Dez anos de solidão

Cheguei ao UFC com a ajuda do meu técnico, mas secretamente ele me espancava

Ericka Almeida Especial para o UOL, de Sorocaba (SP)
Arte/UOL

Alerta de gatilho: Esse texto aborda temas como estupro e violência sexual.

Quem me visse em outubro de 2015 poderia achar que eu estava vivendo o melhor momento da minha vida. Eu estava em Dublin, na Irlanda, fazendo a minha segunda luta no UFC. Aos 26 anos, tinha me tornado a primeira mulher do Estado de São Paulo contratada pela maior organização de MMA do mundo.

Era a minha primeira viagem para fora do país e minha primeira entrevista para a imprensa internacional. "Eu me imagino finalizando ela no primeiro round", disse a uma repórter no "dia de mídia" do UFC, projetando a luta com a irlandesa Aisling Daly. No vídeo que ainda está no YouTube, estou sorrindo e pareço confiante.

Mas naquele dia tinha acontecido o inimaginável. Eu tinha ido a Dublin acompanhada do meu técnico, da minha irmã e do dono da empresa que me patrocinava. Minha irmã, meu técnico e eu dividimos um quarto. O UFC nos mandou o uniforme que deveríamos usar durante as entrevistas. Quando minha irmã vestiu a calça legging que fazia parte do uniforme, meu técnico pirou.

Ele chamou minha irmã de biscate, disse que ela queria aparecer, que ela era vagabunda porque só ia ter homem lá, lutadores que iam querer pegar ela. E então ele bateu na minha irmã um pouco antes da hora de entrar na área de imprensa. Ele a trancou no quarto, e eu desci para dizer aos jornalistas como eu me sentia confiante para a luta.

O nome do meu técnico é Herman Gutierrez. Ele tem 51 anos, uma faixa preta de jiu-jitsu, uma esposa, dois filhos e uma carreira respeitada nas artes marciais de Sorocaba, no interior de São Paulo. Eu vivi ao lado dele durante dez anos. A palavra que eu hoje uso para descrevê-lo é psicopata.

Eu o conheci quando tinha 17 anos, quando consegui um emprego de recepcionista na academia dele. Gostei dos treinos de jiu-jitsu, me matriculei nas aulas e acabei me destacando. Sob o comando dele, fui campeã paulista em quase todas as faixas, disputei campeonatos brasileiros e sul-americanos. Herman sabia como poucos vender uma história e incutiu em mim o sonho de chegar mais longe. Era fácil acreditar: Fábio Maldonado, o único atleta da cidade a chegar no UFC, tinha sido aluno dele. A própria arte marcial tinha sido trazida à cidade por ele e um punhado de amigos nos anos 90.

A academia de Herman foi por muito tempo o local para treinar jiu-jitsu em Sorocaba. Ele tinha conhecimento, influência e contatos no mundo da luta.

Ele dizia que eu precisava de alguém para me proteger. E me convenceu de que esse alguém era ele. Eu namorava na época, mas estava com problemas. Um pouco depois que terminei o namoro, Herman pediu para sair comigo. Ele me levava para almoçar, dizia que me achava bonita, que queria cuidar de mim. Nós ficamos. Tenho muita vergonha de falar isso porque eu sabia que ele era casado, eu sabia que era errado. Não sei por que não cortei no começo.

Descobri depois que minha irmã, que tinha 15 anos e era aluna da academia, também tinha se tornado amante dele, assim como uma amiga nossa. Durante certa época, éramos três alunas que se relacionavam com o professor. A mulher dele também costumava frequentar a academia.

Por um tempo, as promessas dele fizeram sentido. Em 2014, eu conquistei o cinturão das peso-palha do Jungle Fight, o maior campeonato de MMA da América Latina. Enquanto minha carreira decolava, minha vida pessoal afundava de um jeito que eu não conseguia reverter.

Herman era ciumento de maneira doentia. Não nos deixava sequer conversar com outros alunos homens. Ele implicava com nossas roupas e com nossas posições no tatame, e tudo virava motivo para nos chamar de vagabundas. Ele fiscalizava meu celular e explodia quando ficava sabendo que eu tinha mandado mensagens para homens sem a autorização dele. Quando ninguém estava vendo, nos dava chutes, socos e cotoveladas no tatame para mostrar sua insatisfação.

Na preparação para as duas lutas que fiz no UFC, fomos ao Rio de Janeiro para sessões de treinamento na Team Nogueira, uma das melhores equipes do país. Ficávamos no apartamento do lutador Rafael Feijão, um amigo da equipe que também era contratado do UFC. Herman nos trancava no quarto, com as janelas e as cortinas fechadas, porque não queria que nós víssemos ninguém e ninguém nos visse.

Eu fazia as minhas refeições no quarto. Ele só me deixava sair de lá quando não tinha ninguém no apartamento.

Uma vez, eu estava de dieta e comia de quatro em quatro horas. Herman estava dormindo em um quarto, e eu, em outro com a minha irmã. Quando deu o horário de comer, não escutei barulho nenhum no apartamento. Achei que o Feijão não estava lá. Tentei ligar para o Herman para avisar que precisava comer, mas ele não atendia. Quando fui à cozinha, percebi que o Feijão estava sentado no cantinho do sofá, jogando videogame com volume baixo. Na cozinha, peguei um ovo, comi e voltei ao quarto. O Feijão não falou comigo.

Um tempo depois, o Herman levantou e lembrou que eu deveria comer. Eu disse que já tinha comido.

"Como assim você já comeu? Você saiu daqui?", ele perguntou e veio para cima de mim. Eu não podia mentir, se eu mentisse e ele descobrisse, eu estaria morta. Falei que o Feijão estava lá, mas que não tinha falado comigo e eu nem tinha olhado para ele. Herman começou a me espancar, me dar cotovelada, me morder. Ele bateu muito na minha cabeça, e fiquei cheia de galo. Então, ele foi para cozinha e voltou de lá com uma faca. Minha irmã acordou e, como ela sempre tentava me defender, foi para cima dele. Ele a empurrou contra a parede, deu uma joelhada que fez ela desmaiar e ameaçou enfiar a faca em mim. Ele forçava a faca contra a minha perna, sem me cortar.

Quando ficava furioso, Herman dizia que não ia me matar, mas que faria uma cicatriz na minha cara para eu nunca mais esquecê-lo. Ou ameaçava me dar um tiro na coluna, para eu ficar tetraplégica e nunca mais esquecê-lo.

Os hematomas que ele deixava no meu corpo eram confundidos com marcas de treino. Um dia fui obrigada a dizer que tinha dado uma cotovelada na minha irmã durante um treino para explicar um olho roxo que ela tinha ganhado após ser agredida por ele.

Outro dia ele me bateu no carro voltando para Sorocaba após uma competição, porque instintivamente eu tinha pulado no colo do Feijão para celebrar a vitória na luta. Protegido pela película negra que cobria os vidros do carro, ele se sentia à vontade para nos agredir quando fazíamos qualquer coisa que ele reprovasse.

Eu queria muito fugir daquela relação, mas não via saída. Ele me ameaçava e ameaçava minha família, meu pai, meu irmão. Ele dizia que me mataria se eu o largasse. E eu tinha muito medo de contrariá-lo. Depois dos treinos, ele me levava a um drive-in ou a um motel, nós transávamos, e eu tinha medo de dizer não. Se eu dissesse "não", apanharia.

Quando o UFC rompeu meu contrato depois de duas derrotas, pensei que poderia preencher minha cabeça e resolvi voltar para a faculdade. Eu tinha começado a cursar educação física em uma universidade particular, mas saí porque Herman dizia que eu deveria focar 100% na minha carreira no MMA. Ele achava que faculdade era um lugar de "putas e vagabundas" e fazia tudo para me convencer a não frequentar as aulas - ele chegou a se matricular no meu curso e ficava me chutando por baixo da carteira se eu fizesse perguntas para professores homens.

"Mas e se eu tiver dúvidas?", eu questionava, e ele respondia: "Foda-se, procura no Google."

Mesmo assim, quis voltar para a universidade porque sempre gostei de estudar. Fiz a inscrição no Enem, e estudei em casa com vídeo-aulas no YouTube - tanto porque eu não teria dinheiro para pagar um cursinho quanto porque ele não deixaria eu sair de casa para ir a aulas. Acabei chamada para o curso de administração em uma universidade pública. Não pude nem comemorar porque eu sabia que ele não reagiria bem.

Quando as aulas começaram, ele passou a me perseguir pelo campus, querendo saber quem eram meus colegas e meus professores, com quem eu conversava e por quê. Fiz amizade com um rapaz com quem eu me sentia à vontade para desabafar. Conversando com ele, entendi que eu estava tendo sintomas de depressão, consequência da vida horrível que levava.

Um dia Herman me perseguiu até a casa da minha mãe e me ligou mandando eu sair para encontrá-lo. Eu não fui e ele insistiu: para me tirar de casa, bateu na lataria e furou os pneus do meu carro. Era esse o nível.

Mais ou menos por essa época, o Herman me agrediu pela última vez.

Ele queria passar o final de semana numa chácara, e eu não queria porque estava em semana de prova. O fato de eu me dedicar às provas o irritava muito. Bati o pé e falei que não ia.

Ele veio buscar minha irmã e minhas cachorras para deixar na chácara. Minha irmã foi no carro da frente com as cachorras e ele mandou eu entrar no carro dele, o carro insulfilmado que tinha se tornado o local preferencial das agressões. Ele sempre pegava meu celular para ver com quem eu estava falando e dessa vez viu que eu estava em um grupo formado apenas por meninas. Só que eram meninas de quem ele não gostava.

"O que é esse grupo aqui?", perguntou, gritando. E bateu com meu celular na minha cara. E continuou me batendo até quebrar meu celular. "Sua puta, sua vagabunda. Eu vou arrebentar a sua cara. Você está pedindo isso. Você quer que eu faça isso!". Ele repetia: "Sai daqui. Eu tenho nojo de você. Que vontade de cuspir na sua cara!"

Ele foi embora e levou meu celular quebrado. Sozinha no banheiro de casa, percebi que meu rosto estava molhado, mas não era cuspe, nem lágrimas. Eu estava sangrando. A ferida atravessou minha boca, dava para enfiar um dedo em meu lábio superior. Naquele dia, eu fiz um vídeo.

Reprodução Reprodução

E naquele dia, eu quis morrer. Eu não queria mais estar aqui. Fiz um vídeo falando que não sabia mais o que fazer, contando quem tinha feito aquilo comigo e pedindo desculpas para os meus pais. Eu não sabia mais o que ia acontecer. A partir daquele dia, parecia que eu estava morta mesmo. Antes, ele vinha brigar comigo, e eu me fechava como se estivesse fazendo uma guarda de luta. Depois daquela agressão, eu quase não me defendia mais, não sentia mais nada quando ele me ameaçava.

Na faculdade, eu tinha uma professora de quem eu gostava muito. Ela já tinha me ajudado com a data de uma prova quando contei que estava com problemas, em uma época em que eu não queria sair da cama para fazer nada.

Aquele meu amigo me incentivou a abrir o jogo com ela. Contei tudo o que Herman fazia comigo, e a professora respondeu: "Você vai contar pros seus pais, vai terminar esse relacionamento e vai pedir transferência. Esse cara é um psicopata. Você não pode ficar aqui." Contei para os meus pais. Para o Herman, disse que queria um tempo. E assim acabou. Um dia quero mostrar à minha professora e ao meu amigo o quanto eles foram importantes para mim.

No meu último dia de prova, saí da faculdade direto para a rodoviária e comprei uma passagem para Curitiba, onde uma amiga morava. Eu não avisei ninguém que ia para lá. Senti uma mistura de alívio e medo diante do fim do terror que tinha vivido e o começo de uma vida nova. Minha irmã também deixou Sorocaba por alguns meses. Nunca mais encontramos o Herman.

Passei o Natal na casa da família da minha amiga, que me adotou. Em Curitiba, consegui retomar os treinos e hoje dou aula de jiu-jitsu para mulheres. Herman continua dando aula e publica na internet fotos em projetos sociais para crianças carentes.

Hesitei muito antes de resolver abrir tudo o que vivi. Meu medo era que uma reportagem sensacionalista transformasse o esporte que pratico no vilão dessa história. Não foi o jiu-jitsu que me violentou, não foi o jiu-jitsu que consumiu dez anos da minha vida e frustrou qualquer promessa de felicidade.

Quem fez isso foi o professor Herman Gutierrez. Eu me sentia um pouco hipócrita dando aula para meninas que também vivem ou viveram relacionamentos abusivos, dizendo que precisamos nos unir e denunciar nossos agressores e, ao mesmo tempo, silenciando sobre minha própria história.

Naquela entrevista em Dublin, fui capaz de ignorar o sofrimento que eu e minha irmã vivíamos em nome de um futuro no esporte. Hoje, vejo o esporte como um meio para reverter o sofrimento que nós mulheres passamos na mão de homens como o meu ex-professor.

O que eu quero é que ninguém mais se matricule na academia dele porque eu sei o que ele é capaz de fazer.

Eu me senti sozinha por dez anos vivendo isso. Não estaria aqui hoje se não tivesse recebido ajuda para romper esse ciclo de violência. Quero que as meninas que estão perto de mim saibam que podem contar comigo. Não existe sofrimento que dure para sempre. A força deles não pode ser maior que a nossa.

Defesa diz que professor é vítima de "caça às bruxas"

Procurado pela reportagem, o professor de jiu-jitsu Herman Gutierrez indicou o advogado José Roberto Galvão Certo para falar em sua defesa.

Galvão Certo afirmou que o caso contra Herman é "muito estranho" e que seu cliente está "sofrendo com um julgamento social em uma verdadeira caça às bruxas."

Para a defesa, as acusações carecem de "provas concretas". "Ela teve um relacionamento amoroso e esse relacionamento amoroso terminou juntamente com o desinteresse de meu cliente de continuar dando treinamento a ela. É um duplo ciúme", afirmou o defensor.

Em um vídeo publicado após as acusações virem à tona, Herman Gutierrez pede desculpas a Ericka "por qualquer mal" que tenha feito à atleta.

Sobre o áudio em que aparece ameaçando sua então aluna, o professor afirma: "Eu peço desculpa, eu estava errado, eu fui grosso, fui deselegante. Mas nesse mesmo áudio, se você ouvir ele inteiro, você vai ouvir que eu peço desculpa pra Ericka. Nós conversamos, apaziguamos e tudo ficou em paz."

No mesmo vídeo, compartilhado nas redes sociais, o professor aparece ao lado da esposa e se dirige diretamente a sua ex-aluna: "Ericka, eu peço desculpa a você e à sua família por algum mal que eu fiz para vocês e peço desculpas a você por eu ter optado em ficar com a minha família. Sei que você ficou chateada, que você tinha planos."

A Justiça concedeu uma medida protetiva impedindo o suspeito de se aproximar de Ericka e sua irmã, Ellen Almeida. A Polícia Civil investiga o caso.

Você já passou por uma situação como essa? Conhece mulheres que tenham sofrido alguma forma de abuso em academias de luta? Compartilhe a sua história com a #QueroLutarEmPaz e divulgue a série Vozes no Tatame do @UOLEsporte.

Vozes no Tatame

Este é o segundo capítulo da série "Vozes no Tatame", do UOL Esporte. São relatos em primeira pessoa de mulheres, entre atletas e ex-atletas, que sofreram violência de gênero e abuso sexual enquanto praticavam artes marciais.

A reportagem entrou em contato com mulheres que praticaram esportes como judô e jiu-jitsu e sofreram agressões ou estupros por outros atletas. Todos os acusados são faixa-preta de seus esportes

"Vozes no Tatame" tem três capítulos que serão publicados às quartas-feiras entre 14 e 28 de agosto.

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Aos 13

Quando eu tinha 13 anos, meu professor de judô colocou na minha cabeça que eu poderia chegar à Olimpíada do Rio. Era 2011, e eu dividia meus dias entre a escola e o tatame. Eu treinava desde os oito anos e logo me destaquei como uma das melhores lutadoras da minha idade na academia, um lugar com aparência antiga perto da estação Santa Cruz do metrô, na zona sul de São Paulo.

Eu tinha começado a treinar...

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