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"Besuntado" explica por que Tonga não tem um caso sequer de covid-19

Pita Taufatofua, o popular "Besuntado de Tonga", chamou atenção na Rio-2016 e em PyeongChang-2018 - Sean Haffey/Pool Photo via AP
Pita Taufatofua, o popular "Besuntado de Tonga", chamou atenção na Rio-2016 e em PyeongChang-2018 Imagem: Sean Haffey/Pool Photo via AP

Arthur Sandes e Beatriz Cesarini

Do UOL, em São Paulo

01/09/2020 04h00

Tonga é um dos 10 países do mundo que não teve um caso sequer de covid-19 registrado. Em conversa com o UOL Esporte, o atleta e morador ilustre do arquipélago Pita Taufatofua explicou as razões para o coronavírus não ter atingido seu país natal e também contou como está a rotina de treinos para as Olimpíadas durante a pandemia.

Pita Taufatofua ficou conhecido no mundo ao entrar no Maracanã na abertura da Rio-2016. Sem camisa e com óleo de coco sobre o corpo, o porta-bandeira foi apelidado de Besuntado de Tonga e de imediato se tornou um personagem olímpico

"A primeira coisa é rezar", disse Pita ao comentar sobre o fato de Tonga não ter casos de covid-19. "Mas o país também fechou a fronteira muito cedo e ficou isolada bem no começo da pandemia, quando outros países ainda estavam decidindo fechar ou não. Neste momento Tonga já tinha decidido fechar, assim como outros países do Pacífico também", acrescentou o lutador de taekwondo.

Além do fechamento precoce das fronteiras, Tonga também tem a vantagem do isolamento geográfico por ser um arquipélago. Logo no início da pandemia, o governo do país da Oceânia também adotou medidas como o impedimento do livre transito de moradores, além da proibição da chegada de aviões os navios.

Pita não está em Tonga no momento, porque realiza seus treinos de taekwondo em Brisbane, na Austrália. Justamente pelo país estar com as fronteiras fechadas, o atleta não vê amigos próximos e familiares há bastante tempo, mas compreende que, diante da pandemia, esse é o melhor cenário para manter a segurança e saúde de todos.

"Eu não fui para lá nos últimos meses, inclusive estou com muita saudade de casa, de meus pais, da minha família toda. Todos que estão morando em outros países não estão permitidos a entrar, porque as fronteiras estão fechadas. Mas está tudo bem, eu entendo não poder visitá-los, porque ninguém quer ser a pessoa que leva o vírus para o país", declarou Pita, que ainda se mostrou preocupado com seu país.

"Se algo acontecer, se o coronavírus entrar, a Tonga inteira só tem dois ventiladores para muita gente. Então o melhor que podemos fazer, nós que estamos fora do país, é mandar energias e rezar. Só estou feliz de que eles estejam seguros, porque só há alguns poucos países nesta situação [sem casos], e Tonga é um deles", destacou o atleta.

Pandemia mudou os treinamentos de Pita

Longe da família e de seu país natal, Pita seguiu firme a sua preparação para os Jogos Olímpicos de Tóquio - adiados para julho do ano que vem. Classificado para disputar uma medalha no taekwondo, o atleta conseguiu adaptar seus treinos em sua própria casa em Brisbane, cidade na qual está morando desde o início da pandemia.

"Eu pratiquei exercícios durante toda a pandemia, mas tive que mudar o estilo de treinamento. Quando me classifiquei no taekwondo, em março, eu estava numa sequência de nove meses treinando direto. Eu treinava canoagem uma vez por semana, porque tinha a lesão na costela; agora consigo treinar mais vezes. Tive sorte, porque na preparação para a Rio-2016 eu tinha que ir para a academia; e agora minha própria casa é muito parecida com uma academia, então quando o comércio fechou eu pude continuar fazendo exercícios em casa mesmo", contou.

A Olimpíada de Tóquio iria acontecer em julho deste ano, mas foi adiada justamente por causa do coronavírus. Pita acredita que é difícil prever como estará a situação do mundo em um ano, mas está esperançoso em relação à realização dos Jogos.

"Nada na vida é plenamente seguro: cada vez que dirigimos um carro, há um risco. Sou alguém bem otimista, e um ano me parece bastante coisa. Pode ser que as pessoas já estejam vacinadas, há um movimento neste sentido. Tóquio com certeza terá um plano de contingência para ter os Jogos em condições para os atletas e manter o espírito olímpico. Eles estão planejando isso, e acredito que dará certo", afirmou Pita, que ainda destacou que essa competição ficará marcada para sempre.

"Veja pelo que estamos passando: temos uma pandemia, discussões sobre racismo, problemas políticos de todo tipo, muitas pressões de muitas maneiras. E os Jogos Olímpicos são sobre solidariedade, sobre marchar juntos, e esta mensagem precisa ser passada às pessoas. Talvez a gente pense que tem muitas diferenças entre nós, mas a pandemia lembrou que somos todos humanos. Se não estivermos juntos, lutar juntos contra racismo, contra o aquecimento global? A Olimpíada é um dos poucos eventos que reúne pessoas do mundo inteiro, e esta coletividade é necessária", concluiu.