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Assassino de Sol enviou e-mail à Lola Aronovich: "Odiava toda a família"

Ingrid "Sol" Bueno era jogadora de Call of Duty e foi assassinada em São Paulo - Reprodução
Ingrid "Sol" Bueno era jogadora de Call of Duty e foi assassinada em São Paulo Imagem: Reprodução

Talyta Vespa

Do UOL, em São Paulo

26/02/2021 04h00

A professora da Universidade Federal do Ceará Lola Aronovich, à frente do blog "Escreva, Lola, escreva", recebeu um e-mail que seria de Guilherme Alves Costa, de 18 anos, que confessou o assassinato da gamer Ingrid "Sol" Bueno na segunda-feira (22). Na mensagem, o suspeito se justificava a respeito do crime —e, a ela, anexou vídeos do corpo da vítima, em que ria e debochava do ocorrido.

Guilherme e Ingrid eram gamers —eles jogavam Call of Duty: Mobile—, um meio em que a misoginia é realidade, segundo Lola. Anexado ao corpo do email, o garoto deixou um livro de 52 páginas —analisado pela professora. Em entrevista ao UOL Esporte, Lola explica que a misoginia explícita no discurso do assassino demonstra um rancor em relação ao pai, que não conheceu, e raiva por ter de depender de uma mulher: a mãe. "Ele odiava toda a família".

"Recebi o email na noite de segunda-feira, mas, como já havia desligado o computador, só li no dia seguinte. Não sei dizer se foi ele quem enviou ou se ele deixou pronto para que alguém enviasse. Não dei muita bola porque não é nada muito diferente das mensagens que eu costumo receber —além disso, ele não foi claro, não explicava o que havia acontecido. Junto à mensagem, deixou quatro links, que, primeiramente, decidi não abrir. No fim do dia, começaram as primeiras notícias sobre o assassinato de Ingrid. Então, relacionei o email ao ocorrido", conta.

Ao analisar o livro deixado por Guilherme, Lola afirma que o ódio contra a humanidade se mostrava superior ao ódio pelas mulheres —apesar de ser perceptível a frustração amorosa que permeia o texto.

"Quando ele diz que se sente superior à metade da população, imagino que se refira às mulheres. Ele fica muito incomodado por depender financeiramente da mãe —ao mesmo tempo, diz que é obrigação dela sustentá-lo. É um discurso contraditório. Guilherme diz, no livro, que, se pudesse criar leis, criaria uma que puniria com prisão perpétua ou pena de morte quem abandonasse os filhos. Ele sente muito por não ter conhecido o pai biológico", afirma a professora.

Lola, que estuda e escreve sobre misoginia [ódio às mulheres] há dez anos, explica que é um padrão entre os channers [membros de fóruns anônimos que espalham ódio pela internet] o fato de serem sustentados pela mãe. "Cria-se uma situação desconfortável para eles, porque, ao mesmo tempo em que odeiam mulheres, são sustentados por mulheres".

Ela afirma, ainda, que todos os channers são, também, gamers. "Não vou dizer que todos os gamers são misóginos porque não acredito nisso, mas sei que o ambiente de jogos online é muito tóxico com as mulheres. Muitas jogadoras relatam que criam avatares masculinos para evitar que sejam ameaçadas de estupro, xingadas e assediadas. Isso é muito comum", diz.

Segundo Lola, os jogos online são importantes para o cultivo do ódio —principalmente porque tornam a morte algo natural e, não mais, uma situação assustadora. "Jogar online é muito importante para os misóginos, assim como é a pornografia, na maior parte das vezes. Matar pessoas em jogos o tempo todo faz com que esses gamers parem de se chocar com a morte".

A professora recebe ameaças de morte constantes desde que começou a escrever sobre misoginia na internet. Na quarta-feira (24), ela recebeu mais uma, dessa vez por ter citado um grupo chan no artigo em que divulgou o e-mail de Guilherme. Na mensagem, o assassino diz, ainda, que tem um trato com "outros soldados, armados suficientemente para começar a terceira Guerra Mundial".

Frustração sexual e amorosa

De acordo com Lola, não são apenas adolescentes os usuários de fóruns anônimos. Essas comunidades, ela explica, se tornam ideais para recrutar e doutrinar pessoas "mais perturbadas" para outros tipos de ideologia. Para isso, é comum se apoderar de frustrações sexuais e amorosas dos usuários.

"Esses homens misóginos e machistas crescem com a ideia de que o valor deles como homens tem a ver com o que podem exibir para os amigos —isso inclui mulheres e dinheiro. E aí vem a frustração, porque não conseguem ter essas mulheres, e muito menos, dinheiro. Eles se sentem traídos. Ao mesmo tempo em que há uma propaganda capitalista que promete aos homens esse mundo de privilégios, na vida real, não é tão fácil assim conquistar uma mulher", explica. "Isso faz com que eles fiquem muito confusos: odeiam mulheres, acham que elas são inferiores, mas as desejam sexualmente".

Lola vai além: afirma que os fóruns anônimos se tornam grupos de acolhimento a quem se sente fracassado como indivíduo: "A misoginia é porta de entrada para drogas mais pesadas no mundo gamer e na internet. É como dar a isca para um rapaz que não é bem-sucedido com as mulheres. Lá, eles não apenas se sentem acolhidos por odiarem mulheres, como são estimulados a isso".

"Com o tempo, são apresentados a outros tipos de ideologias de ódio. Homens assim não são acolhidos pela sociedade e, por isso, se sentem bem sendo acolhidos por um fórum anônimo cheio de fracassados. Se exibem, se destacam, e ganham destaque com imagens horríveis que apresentam: matando uma mulher, atacando uma escola, por exemplo".

Questionada sobre o tipo de espaço que a mídia deve dar a casos como o de Ingrid, a professora considera importante a divulgação desse tipo de crime. Dessa forma, é possível alertar a todos sobre os perigos da internet.

Relembre o caso

A jogadora de eSports Ingrid Bueno, de 19 anos, foi morta a facadas na tarde de segunda-feira (22) em Pirituba, zona norte de São Paulo. A polícia informou que o estudante de 18 anos confessou ter cometido o crime após conhecê-la na internet, há pouco mais de um mês, e foi preso em flagrante dentro de casa.

Conhecida por "Sol", a jovem jogava Call of Duty: Mobile pelo time FBI E-Sports. O suspeito também era gamer, mas atuava na equipe Gamers Elite. Por nota, o time disse que soube do caso após o suspeito enviar um vídeo ao grupo indicando que teria cometido o crime —o mesmo vídeo enviado a Lola. O Gamers Elite ainda indicou que o contato com o estudante era de "interação virtual" e que, depois do ocorrido, comunicou à polícia.

Jovem foi encontrada sem vida

Segundo o B.O (Boletim de Ocorrência), Ingrid foi encontrada desmaiada pelo irmão do estudante, que não a conhecia, na tarde da última segunda-feira (22), na casa da família em Pirituba, zona norte de São Paulo. Em seguida, os policiais militares foram até a residência e constataram o óbito.

De acordo com o registro, a gamer apresentava diversas facadas espalhadas pelo corpo. Na delegacia, ainda segundo o B.O, o estudante confessou que teria planejado o homicídio previamente. Ele comentou sobre o livro escrito, que foi anexado ao inquérito e, agora, passará por análise.

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