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Documentário 'Schumacher' entrega 'herói-humano' e esconde polêmicas

Michael Schumacher - Reprodução/Ben Radford/Allsport/Getty Images
Michael Schumacher Imagem: Reprodução/Ben Radford/Allsport/Getty Images

Ana Flávia Oliveira

Do UOL, em São Paulo

19/09/2021 04h00

Foi a sorte que levou Michael Schumacher, ainda um jovem e promissor piloto à Fórmula 1 em 1991, e foi a falta dela a responsável pelo grave acidente que ele sofreu enquanto esquiava nos Alpes franceses 22 anos depois.

É a opinião de entrevistados para o documentário "Schumacher", co-dirigido por Hanns-Bruno Kammertöns, Vanessa Nöcker e Michael Wech. Logo no início do filme, que estreou nesta semana na Netflix, o pai Rolf Schumacher fala sobre a vaga herdada do piloto Bertrand Gachot, preso por envolvimento em uma briga de trânsito. "A sorte o levou à Fórmula 1. Um piloto desistiu e precisavam de um novo".

"Michael apareceu na Fórmula 1 por sorte, quando Eddie Jordan [fundador da Jordan] ficou com uma vaga disponível, de repente, na metade da temporada", declarou o jornalista esportivo Richard Williams.

Também foi a sorte, ou melhor, a falta dela que mudou o destino do já então heptacampeão mundial em dezembro de 2013. Quando Schumacher esquiava na estação de Méribel, nos Alpes franceses, bateu a cabeça em uma pedra e entrou em coma.

Eu nunca culpei Deus pelo que aconteceu. Foi muita falta de sorte, todo azar que alguém pode ter na vida." Corinna Schumacher, esposa do piloto ao documentário

Michael Schumacher em 1991 - LAT Images - LAT Images
Michael Schumacher em 1991
Imagem: LAT Images

Embora a carreira de Schumi tenha sido extremamente vitoriosa, é o acidente que dá ritmo ao documentário, por meio do tom melancólico da trilha sonora. Mesmo em imagens das conquistas e filmagens caseiras de pura descontração, com família e amigos, os sorrisos se opõem ao peso da música de fundo, como um prenúncio da fatalidade que marcou os fãs de Fórmula 1.

Único com apoio da família, o documentário conta com depoimentos de pessoas próximas, como a esposa Corinna, o pai Rolf, o irmão Ralf, e o filho Mick, além de colegas de profissão e rivais como Damon Hill e Mika Hakkinen.

Em contraste ao piloto frio e perfeccionista, disposto a tudo para ser o melhor e que não reconhecia os próprios erros, a produção apresenta um homem sensível, desconfiado, reflexivo, lidando com as próprias inseguranças, festeiro e atencioso com a família. Em resumo, um ser humano. O filme, no entanto, "esquece" algumas polêmicas de sua carreira e deixa poucas pistas sobre o estado atual de saúde de Schumacher. Corinna, em meio a lágrimas, explica a razão:

Estamos tentando continuar como uma família do jeito que Michael gostava. E ainda gosta. Estamos seguindo com nossas vidas. 'Privado é privado', é o que ele sempre dizia. [?] Michael sempre nos protegeu, e agora estamos protegendo Michael. [...] Todos sentem falta do Michael, mas o Michael está aqui. Diferente, mas está, e isso nos dá força, eu acho. Estamos juntos. Moramos juntos em casa. Fazemos terapia. Fazemos todo o possível para que Michael melhore e para garantir que fique confortável."

Schumacher x Senna

Ayrton Senna tira satisfação com Michael Schumacher após batida no GP da França de 92 - Reprodução - Reprodução
Ayrton Senna tira satisfação com Michael Schumacher após batida no GP da França de 92
Imagem: Reprodução

Quando Schumacher estreou na Fórmula 1, em 1991, o brasileiro Ayrton Senna já era bicampeão mundial —e conquistaria o terceiro título naquele ano. As disputas entre os dois —fã e ídolo— têm um grande espaço na primeira metade do documentário.

Um dos pontos trazidos à tela é uma discussão entre eles após o GP da França, em 1992. Na ocasião, o jovem piloto desafiou o tricampeão e tocou a McLaren do brasileiro, tirando os dois da corrida. Nas imagens resgatadas daquele dia, Senna aparece irritado, argumentando com um Schumacher, que se recusa a aceitar que errou.

"Acho que Michael competia com todos da Fórmula 1 do mesmo modo que fez com todos que competiu. Mas isso causou um atrito. E Senna tentou o colocar no lugar dele algumas vezes na pista, o que irritou Michael. Ele não achou que foi desrespeitoso", defende Ross Brawn, ex-diretor técnico da Benetton.

A reação de Schumacher ao acidente que tirou a vida de Ayrton Senna, no GP de San Marino, em Ímola, na Itália, em maio de 1994, também tem destaque no documentário.

O pior foram duas semanas depois disso, quando tive que aceitar que ele realmente tinha morrido. Isso foi uma loucura. [...]. Foi algo muito estranho. Eu acordava durante a noite e dormia talvez umas três horas por noite, algo assim." Schumacher, em uma entrevista resgatada da época

Williams de Ayrton Senna destruída após acidente fatal em Ímola, em 1994 - Reuters - Reuters
Williams de Ayrton Senna destruída após acidente fatal em Ímola, em 1994
Imagem: Reuters

No resgate do primeiro título mundial do alemão em 1994, o documentário não cita as suspeitas de irregularidades no carro de Schumacher. A FIA nunca conseguiu provar se a Benetton B194 usava controles de largada e de tração, proibidos na época.

O documentário também omite outras polêmicas envolvendo o alemão, como as desqualificações por atitude antidesportiva no GP da Inglaterra daquele ano, que o deixou fora por duas corridas, e no GP da Bélgica, por irregularidades no assoalho do carro. Por causa das punições, o alemão viu a briga pelo título, que estava praticamente assegurado, se transformar em uma batalha com Damon Hill, da Williams, até a última corrida.

Schumi chegou ao GP de Adelaide um ponto à frente do rival. Os dois se chocaram e tiveram de abandonar a prova. O filme resgatou as versões dos dois pilotos. Enquanto Schumacher alegou que foi tocado pelo carro de Hill, o britânico disse que "Michael fez o que tinha que fazer para me impedir de vencê-lo".

Expectativas na Ferrari

Michael Schumacher, ex-piloto da Ferrari - Motorsport Images - Motorsport Images
O casamento entre Schumacher e a Ferrari demorou a dar resultados
Imagem: Motorsport Images

A passagem vitoriosa pela Benetton —coroada por dois títulos mundiais— acabou em 1996. Schumacher aceitou o desafio de devolver a Ferrari ao caminho das conquistas, com um carro que Eddie Irvine, piloto na escuderia italiana entre 1996 e 1999, classificou como "desastre".

Neste ponto, o documentário apresenta outra faceta de Schumacher, a do piloto que ficava até tarde da noite, trabalhando ao lado dos mecânicos para melhorar o carro. "Ele queria fazer algo que não tinha sido feito por Prost, por Senna, por nenhum dos dois pilotos da história recente. Foi um grande desafio", diz James Allen, jornalista e biógrafo do alemão.

Diferentemente do espaço dado a Hill sobre o GP de Adelaide, que definiu o título mundial em 1994, Jacques Villeneuve não aparece no documentário para contar sua versão sobre o acidente no GP da Europa, em Jerez, em 1997. Na ocasião, o alemão jogou sua Ferrari contra a Williams do canadense e terminou na caixa de brita.

Em defesa de Schumacher, são colocadas entrevistas de Ross Brawn, do ex-piloto Mark Webber, de Bernie Ecclestone, ex-chefão da F1, e do ex-empresário Willi Webber. Os entrevistados dizem que o alemão não acreditava que tivesse errado, e Willi Weber até credita a posição do piloto aos astros. "A palavra erro não existe para um capricorniano. Ele nunca erra."

Em uma entrevista coletiva resgatada pelos documentaristas, Schumacher faz uma mea-culpa depois da audiência disciplinar da FIA, que o desqualificou do campeonato de 97. "Obviamente, sou tão humano quanto qualquer um. [...] Eu não queria admitir na época. Mas agora não tenho escolha a não ser admitir, e entendo o que fiz".

Um ponto sensível trazido pela empresária Sabine Kehm eram as dúvidas de Schumacher a respeito do retorno às pistas no ano seguinte após a desclassificação. "Era muito importante para Michael que ninguém na equipe notasse quando ele estava lutando, rangendo os dentes, talvez até em dúvida ou se sentindo desesperado".

Apagamento de brasileiros

Jean Todt é levantado por Rubens Barrichello e Michael Schumacher na Hungria após título mundial conquistado pela Ferrari - Divulgação/FIA - Divulgação/FIA
Jean Todt é levantado por Rubens Barrichello e Michael Schumacher na Hungria após título mundial conquistado pela Ferrari
Imagem: Divulgação/FIA

Havia uma grande expectativa dos fãs em relação à atuação de Schumacher na Ferrari, mas o casamento demorou a dar resultado, o que levou os chefões da escuderia a duvidarem da capacidade do alemão.

Em dado momento, nos perguntávamos se Michael era piloto para nós ou se deveríamos ter alguém como Häkkinen? [...] Questionávamos as qualidades de toda a equipe, e de Michael também." Jean Todt, ex-chefe da Ferrari

Schumacher chegou ao GP de Suzuka, no Japão, em 2000, completamente pressionado, correndo contra um Mika Häkkinen "focado na velocidade, descomplicado, incrivelmente rápido e inspirador", segundo o jornalista Richard Williams.

Quando ele finalmente ganhou o título em 2000, toda a pressão que carregava nos ombros foi liberada. Sentiu que não devia nada a ninguém. Ele deu à Ferrari o campeonato mundial que queriam há mais de 20 anos. A partir daí tudo foi bônus." James Allen, biógrafo

A fala de Allen representa como foram tratados no documentário os quatro títulos seguintes de Schumacher, como se as conquistas fossem apenas por causa do inegável talento do alemão, que "tirou o peso dos ombros".

Embora, a produção se atente ao ótimo relacionamento de Schumacher com todos do time Ferrari, especialmente mecânicos e o defina como "motivador", "esquece" os pilotos brasileiros Rubens Barrichello, peça importante na consolidação dos títulos do alemão na escuderia, e Felipe Massa. Nem mesmo as disputas do alemão com Fernando Alonso, que colocou fim à hegemonia da Ferrari em 2005, ganham espaço no documentário.

A obra entrega emoção e tensão na medida certa e trata o alemão como o herói que veio de uma família pobre, começou a carreira reutilizando pneus achados no lixo e se tornou um dos pilotos mais vitoriosos da história da F1. Mas, talvez, para ter a aprovação da família, "esconde" algumas polêmicas e personagens importantes que ajudaram Schumi a trilhar seu caminho.

Assista ao trailer de "Schumacher"

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