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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Opinião: Leifert fez o jornalismo assumir o ar de zoeira do futebol de rua

Rui Dantas

Colaboração para o UOL, em São Paulo (SP)

10/09/2021 04h00

"A ideia de parar surgiu no meio do ano passado e venho conversando com calma com a Globo desde então, esperando o momento ideal. E é agora!". Com essas palavras, Tiago Leifert surpreendentemente se despede de um capítulo dos mais exitosos na Globo e na TV brasileira.

O dia 12 de janeiro de 2009 foi a data em que Tiago Leifert começou no Globo Esporte. Espontâneo, descolado, trouxe descontração e bom humor à cobertura esportiva da emissora, que era quase tão sisuda quanto o resto do jornalismo da Globo. Seu grande trunfo foi resgatar a ideia de que, antes de jornalismo puro e visceral, o jornalismo esportivo é entretenimento.

E com Leifert, o jornalismo esportivo assumiu o ar daquela "zoeira" do futebol típica das ruas. Ele levou à telinha aquela atmosfera brincalhona, que sempre existiu, em que o flamenguista ri do vascaíno por causa da Série B, em que o corintiano diz que o palmeirense não tem Mundial, ao passo que esse zomba do santista pela conquista da Libertadores do ano passado e por aí vai.

Neste clima, parece que o Esporte da Globo rejuvenesceu décadas e virou positivamente adolescente. E, para espanto geral, até os velhinhos curtiram. Lembro que minha mãe, já acima dos 80 anos e ao final da vida, adorava ver o Tiago Leifert liderando o Globo Esporte. Ela se tornou, juntamente com uma infinidade de gente, viúva do apresentador, quando ele anunciou sua saída do GE em 2015.

O segredo do sucesso: o apresentador claramente se divertia no comando do programa. E dessa mistura bem-sucedida nasceram sacadas até então impensáveis nos tempos pré-Leifert, como televisionar campeonatos de videogame (FIFA) ou mandar beijo para jogador, naquele ambiente machista dos tempos de antanho. Tudo isso num clima de confraternização: não dava para criticá-lo, pois era tudo zoeira, sem deixar de ser jornalismo.

Vi e revi, para escrever esse texto, uma série de edições do Globo Esporte disponíveis no YouTube. Ele tirava até sarro do próprio jornalismo da Globo, numa metalinguagem que jamais passaria na emissora se ele não tivesse criado esta escola de "cobertura esportiva de animação".

Um exemplo: a edição do dia 1º de abril de 2011, o Dia da Mentira. De paletó e gravata, como se estivesse na bancada do Jornal Nacional, apresentou notícias do Corinthians... só que de Alagoas. E do Palmeira... sim, do Palmeira do Rio Grande do Norte.

Claro que os números do Ibope corroboravam seus feitos, do contrário... Ainda bem, pois ele foi o último apresentador que trouxe algo de novo e realmente descolado à TV brasileira desde Faustão nos tempos do Perdidos na Noite, na década de 80, na Band.

Se vai voltar em outra emissora ou se decidiu pendurar as chuteiras, pois tem dinheiro para as próximas gerações, não dá para saber agora. Mas dá para saber que Tiago Leifert trilhou um caminho inovador que, até agora, outros imitam, mas ainda não superam.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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