Topo

Pan: nascido no Japão, Yudy ganhou 10kg com coxinha e guaraná antes do ouro

Eduardo Yudy na vitória com ippon contra o dominicano Del Orbe na final do Pan -  Abelardo Mendes Jr/ rededoesporte.gov.br
Eduardo Yudy na vitória com ippon contra o dominicano Del Orbe na final do Pan Imagem: Abelardo Mendes Jr/ rededoesporte.gov.br

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

11/08/2019 04h00

O judoca Eduardo Yudy ganhou o quarto ouro do judô brasileiro no Pan de Lima ontem (10). Filho de imigrantes brasileiros, ele nasceu no Japão e veio ao Brasil com 19 anos depois que uma academia brasileira foi disputar um torneio na Ásia e o convidou para treinar em São Paulo.

A decisão parece ter dado certo, e o judoca é visto como um dos nomes para renovar a seleção. Seu maior título até aqui veio após um golpe relâmpago que lhe garantiu um ippon aos 18 segundos da luta contra o dominicano Medickson Del Orbe.

A trajetória coroada com o ouro em Lima começou com as tradicionais dificuldades e alegrias de um imigrante em um país distante. Em seus primeiros dias no Brasil, Yudy sofreu para aprender português, mas se deliciou com a comida brasileira.

"Se eu falar isso minha nutricionista vai ficar brava, mas eu gostava muito de coxinha e guaraná", afirmou ele após conquistar a medalha. "Eu era muito leve. Lutava [na categoria] 81kg pesando 76kg. Quando eu cheguei no Brasil engordei 10kg. Antes do treino eu mandava três coxinhas grandes e duas garrafinhas de guaraná. Parei de comer coxinha e guaraná graças ao Rafael Silva, o famoso Baby. Fui treinar com ele, e ele caiu na minha barriga. Passei mal o treino inteiro e nunca mais comi antes do treino."

Atleta largou faculdade por sonho olímpico no Brasil

A história de como o atleta veio parar no Brasil mistura os sonhos de seus pais com o dele próprio. O judoca nasceu na província de Ibaraki, depois que seus pais brasileiros foram visitar uma parte da família que morava no Japão. Os pais acabaram decidindo ficar para trabalhar e construir a vida lá.

Yudy começou a treinar no judô e já se destacava quando surgiu a oportunidade de participar de um campeonato júnior no Brasil. Convidado a ficar, Yudy largou a faculdade de Educação Física e tirou dinheiro do próprio bolso para se manter em São Paulo. Logo depois, foi contratado pelo clube Pinheiros. Aos 24 anos, é sargento do Exército brasileiro graças ao programa de incentivo ao esporte de alto rendimento mantido pelas Forças Armadas. No Brasil, ele pretende retomar os estudos.

Abelardo Mendes Jr/ rededoesporte.gov.br
Imagem: Abelardo Mendes Jr/ rededoesporte.gov.br

Ao prestar continência à bandeira brasileira em Lima, o judoca deixou de cantar o hino nacional. Bem-humorado, afirmou que ainda está aprendendo a letra e comentou seus tropeços com a língua portuguesa.

"No começo eu não falava nada mesmo e tinha muita dificuldade. Só sabia falar 'obrigado', mas não conseguia montar uma frase, não sabia falar coisas como 'comer'. Com a ajuda de meus amigos, consegui aprender bem rápido", disse ele, com um leve sotaque do interior paulista. "Até hoje erro algumas coisas, mas é bem menos do que antes."

O judoca diz que seu maior sonho é ser campeão olímpico e, para chegar lá, ele precisa primeiro se classificar para os Jogos do ano que vem. A vaga pode vir no Mundial de judô, que também será realizado em Tóquio no fim do mês.

Sentindo-se mais brasileiro do que japonês, Yudy já antevê um desafio extra, além dos que encontrará no tatame.

"Hoje em dia prefiro comida japonesa porque coxinha eu já comi bastante", ele admite. "Fico com saudade de comida japonesa. Agora vou pro Japão e provavelmente a comida do hotel é muito boa. Vou dar uma engordadinha e minha nutri vai pegar no meu pé. Tem que controlar."

Após quatro medalhas de ouro, uma de prata e duas de bronze, a seleção brasileira de judô chega hoje ao seu último dia de competição no Peru. O encerramento do Pan está previsto para as 20h30 (de Brasília).