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Caio volta à rua onde quase morreu há 2 anos para ganhar prata

Caio Bonfim comemora a medalha de prata na marcha atlética de 20 km no Pan de Lima -  LUKA GONZALES / AFP
Caio Bonfim comemora a medalha de prata na marcha atlética de 20 km no Pan de Lima Imagem: LUKA GONZALES / AFP

Demétrio Vecchioli

Do UOL, em Lima (Peru)

04/08/2019 15h00

Avenida José Larco. Caio Bonfim sabe exatamente o nome do local onde ganhou a medalha de prata dos Jogos Pan-Americanos neste domingo (4), em Miraflores. Não por este ser um dos cartões postais de Lima, mas porque foi exatamente nesta rua que ele quase morreu há dois anos. Estava escrito no destino, porém, que o marchador de Sobradinho (DF) voltaria ao Peru para finalizar a volta por cima depois daquele episódio.

Era dia 13 de maio de 2017 quando Lima recebeu a Copa Pan-Americana de Marcha Atlética. Depois de terminar em uma modesta 30ª colocação, passando muito mal, Caio saiu de Miraflores de ambulância e foi hospitalizado com um quadro de desidratação aguda.

"Eu tomei um suplemento, que até então eu não sabia que estava contaminado. Meu batimento (cardíaco) chegou a 234. Mijei preto, como Coca-Cola. O médico perguntou se eu tinha tomado dois comprimidos, porque era para ter tomado dois. Falei que sempre só tomo um, nunca tomo dois. E ele disse que então por isso que eu estava aqui para contar história. Eu podia ter morrido aqui", lembra.

Essa não é a primeira vez que Caio dá a volta por cima em um lugar conhecido. "Na Olimpíada de Londres, em 2012, onde eu vomitei foi onde eu passei o sul-africano para ganhar a medalha de bronze (no Mundial de 2017). Eu sabia que Deus não ia deixar eu perder essa oportunidade, na rua José Larco, no mesmo lugar, de novo. Eu já sabia que algo especial estava por vir. Eu não vim aqui à toa. Eu ganhei essa medalha naquele dia."

As histórias vividas em Lima e em Londres estão conectadas. Caio correu o Mundial de 2017 sabendo que eram fortes os boatos de que ele seria suspenso por doping. Por quase um ano, temeu perder o bronze. O suplemento contaminado o fez ser pego em exame antidoping, o que só foi tornado público em meados do ano passado. A suspensão de seis meses, porém, não foi retroativa e ele não perdeu o bronze no Mundial.

A pena branda também o permitiu vir ao Pan como forte candidato ao ouro. Na prova deste domingo, Caio era o líder até a abertura da última volta, de 1 quilômetro. Mas foi ultrapassado pelo equatoriano Brian Pintado e pelo guatemalteco Jose Alejandro Barroso. Só se recuperou nos últimos 50 metros, ultrapassando Barroso para ganhar a prata no photo finish.

Depois de Erica Sena lamentar o bronze e reclamar de uma punição de 2 minutos que considerou injusta, Caio decidiu fazer uma prova mais conservadora. "Eu podia até arriscar um pouco mais, mas como eu já tinha uma falta no quadro a gente ficou com medo da interpretação subjetiva da arbitragem. Aí montamos uma estratégia mais técnica. Era melhor não arriscar, você quer brigar pelo ouro e fica sem nada".