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Ítalo Ferreira: "Medina joga duro, não deixei que entrasse na minha cabeça"

Italo Ferreira venceu o mundial de surfe em Pipeline - WSL / Cestari
Italo Ferreira venceu o mundial de surfe em Pipeline Imagem: WSL / Cestari

Talyta Vespa

Do UOL, em São Paulo

23/12/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Ítalo Ferreira, campeão mundial de surfe, esteve em São Paulo neste domingo (22)
  • Atleta avaliou interferência de Medina contra Caio Ibelli e disse que não faria algo do tipo: "Ele joga duro"
  • Surfista dedica troféu à avó, que morreu neste ano, e relembra dificuldades financeiras ao lado dos pais
  • Classificado para as Olimpíadas de Tóquio, Ítalo imagina que vai sentir a pressão em torno da medalha
  • Na bateria que disputou com Medina, ele garante: "Só pensava em vencer"

Ítalo Ferreira se consagrou campeão mundial de surfe pela primeira vez neste mês. O surfista potiguar venceu o favorito Gabriel Medina na inédita final entre brasileiros no circuito —a quem ele atribui o título de um atleta "muito competitivo, que joga duro". Em entrevista exclusiva ao UOL Esporte, depois de 16 horas de voo entre Havaí e São Paulo e morrendo de vontade de voltar para a casa, Ítalo fala de fair play, Olimpíada e família.

"O Gabriel [Medina] jogou na regra. Alguns atletas já fizeram essa interferência, o próprio Kelly [Slater] já fez isso. Mas não é esse o tipo de atitude em que eu me inspiro. Os caras que tenho como referência não fariam coisa do tipo, só querem surfar e não se preocupam muito com o adversário. Há momentos em que você precisa ser inteligente, claro, mas com parcimônia. Para alguns colegas, a atitude do Gabriel soou inteligente. Para outros, jogo sujo", diz.

É um ponto bem delicado. Ele é muito competitivo, joga duro, mesmo. Não abre para ninguém. O lance é não entrar na onda, nem se deixar levar pelo jogo dele. Se deixar, ele entra na nossa cabeça. Não pude deixar que ele entrasse na minha".

Ítalo analisa a ação de Medina: "Ele tinha nota e o Caio ainda não tinha. Então, ao bloqueá-lo, ele perde a nota daquela onda, mas ainda ficaria com a primeira. O Caio continuaria com zero e ele venceria a bateria. Foi uma jogada louca".

Para a Olimpíada de Tóquio, o atleta acredita que a repercussão de um lance similar seria a mesma que rolou no mundial. "A diferença é que, no Japão, as ondas são diferentes, é mais difícil de pegar onda boa. Os atletas se conhecem, sabem quais os pontos fracos e os pontos fortes de seus concorrentes. E sabem que isso pode acontecer. Não fiquei com medo de o Gabriel fazer o mesmo comigo porque não dei espaço, foquei no que eu precisava fazer".

"Ainda vivo um momento de alegria em relação ao mundial, então ainda não senti a pressão da Olimpíada. Imagino que, no começo do ano que vem, ela vai aparecer. Não imagino o tamanho, a dimensão desse sentimento em relação à responsabilidade de trazer uma medalha para o Brasil. Mas acho que é gigantesca. Ser campeão do mundo era meu sonho de infância. Nem imaginava, um dia, disputar Olimpíada. Foi uma surpresa para mim".

"Vó, o troféu"

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

A avó de Ítalo, com quem ele dividia a casa e as celebrações, morreu neste ano. Foi a lembrança dela que ele levou na memória durante todo o campeonato. Agora, de volta para casa, não vai ter a recepção discreta, mas calorosa, que sempre teve por parte dela: "Minha avó era bem fechada, mas, quando eu conquistava alguma coisa, ela dizia: 'Você fez bonito, meu filho'. Era sempre essa frase", emociona-se.

"A primeira coisa que eu fazia quando chegava em casa era ir até ela e gritar 'vó, o troféu!'. Dessa vez, vou fazer a mesma coisa, porque é a ela que dedico essa conquista. Só que, agora, vou ter que gritar muito, muito alto pra ela conseguir ouvir", diz.

Ítalo morou com os pais até pouco tempo. Hoje, mora pertinho, e sempre que está em Baía Formosa, no Rio Grande do Norte, passa a maior parte do tempo com eles. Com o dinheiro que ganhou até agora, comprou a casa em que eles moram hoje, uma pousada e um restaurante "para que pudessem ter fonte de renda própria" — antes, o pai vendia peixa e a mãe era professora de escola. Só que, agora, os planos do surfista em relação à família têm mudado. "Eles estão muito cansados com o trabalho e eu acho que chegou a hora de eles deixarem tudo isso de lado para começar a aproveitar a vida. Chegou a idade".

Para o surfista, proporcionar esses momentos aos pais não é nada perto de tudo o que eles fizeram para que ele fosse campeão. "No início, foi difícil. Meus pais não tinham boas condições financeiras. As pessoas do nosso convívio questionavam. Diziam: 'Como vocês vão deixar esse menino, que nem é maior de idade, viajar? Ainda mais viver desse esporte que não dá dinheiro?'. E eles ficavam com medo", conta.

"Quando comecei a ajudar em casa com dinheiro dos campeonatos, eles perceberam que era isso mesmo que eu queria: ajudar minha família. E as coisas foram melhorando", relembra. "Quando comecei a competir, passava de casa em casa pedindo dinheiro no supermercado e até para a prefeitura da cidade. Na maior parte das vezes, as pessoas nem me atendiam. Todos esses 'nãos' só me davam mais vontade de conseguir, sabe?".

"Quando não tinha dinheiro para inscrição ou para comprar as coisas, meu pai se matava para vender peixes. Minha mãe trabalhava em uma escola e ia a pé todos os dias porque vendia o vale-transporte e me dava o dinheiro. Eles são responsáveis por tudo e eu sou muito grato de poder fazer o mínimo por quem amo. Em alguns momentos, eu tinha certeza de que não ia conseguir. Mas nunca desisti", diz.

"Só pensava em vencer"

Ítalo relembra o momento em que entrou com Gabriel Medina para a bateria final. "Eu só pensava em vencer. Foi a bateria da minha vida. Tanto eu como ele tínhamos chance de vencer, mas para mim era muito mais importante. Era a minha vez. Eu nem pensei no Gabriel. Tentei bloqueá-lo na primeira onda para começar com uma boa nota porque eu sabia que ele jogaria duro".

Para o bom desempenho, o surfista treina todos os dias -de duas a três vezes diárias. "São dois ou três treinos no mar e um na academia, gosto de pegar peso. Fico, mais ou menos, 1h40 dentro do mar e 1h no treino físico. Sempre antes de competir. Quando viajo, diminuo a intensidade".

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