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Pan 2019

Pan-2019: comerciante dá nome de Neymar ao filho e à empresa da família

Neymar Chipana, do Peru, ganhou o nome em homenagem ao atacante brasileiro - Arquivo pessoal
Neymar Chipana, do Peru, ganhou o nome em homenagem ao atacante brasileiro Imagem: Arquivo pessoal

Adriano Wilkson

Do UOL, em Lima (Peru)

31/07/2019 04h00

Encantado com o que os brasileiros eram capazes de fazer com a bola nos pés, o comerciante peruano Elgar Chipana, que vivia na periferia de Lima, não hesitou ao escolher o nome de batismo de seu terceiro filho. O ano era 2010 e, do outro lado do continente, um garoto franzino dono de um topete extravagante começava a surgir para o mundo. "Vai se chamar Neymar", pensou Elgar sobre o filho. "Esse vai ser um dos grandes."

Se Neymar já é um nome raro no Brasil, pense em como soou no Callao, um distrito portuário ao norte da capital peruana que recebe competições como o taekwondo nos Jogos Pan-Americanos de 2019. Cheio de Juans, Josés e Jesús, o distrito não tinha conhecido até então aquela incomum combinação de sílabas. O pequeno Neymar ganhou ainda, como segundo nome, um Giovanni. A referência não é a Giovanni, o Messias, craque do Santos na década de 1990, mas a Giovanna, mãe do Neymar peruano. Ela não se opôs à homenagem ao atacante brasileiro.

No documento de identificação do garoto, que hoje tem nove anos e joga na base do Cantolao, o time do bairro, lê-se um sonoro Neymar Giovanni Dulanto Chipana. O Neymar peruano participa de campeonatos, já levantou taças e, quando visitei a família, estava em excursão com o time pelo interior do país. "Ele está aprendendo, ainda é cedo para dizer se será um jogador profissional", me disse por telefone o treinador da equipe, Victor.

O orgulho pelo nome dado ao filho levou Elgar a dar um passo adiante. Quando a família resolveu montar uma mercearia em um dos cômodos da casa, ele não teve dúvida e tacou o nome do filho no toldo do comércio. "O bairro todo passou a me conhecer como o 'seu Neymar' e isso ajudou as vendas", ele alega.

Mercearia - Adriano Wilkson/UOL - Adriano Wilkson/UOL
Imagem: Adriano Wilkson/UOL

Mas não por muito tempo. A vida, como o futebol, é dinâmica e quando os ventos da economia local mudaram, Elgar também mudou. Fechada, a mercearia deu lugar ao novo negócio da família, uma distribuidora de gás. Mas a casa ainda conserva o nome do atacante na fachada.

Nomes brasileiros são caso antigo na família

Quando o comerciante resolveu chamar o filho de Neymar ninguém se surpreendeu. Até porque Elgar já tinha um histórico de extravagâncias no que se refere ao batismo de seus filhos. Em 1999, quando o casal engravidou pela segunda vez, o antigo zagueiro peladeiro da periferia de Lima tirou outro nome da criança das páginas esportivas. E não foi qualquer nome, mas o do brasileiro que naquele ano seria eleito o melhor jogador de futebol do mundo.

E assim foi batizado o pequeno Raul Rivaldo Dulanto Chipana, a única pessoa que ele jamais conheceu chamada Rivaldo. "Sempre gostei desse nome, na escola eu era visto como o cara legal e bom de bola", comenta Raul Rivaldo, que apesar disso, jogou de goleiro nas categorias de base dos pequenos clubes peruanos pelos quais passou. Anos depois, Raul Rivaldo acabaria se tornando o orgulho da família por virar policial. Quando visitei os Dulanto Chipana, ele acabara de participar do desfile militar em comemoração aos 198 anos da Independência do Peru.

Familia Neymar - Adriano Wilkson/UOL - Adriano Wilkson/UOL
Jesús, Elgar e Raul Rivaldo, da família do Neymar peruano
Imagem: Adriano Wilkson/UOL

Zagueiro considerado por si mesmo do tipo carniceiro ("quando eu dava o bote, passava o jogador ou a bola, nunca os dois"), Elgar ainda tem um neto batizado em homenagem ao principal beque da seleção brasileira, Thiago Silva. Jesús Chipana, primogênito de Elgar e pai do menino de quatro anos, resolveu chamá-lo assim por admirar o capitão da seleção e por considerar Thiago um nome incomum no Peru.

"Infelizmente, eu sou o único da família que não ganhou um nome brasileiro", lamenta o motorista Jesús, de 25 anos. "Mas se você pensar bem, hoje o Brasil tem o Gabriel Jesus, então já me sinto contemplado", ele brinca.

Neymar posada - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Elgar não limitou sua criatividade ao seu núcleo familiar mais próximo. Revolvendo a memória, recorda que, nos anos 80, convenceu uma prima a batizar um filho de Zico. E outra a batizar seu rebento de Marquinho. Para quem não sabe, Elgar lembra que Marco Antônio Silva, o Marquinho, foi um gaúcho que marcou época no peruano Sport Boys entre 1990 e 1992 e depois em 1999. Uma flâmula do Sport Boys pende do depósito de botijões de gás de onde a família tira seu sustento.

Hoje, Zico Alberto Tamara Reyes tem 30 anos e Marquinho Mendonza Dulanto, 26.

"Adoro todos os jogadores brasileiros, do Neymar ao Ronaldinho", comentou em uma rápida conversa por telefone o homônimo peruano.

Neymar e Elgar - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Neymar e seu pai Elgar saboreando jalea, um prato típico do Peru
Imagem: Arquivo pessoal

Elgar não sabe se o seu Neymar vingará como jogador profissional, mas sabe que isso não é o mais importante.

"Sempre digo a ele que o futebol é legal, mas o que ele tem de fazer mesmo é estudar", conta o vendedor peruano. No Callao, uma das áreas mais pobres e violentas da região metropolitana de Lima, é preciso estar atento com o "outro lado", ele explica. A família sabe que apenas com muito trabalho e estudo poderão prosperar e alcançar uma vida melhor.

"Se ele vai bem nos treinos, eu lhe compro presentes como chuteiras. E se ele vai bem na escola, lhe compro outras coisas que ele queira. É uma forma de incentivá-lo a não esquecer de dar importância aos estudos, além do futebol", afirma Elgar.