Jogo limpo

Rodrigo Caio analisa trio do Liverpool e recorda polêmica com fair play: qual o orgulho de ganhar trapaceando?

Léo Burlá e Rodrigo Mattos Do UOL, no Rio de Janeiro
Thiago Ribeiro/AGIF

As taças da Libertadores e do Brasileiro pesam um bocado, mas Rodrigo Caio está leve como há muito não se via. Se nos tempos de São Paulo a expressão mais sisuda estava associada ao seu semblante, agora no Flamengo o sorriso sai bem mais fácil. Ele já ganhou em um ano aquilo que faltou no clube que o revelou.

Poucos pagaram tão caro pela seca de títulos no Morumbi quanto o zagueiro. Cria da base, viu seu futebol ser questionado e acabou eleito por sua própria torcida como um símbolo de tempos de vacas magras. Cansado da superexposição, sem encontrar a situação ideal na Europa, recebeu um aceno do Flamengo no final do ano passado.

Respondeu que aguardava um possível empréstimo ao Barcelona, mas deu a palavra de que só negociaria com o Flamengo no Brasil. Dito e feito. O interesse catalão esfriou e as partes só precisaram de dois dias para sacramentar o novo capítulo. Desde que pisou no novo clube, ele jura, a sensação foi de que um tempo de vitória estava por vir.

O ambiente me deixou mais motivado. Quando coloquei o pé aqui, sabia que viriam coisas maravilhosas. Vou ser sincero: muitos falavam, mas eu não acreditava que o Flamengo era grandioso assim. Só quem veste essa camisa e sente essa energia é que vê a grandeza desse clube. Isso é apaixonante".

"Tive experiência de jogar oito temporadas em uma equipe grandiosa também, mas senti uma coisa bonita aqui. Independentemente do que aconteça, os torcedores estão até o final com o clube", recordou.

Os torcedores o acompanharam primeiro na conquista do Campeonato Carioca. Depois se extasiaram com Libertadores e Brasileirão num mesmo final de semana histórico. Agora, obviamente, estão ao lado de Rodrigo e do Flamengo para um próximo grande desafio: o Mundial de Clubes em Doha, no Qatar, e um eventual choque com o Liverpool. O Flamengo estreia na terça-feira, às 14h30, contra o Al-Hilal, dá Arábia Saudita.

Michael Regan - UEFA/UEFA via Getty Images Michael Regan - UEFA/UEFA via Getty Images

Trevo na cabeça e coragem

Às vésperas da estreia rubro-negra, é difícil desviar o foco de um possível confronto com os campeões europeus, numa eventual revanche (por parte dos ingleses) 38 anos depois da conquista do primeiro mundial pelo Fla. Jorge Jesus certamente vai cuidar da concentração de seus jogadores.

Mas parece inevitável falar sobre o Liverpool. Sempre claro em suas ideias, o camisa 3 sabe do tamanho do desafio que seria encarar o estelar — e entrosadíssimo — trio ofensivo formado por Roberto Firmino, Mohamed Salah e Sadio Mané. "Com o Firmino estou mais acostumado, mas claro que dá um trevo na cabeça", disse.

Mas isso não quer dizer também que só o Flamengo precise ficar de sobreaviso, na visão do zagueiro. "Nós temos preocupação, mas eles também têm. Importante é que a gente faça nosso futebol", afirmou. Para ele, o possível confronto vai exigir inteligência de seu time, mas não necessariamente uma postura cautelosa.

"Corajosos vamos ter de ser. Não podemos ir com tudo, entrar de peito aberto, mas com muita coragem e obediência tática. Todos jogadores concentrados. O time deles constrói, temos de marcar desde lá na frente. A bola não pode estar descoberta, assim a gente poderá impor nossas ideias. Nosso estilo de jogo é esse. Se impusermos nosso ritmo, temos grandes chances", disse.

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Os laterais (Alexander-Arnold e Robertson) são o coração do time deles. Os méritos vão sempre para quem faz os gols, mas nós, que jogamos atrás, analisamos de uma forma diferente. Os laterais deles são fundamentais, eles que iniciam todo jogo".

Rodrigo Caio, mostrando o quão preparado o Flamengo já está para o duelo — nem só das estrelas de ataque vive o time de Jürgen Klopp

Thiago Ribeiro/AGIF Thiago Ribeiro/AGIF

O lance capital

Não é arrogância falar sobre o Liverpool antes de o jogo estar agendado. É só o campeão da Libertadores fazendo o dever de casa. Na cabeça de Rodrigo Caio, de todo modo, é difícil agir de um modo que não baseado pela franqueza — ainda mais tendo de sobreviver em um meio em que muita gente pensa que o resultado é tudo o que importa.

Essa sinceridade já lhe custou caro. Foi em 2017, quando, em um lance de rara honestidade num Majestoso, disse ao árbitro Luiz Flavio de Oliveira que o cartão amarelo aplicado ao corintiano Jô estava equivocado. A advertência foi retirada, mas o "sincericídio" custou caro. Jô seria suspenso se aquele cartão tivesse sido confirmado — e o atacante foi chave para o São Paulo ser eliminado no torneio. Mais do que os prejuízos em campo, sua atitude foi execrada por boa parte da torcida são-paulina, assim como por seu técnico de momento: Rogério Ceni. O comandante considerou o gesto ingênuo.

"É normal. Sempre expus minhas ideias e visões, sempre fui sincero com o que acredito. Fiquei taxado, mas faz parte do passado. Sempre respeitei as opiniões, procurei ficar calado naquele momento. Em nenhum momento fiz para me promover, fiz o certo. Não me arrependo, muito pelo contrário".

Preciso vencer por esforço, dedicação e trabalho. Se precisar trapacear para ganhar um título, qual orgulho eu vou ter? Nenhum".

Marcello Zambrana/AGIF Marcello Zambrana/AGIF

Vida nova longe de casa

Sincericídio? Não foi o único termo depreciativo associado a Rodrigo Caio em sua sinuosa trajetória no Morumbi. "Jogador de condomínio" foi outro, uma expressão usada por um assessor do presidente Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, em redes sociais. Ante uma torcida carente de conquistas, Rodrigo virou alvo também da arquibancada.

Deixar o clube que o projetou era uma necessidade para o jogador, que ganhou pelo Flamengo em um ano o que seu ex-time não levou durante toda a década. O deboche hoje está datado, mas não aparece no discurso do atleta nenhum resquício de mágoa quando fala do Tricolor. Pelo contrário.

"Todo jogador que chegar no São Paulo vai carregar isso. O Daniel Alves já está sentindo isso. Minha vida seguiu, minha vida vem sendo construída de uma forma maravilhosa. Levo poucas memórias ruins. Tenho gratidão imensa pelo São Paulo", opinou ele.

Thiago Ribeiro/AGIF Thiago Ribeiro/AGIF

"É o coletivo"

O zagueiro foi um dos primeiros reforços da atual diretoria rubro-negra. Mas, quando chegou à Gávea, sua contratação foi prontamente ofuscada pelo impacto causado por nomes como Arrascaeta e Gabigol. O peso foi outro — bem diferente daquele que carregava no Morumbi.

Mas essa reviravolta também não é uma questão peculiar à história de Rodrigo Caio no São Paulo. O salto de desempenho flamenguista só tratou de escancarar problemas enfrentados pela ex-equipe, ao mesmo tempo que ressalta o quão especial se tornou a rotina rubro-negra.

"É coletivo. No futebol, quando não se ganha, as cobranças individuais aparecem. Por ter mais tempo de casa [no São Paulo], fui mais cobrado. Mas isso acontece em todos os lugares. Até aqui acontecia. Para ganhar, tem de ter time forte. Um jogador não vai ganhar um Brasileiro", afirmou.

"O Gabigol fez mais de 40 gols na temporada. Sem um coletivo forte, acha que ele faria? A mesma coisa para o Bruno Henrique. É um conjunto que faz florescer o individual. Passei muito tempo no São Paulo, só ganhamos a Sul-Americana [de 2012]. Não fizemos um coletivo forte para ganhar. Eu senti isso desde o início no Flamengo. Se a gente ia ganhar, não sei. Mas a gente ia disputar com toda a certeza."

Thiago Ribeiro/AGIF Thiago Ribeiro/AGIF

Uma potência ainda em construção

Esse coletivo rubro-negro descobriu um novo potencial à medida que assimilou os conceitos de Jorge Jesus — potencializado, também, pela contratação dos laterais Rafinha e Filipe Luís e do meio-campista Gerson.

Rodrigo Caio, que trabalhou com mais de uma dezena de treinadores no Morumbi — Muricy Ramalho e Paulo Autuori entre eles —, já ouviu muito sobre tática, técnica e empenho. Sua avaliação sobre o impacto do comandante português ganha relevância. O nível de detalhismo passado ao grupo é o que mais lhe impressiona.

"Tudo que a gente faz no jogo ele mostra para a gente. Isso faz toda diferença. Às vezes você toma um gol e quer saber a razão. Ele faz isso com propriedade, leva a gente para a sala de vídeo e diz o que poderia ter sido feito. Essa é a diferença que o Mister faz para que a gente cresça", disse.

Não foi só o talento caro, valorizado no mercado, então, que levou o Flamengo ao Mundial. O entrosamento dessas peças sob a gestão de Jesus foi o diferencial, levando o time a "outro patamar". Essa foi a expressão usada por Bruno Henrique que ganhou os memes e manchetes. Muito cedo para dizer isso, Rodrigo?

"[O clube] Tem todos os requisitos. Com as conquistas, isso vai ser cada vez maior. Tem uma torcida que faz com que o jogador se apaixone pela atmosfera, é diferente. Só quem veste essa camisa é que sabe."

Não tenho dúvida nenhuma que o Flamengo vai ser uma potência maior a cada momento que passar. Por que não pensar em vencer tudo ano que vem?"

Thiago Ribeiro/AGIF Thiago Ribeiro/AGIF

Linha alta favorece seu estilo

No coletivo flamenguista, uma característica em especial acabou privilegiando o estilo de jogo de Rodrigo Caio: o fato de o time priorizar a chamada marcação alta, com suas linhas adiantadas em campo. Muitos minutos e linhas já foram gastos, em seus tempos de São Paulo, para ponderar se ele seria melhor zagueiro ou volante.

Pois bem. Jorge Jesus resolveu qualquer pendência a respeito quando colocou seu time para pressionar a bola. É bem comum ver Rodrigo combatendo próximo ao círculo central — como zagueiro, que, aliás, é sua posição preferida, mesmo.

Rodrigo é um zagueiro que tem na agilidade algumas de suas principais características. Ao passo que, em termos de porte físico, num time mais recuado, poderia sofrer com o choque, contato constante da grande área.

"Quanto mais rápido a gente roubar a bola, mais rápido a gente vai estar. Tenho velocidade, gosto da pressão forte. Vejo que o estilo dos jogadores do Flamengo favorece", disse.

"Joguei assim com o [colombiano Juan Carlos] Osorio no São Paulo. Aqui é mais zona, mais encaixado. Um marca, outro sobra. As equipes do Mister marcam assim, ele chegou e nos mostrou como eram os times dele na hora defensiva. São ideias do Jorge, a adaptação foi difícil no começo. No Brasil, a gente está acostumado a marcar individualmente."

Alexandre Vidal/Flamengo Alexandre Vidal/Flamengo

Sem obsessão pela Europa

Qual o próximo passo, então? Houve um tempo em que a transição para a Europa parecia certa — estávamos falando de um zagueiro jovem, versátil, com diversas convocações para a seleção brasileira e uma medalha olímpica no currículo.

Rodrigo Caio não esconde que o desejo de atuar no futebol europeu já atrapalhou seu rendimento. Quase certo com o Zenit St. Petersburg, da Rússia, travou de última hora a negociação por receio de ficar escondido antes da Copa de 2018. Não fechou o negócio, tampouco foi lembrado por Tite.

Aos 26 anos, já bateu na trave em conversas com Barcelona, Valencia e Atlético de Madrid. Mais maduro, afirma que está mais pronto do que nunca para uma aventura no Velho Continente, mas diz não ter a mesma obsessão de antes.

Antes isso me fez muito mal. A prioridade é estar feliz no seu clube e eu estou. Se aparecer algo muito bom para as duas partes, vamos analisar para que todos sejam beneficiados", disse. "Se eu conseguir manter esse nível na próxima temporada, tenho grandes possibilidades. Prioridade é chegar lá e performar. Não chegar lá e bater de volta".

Thiago Ribeiro/AGIF Thiago Ribeiro/AGIF

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