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"Por ser gay e negro, tive que me dedicar mais", diz líbero da seleção

Maique, de 24 anos, é a aposta da nova geração para a seleção brasileira de vôlei - Wander Roberto/Inovafoto/CBV
Maique, de 24 anos, é a aposta da nova geração para a seleção brasileira de vôlei Imagem: Wander Roberto/Inovafoto/CBV

Guilherme Piu

Do UOL, em Belo Horizonte

13/10/2021 04h00

A função do líbero dentro da quadra no voleibol é defensiva. Maique Reis, do Minas Tênis Clube e também da seleção brasileira, também defende bem uma causa fundamental fora das quadras: a LGBTQIA+. O jogador de 24 anos se coloca como um braço forte na luta contra o preconceito e a homofobia no esporte.

"Eu defendo minhas maiores causas que são o combate à homofobia e ao racismo. O mundo é diverso e todo e qualquer tipo de ser humano merece respeito. Você tem que dar o respeito para receber o respeito, então eu busco sempre lutar contra todo tipo de preconceito", diz Maique em entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

Preconceito que Maique já sentiu na pele. "Já sofri ataques, estamos sujeito a isso em todo lugar e todo momento. Em quadra eu sempre me destaquei muito jogando vôlei, então já vi pais de atletas de outros times me chamando de viadinho. Cresci ouvindo isso, que me moldou e me fortaleceu. A gente vive em um mundo em que sabemos que isso acontece. Então, eu vivi esse papel importante de falar, pô, eu vou chegar lá, vou conseguir calar a boca de todos que falaram que eu era isso, aquilo. Me moldei, reformulei e estou sempre me reinventando a todo momento."

E Maique calou a boca de muita gente. No último Campeonato Sul-Americano, realizado em setembro, ele foi um dos destaques da seleção brasileira. Ficou com o título e com o prêmio de melhor jogador da final contra a Argentina.

O que Maique agora quer é mostrar a sua história e servir de exemplo pra outras pessoas. "No vôlei, não só eu, mas tantos outros homossexuais. Não é só estar aqui, não é só jogar, a gente carrega um peso muito maior, uma representatividade enorme. Eu sou homossexual, sou preto, pobre, isso tudo vem comigo, e eu gosto de trazer isso. Não para minimizar ou me fazer de coitado, mas para mostrar minha história, mostrar que eu consegui e fui capaz, isso é importante", diz.

As minhas opções com certeza fizeram e fazem do meu caminho muito mais árduo. Por ser homossexual e negro, tive que me dedicar mais, mostrar mais trabalho para que eu pudesse ser respeitado, para que eu conquistasse o meu espaço. A gente acha que por ser negro e homossexual tem que fazer mais do que, teoricamente, um heterossexual, porque somos minoria. A gente acaba se entregando mais para ter esse destaque e as pessoas te olharem com respeito.

Sonho adiado

Há sete anos no Minas, Maique, esteve cotado para disputar os Jogos Olímpicos de Tóquio, mas ficou fora da lista final do técnico Renan Dal Zotto. Nem mesmo o fato de ter ficado fora das Olímpiadas abateu o jogador, que carrega muitas missões dentro do voleibol.

"Com certeza eu queria ter ido para Tóquio 2020, mas foi um sonho adiado. Continuo buscando meus objetivos, estou na seleção brasileira e vivo um sonho. Era algo distante para mim, não impossível, e hoje é uma realidade. Espero continuar por dez, 20 anos na seleção. Todo mundo fala, Paris é logo ali [risos], vou seguir focado, construindo tijolinho por tijolinho para alcançar meu objetivo maior que é chegar às Olimpíadas", garante.

Quase desistiu do vôlei

Antes de chegar ao Minas Tênis Clube para dar sequência a um de seus grandes sonhos, o de se tornar jogador profissional de vôlei, Maique por pouco não desistiu de atuar. De uma família pobre, o hoje jogador via o seu mundo desabar quando o projeto esportivo do qual ele fazia parte era encerrado no interior de Minas Gerais.

"Eu parei de jogar. Eu jogava em Três Corações, foi o último clube que joguei antes de vir para cá [Minas Tênis Clubes], e lá o projeto tinha acabado. Eu era juvenil na época e o projeto acabou. Falei, eu não vou conseguir arrumar outro clube, não vou fazer peneira, tinha 17 anos e meus pais não tinham condição financeira. Não ia conseguir fazer peneira, ficar um fim de semana, uma semana tendo que pagar lugar para ficar, para me alimentar e fazer teste. Eu me desiludi. Comecei a estudar em Três Corações, não via outra saída", revelou.

Telefonema para mudar a vida

Tudo na vida de Maique mudou com uma ligação: a de Nery Tambeiro, atual técnico do líbero. "Certo dia o Nery me liga dizendo que o primeiro líbero tinha se lesionado, e ele [Nery] falou, a gente precisa de um segundo líbero, não temos. Fizemos uma reunião e optamos por você. Eu falei, meu Deus, comecei a chorar com a ligação e agradeci pela oportunidade", relembrou.

Esse líbero lesionado citado por Maique era Luciano Minossi, o "Lucianinho", hoje estatístico do time do Minas: "Um cara foda, aprendi muito com ele depois que vir para cá, tenho orgulho de trabalhar com ele", completou.

Figura de um pai

Não fosse Nery Tambeiro, Maique teria ficado apenas com o estudo no interior de Minas Gerais e, quem sabe, poderia estar longe de todos os seus sonhos hoje. Por isso, a gratidão do jogador ao seu atual treinador é imensa.

"O Nery é um pai para mim, tenho a eterna gratidão por aquele velhinho. É um grande cara. Para mim ele é, sem palavras, pelo que ele fez. Me tirou do buraco e disse: 'Maique, vem brilhar, mostrar o seu trabalho, mostrar quem você é, de onde você veio, levar sua história para o pessoal. Isso é muito importante. Gratidão eterna por tudo isso que eu vivo".

Outros pontos da entrevista com Maique

Liberdade nas redes sociais

"Nas redes sociais sou bem mais eu, antes eu ficava preso, hoje interajo mais com as pessoas que me seguem, que acompanham o meu trabalho. Quero mostrar o Maique, que as pessoas conheçam o Maique dentro de quadra. Em rede social, na minha vida fora da quadra, quero mostrar quem é o Maique, mostrar a minha história, levar a minha história, contar a minha história, motivar pessoas com a minha história, isso é o mais importante."

Grandes sonhos

"Eu jogo vôlei não é por dinheiro, não é por fama. Jogo vôlei por que sempre foi um sonho desde criança. Assistia jogos na TV e falava que queria jogar profissionalmente. Minha mãe falava comigo que era difícil, a gente era uma familia pobre, meus pais não tinham condições de pagar para que eu jogasse em um grande clube. Eu cresci e falava para mim mesmo que iria conseguir. Hoje ela fala que eu sou além de um filho, sou uma motivação, inspiração. O meu lema é sempre esse, meu sonho é ser jogador e campeão olímpico. No meu trabalho eu busco isso, o resto é consequência, Quero ser campeão olímpico e jogador de vôlei. Um deles eu consegui, que é ser jogador profissional, agora é ser campeão olímpico, se Deus quiser."

Referências, de vida e de luta

Minha referência de vida são meus pais. A minha referência de luta sou eu mesmo. Claro que eu tenho outras pessoas para me inspirar, mas porque eu não posso inspirar-me na minha própria história? Só eu sei o que passei, o que lutei para chegar aqui hoje. Só eu sei o que os meus pais passaram para conseguir que eu realizasse o meu sonho, mesmo eles não acreditando tanto que eu poderia chegar até aqui, mas sempre me motivavam de alguma forma. Sempre busquei me motivar através da minha história, sempre busquei me reinventar. A minha história é linda e quero levar isso para outras pessoas, para que elas possam se motivar também. Me inspiro através da minha história. Foram momentos muito difíceis, sempre busquei mais, nunca desisti. Isso para mim foi muita superação, é algo muito importante para a minha vida, é minha essência."

Mensagem ao público

"Eu deixo uma mensagem. Não é fácil para ninguém, se fosse estava todo mundo vivendo os maiores sonhos, trabalhando no melhor emprego. Nunca desista, sempre existirão empecilhos e barreiras, acredite em você, nunca perca sua essência, nunca esqueça de onde você saiu, onde você quer chegar e quem você é. São pontos importantes e cruciais para todo ser humano. Não falo só no meio do esporte, mas em qualquer momento na sua vida, em qualquer emprego. Se você quer, corra atrás, porque ninguém vai correr por você."

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