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Cartola da NFL é boicotado no próprio time após comparar atletas a detentos

Do UOL, em São Paulo

28/10/2017 19h54

O desentendimento entre os jogadores e os donos das franquias da NFL (National Football League) parece não ter fim. Uma reunião entre as partes na última quinta-feira (17) prometia ser produtiva, mas acabou ofuscada por uma declaração infeliz que caiu como uma bomba na discussão sobre os protestos dos atletas do futebol americano durante o hino nacional.

Onze donos de franquias se reuniram com 12 atletas e outros representantes da classe em Nova Iorque. O papo foi lucrativo, segundo pessoas presentes ao encontro, pois os chefões pela primeira vez estiveram dispostos a ouvir a queixa dos jogadores. Mas a sequência de reuniões que poderia pavimentar um entendimento tornou a situação pior devido a uma frase de Robert McNair, dono do Houston Texans.

“Nós não podemos ter os detentos comandando a prisão”, disse McNair no encontro entre os donos, quando os jogadores já não estavam presentes. O multimilionário, que contribuiu para a campanha presidencial de Donald Trump no ano passado, alegou neste sábado (28) que “não estava referindo-se aos jogadores” — um pedido de perdão diferente daquele feito no mesmo dia da declaração, quando o dono dos Texans disse que as palavras não deveriam ser tomadas literalmente.

Diante das palavras, os atletas dos Texans cogitaram não enfrentar o Seattle Seahawks neste domingo. O defensor Duane Brown foi o mais incisivo nas respostas a McNair. “É assim que você nos vê? Você é um detento. Nós não podemos deixar você sair da linha. Não podemos te deixar falar por si mesmo”, disparou.

Além disso, dois jogadores não treinaram na última sexta-feira (27): DeAndre Hopkins e D’Onta Foreman. De acordo com a ESPN, o elenco vai se reunir nesta noite para decidir qual será a demonstração de repúdio a ser feita na partida deste final de semana.

A situação atual da NFL é extremamente complexa: o atrito entre os times e os atletas tem aumentado, e a Liga não tem se mostrado capaz de resolver a questão. Alguns donos de franquias querem suspensão para quem protestar durante o hino, enquanto os atletas cobram apoio dos clubes para ter suas reivindicações ouvidas. Como se tudo isso não bastasse, ainda há a noção de que alguns patrocinadores talvez deixem a NFL por conta da polêmica.

Expectativas antes da reunião eram boas

As reuniões tinham objetivo de esfriar os ânimos, sendo uma chance para os donos das franquias formularem um plano para contentar os atletas — o que acalmaria torcedores e patrocinadores. Encerrar as críticas de Trump e convencer os atletas a ouvir o hino de pé, assim voltando o foco de volta à bola e ao campo. A expectativa do comissário da NFL, Roger Goodell, era de que as partes entrassem em acordo e “deixassem para trás” o incidente envolvendo o hino nacional.

Dono dos Cowboys pressiona por punição, mas fica isolado

Jerry Jones, dono do Dallas Cowboys - Thearon W. Henderson/Getty Images - Thearon W. Henderson/Getty Images
Imagem: Thearon W. Henderson/Getty Images

Dentre os donos de franquias, Jerry Jones é o que se mostra mais interessado em resolver a questão com punho de ferro. O dono do Dallas Cowboys já disse publicamente que qualquer atleta de sua equipe que protestar vai imediatamente para o banco.

A decisão é simbólica por envolver o maior time da NFL, localizado em um dos estados mais conservadores dos EUA. No Texas, torcedores furiosos e ultrajados pelos protestos ameaçam boicotar os jogos; não à toa a audiência da TV local para Cowboys x Green Bay Packers foi 19% menor do que no ano passado.

Pelo extremismo na questão, Jerry Jones acabou barrado do encontro com os atletas, em uma tentativa de Roger Goodell de manter a conversa em termos produtivos. Depois, em reunião privada entre os donos, o representante dos Cowboys teria sido incisivo ao pressionar a NFL a criar uma regra clara. Jones quer que todos os atletas ouçam o hino em pé, sob pena de suspensão.

Donos têm opiniões diversas

Os posicionamentos dos donos são bastante diversos entre si, até porque o problema é político, não esportivo, e põe em xeque não regras ou conceitos do esporte, mas toda a construção de marca tanto das franquias quanto da própria NFL.
Segundo a ESPN americana, apenas nove dos 32 representantes de times estão interessados em punir quem protesta durante o hino nacional. Alguns estariam cansados de ver Jerry Jones comandar as reuniões entre donos, além de entender que seu posicionamento público colocou todos em posição delicada.

Ultimato torna o futuro incerto

Talvez a frase que melhor represente as reclamações dos jogadores seja a Demario Davis, linebacker do New York Jets. “Vou facilitar para vocês: vocês não estão nos apoiando, e enquanto não fizerem isso o problema continua”, disse Davis durante a reunião com os donos.

O posicionamento da Associação de Jogadores da NFL, uma espécie de sindicato da classe, discursa pela importância dos protestos e pela carga social e política contida na atitude. Um entendimento parece longe de virar realidade pois, ainda que a reunião tenha sido proveitosa. Uma das reclamações dos atletas é justamente a posição dúbia dos donos das franquias, que segundo eles não fazem publicamente o que dizem nos vestiários.

Mas como tudo começou?

49ers ajoelham durante hino dos EUA - AFP PHOTO / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / OTTO GREULE JR - AFP PHOTO / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / OTTO GREULE JR
Imagem: AFP PHOTO / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / OTTO GREULE JR

A Liga não tem conseguido lidar com uma série de eventos que começaram com uma crítica de Donald Trump. Há cerca de um mês, ele disse durante um comício que qualquer atleta que se ajoelha durante o hino é um “filho da p…”. A ofensa amplificou os protestos, colocando o esporte bem no centro da divisão política vivida pelos Estados Unidos desde a eleição presidencial de 2016.

O quarterback Colin Kaepernick, hoje desempregado, foi o primeiro a se ajoelhar durante o hino nacional no ano passado, quando defendia o San Francisco 49ers. O intuito é criar uma discussão pública sobre o racismo nos Estados Unidos, jogando luz principalmente sobre a violência policial — e do estado como um todo — ao lidar com os negros.

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