa desde o início foi em tom de ameaça. Contaram sobre a cafeteira e me deram duas opções: ou era demitido por justa causa, ou pedia demissão. [Falaram] para o assunto não vazar e questionei: 'vazar o quê?'. Naquela noite, ele queria me demitir por justa causa, mas pela manhã, mudaram para desligamento", disse ele.

No Instagram, ele detalhou como teria reagido. "Em vários momentos, fui perguntado sobre o tamanho de minha mochila e o que levava nela. Atônito com a situação, não percebi o que ele realmente queria dizer. Meu Deus! Será que em quase 20 anos de TV Bahia e no cargo de liderança que exercia (coordenador geral de esportes), sete promoções dentro da emissora, eu iria subtrair ou furtar um equipamento de café?", prosseguiu ele.

O jornalista considera que, por ser uma pessoa negra, foi tratado como suspeito de um crime desde o começo pelos chefes, que não levaram em conta os anos na empresa e até o cargo de gerência antes de acusá-lo de furto.

"Nunca pensei que em quase 20 anos na TV Bahia, eu iria viver um ato tão cruel por uma pessoa que estava ali para me apoiar. Uma pessoa que deveria ser exemplo no orientar, falar e no cuidar. O racismo é silencioso e desumano. [...] Chega! Precisamos dar um basta. E por isso eu compreendi que precisava falar, me defender, me posicionar."

Empresa nega racismo

Procurada pelo UOL Esporte, a Rede Bahia, dona da TV Bahia, negou as acusações. Em nota, a empresa afirmou que a demissão se deu por uma "decisão gerencial e natural do dia a dia de qualquer empresa privada".

A companhia ainda declarou que "eventuais discussões e desdobramentos do assunto serão tratados com empenho, seriedade e clareza".

O UOL também tentou contato com Eurico Meira da Costa, mas a Rede Bahia informou que "só irá se pronunciar corporativamente".

Leia o comunicado da Rede Bahia:

Em virtude da circulação de notícias e comentários recentes, a respeito do desligamento de um dos nossos colaboradores e dos fatos que supostamente o motivaram, vimos a público esclarecer se tratar de uma decisão gerencial, natural no dia a dia de qualquer empresa privada, decisão essa embasada em questões profissionais, sem qualquer viés persecutório e/ou discriminatório. A Rede Bahia sempre trata seus colaboradores com respeito, igualdade e seriedade. Eventuais discussões e desdobramentos do assunto serão tratados com empenho, seriedade e clareza nas esferas e instâncias competentes.

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