"Não estou de palhaçada"

Renato conta como deixou fama para trás. E que ainda não encontrou um jogador que não conseguisse recuperar

Jeremias Wernek e Marinho Saldanha Do UOL, em Porto Alegre
Leo Caobelli/UOL

Renato estava sentado no sofá quando desligou o telefone e virou para a mulher Maristela. Na sala do apartamento na Prudente de Morais, em Ipanema, ela testemunhou sua promessa: a volta ao futebol seria diferente. E foi. Três anos depois, o treinador deixou de lado grande parte do jeito fanfarrão. Apostou em um estilo mais comedido e se forjou especialista em mata-mata.

"Eu pensei que deveria mudar um pouquinho para ninguém achar que eu estava de palhaçada. Gosto de fazer brincadeiras, mas qualquer coisa vira página inteira no jornal. Tem que medir mais as palavras. É preciso ser mais sério aqui no Brasil", disse ao UOL Esporte.

Uma boa dose de descontração ainda está presente no técnico que tem um quê de resistência dentro do politicamente correto e lugar comum do cotidiano boleiro de hoje. Essa pitada de um futebol dos anos 1990 é responsável por ideias como a de que nenhum jogador é irrecuperável.

"Para falar a verdade, não cheguei a trabalhar com um jogador que eu não tenha conseguido recuperar. Joguei com os melhores do Brasil, trabalhei com uma porrada de treinadores, aprendi muito. Recuperar um jogador para mim é como tomar chope", garante.

Agora chegou a vez de este, digamos, novo Renato e de todos seus jogadores regenerados enfrentarem um novo grande teste. Dos maiores deste ciclo vitorioso do Grêmio, quando, a partir desta quarta (2), o time inicia duelo com o Flamengo pela semifinal da Libertadores.

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Prazo de validade

Renato Gaúcho, ou Renato Portaluppi, é um personagem que não fica indiferente a ninguém. Ame-o ou deixe-o mesmo. Para os gremistas, amor incondicional, ainda mais diante de um trabalho que quebrou paradigmas dentro do clube ao trocar o futebol-força pelo jogo ofensivo e técnico. O desempenho em campo é a ponta de um iceberg que tem pegadas do treinador por todos os lados. Contratações, departamento médico, nutrição, logística. Tudo.

O atacante marrento que pendurou as chuteiras há 20 anos agora é um treinador aberto a ouvir os jogadores. Que aceita trocar estratégia planejada por uma boa sugestão do elenco. É o chefe que dá folga depois de meta atingida, o patrão que faz o funcionário entender sobre desperdício e que também dá conselhos financeiros e particulares. Alguém que vê o futebol como algo objetivo.

"Jogador de futebol tem uma carreira de 12 anos, na média é isso. Pode ser mais curta ou mais longa para um ou outro. Eles precisam ganhar dinheiro. Como ganhar dinheiro? Com títulos. Como chega à seleção brasileira? Sendo campeão. Eles têm 12 anos para fazer isso", aponta.

"Falo com eles quase todos os dias sobre isso. 'Não adianta só jogar, jogar, jogar. Você tem que ganhar dinheiro, meu amigo'".

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Na praia ou em Alcatraz

Repare bem: você nunca viu uma foto de Renato em casa. Todas as imagens que pipocam na internet são do treinador à beira do gramado (seja em treinos ou jogos), em entrevistas ou então na praia. A faixa de areia à beira do mar de Ipanema é o refúgio - quando possível. Espaço para fugir da rotina e principalmente o quarto de hotel que acomoda o treinador dia após dia por boa parte da temporada.

"Eu chamo aquilo [lugar onde reside em Porto Alegre] de Alcatraz. É uma prisão mesmo. Moro no mesmo quarto das outra vezes [que treinou o Grêmio]. É um hotel, pô", conta.

O hotel fica ao lado do aeroporto Salgado Filho e desde 2017 não é mais usado pelo Grêmio. Renato chegou a vistoriar outro local para habitar enquanto está em Porto Alegre, mas preferiu ficar aonde já se sente confortável. Onde tem atendimento especial.

"Faço muitas refeições no meu quarto mesmo. Algumas vezes, o cara do restaurante me liga e avisa. O restaurante abre 12h ou 19h e às vezes eles me ligam, eu desço uns minutos antes de abrir o restaurante. Eu brinco com os caras: 'Reservei o restaurante todo hoje'. E eu lá, num puta de um restaurante comendo sozinho".

Gosto de Animal Planet, é o que sobra pra mim

Renato Gaúcho, quando detido em sua Alcatraz

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Se o hotel é Alcatraz, o quarto tem um quê de cela. Lá, a TV no quarto é a companhia de Renato mesmo quando não tem jogo. A saída do treinador é botar em um canal bem diferente, para relaxar. Ou melhor: relaxar do jeito que a carreira permite hoje.

"É Alcatraz no bom sentido, mas é. Vejo filmes, jogos", conta. "Relaxar é tomando um chope? Eu gostaria de fazer um monte de coisa. É complicado, cara", completa.

Os contratos de Renato sempre são por um ano. Ou seja, não há grande prazo para incentivar uma mudança da família toda. E mesmo que houvesse um vínculo longo, o treinador prefere que a mulher e a filha permaneçam no Rio de Janeiro. Um jeito de se manter focado no trabalho, além de desfrutar mais dos dias de folga ou férias à beira-mar.

"Por isso falei daquele jeito na história do curso da CBF [obrigatório para o exercício da profissão de técnico na Série A]. Por isso falei que não ia abrir mão das minhas férias. O ano todo fico fora de casa e longe da minha família. Trocar uma Alcatraz por outra? Não, né?", sentencia.

Seleção brasileira, a meta

Renato revelou ao UOL Esporte em 2017 que voltou a ser treinador com o sonho de chegar à seleção brasileira. As palavras, à época, foram recebidas como uma grande dose de prepotência. A percepção geral mudou bastante, obviamente, desde então. E, sim, o ídolo gremista segue acalentando esse desejo.

"A minha parte estou fazendo. É meu sonho treinar a seleção? É. Vai chegar? Não sei. O Brasil está bem servido com o Tite, mas ele sonhava com isso, né? Eu sonho também. Tenho que continuar meu trabalho", afirma Renato.

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Mas por que Renato?

Seis títulos em três anos de Grêmio, mas além das taças o rendimento do time (em eterna mudança, como manda o roteiro do futebol brasileiro) sustentam uma aura de incontestável ao treinador em Porto Alegre. Esse seria seu cartaz. Mas também tem o futebol vistoso de seu time.

Além da idolatria, dos resultados e títulos, Renato Gaúcho tem a seu lado um método que não precisa seguir a cartilha propagada depois do 7 a 1 como a solução para o futebol verde e amarelo. Seu Grêmio não tem muito espaço para a ordens rígidas. Há espaço para liberdade, criatividade em campo. Aposta na brasilidade em forma de jogo: drible, improviso. Criou, assim, um ambiente favorável ao desenvolvimento de seus jogadores

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Para falar a verdade, não chegou ainda esse jogador. Um jogador que eu não tenha conseguido recuperar

Renato Gaúcho, com seu toque especial

Fazer alguém produzir algo diferente do padrão em uma só oportunidade, um momento pontual, não é algo simples. Agora, imagine extrair de algum colaborador um produto raro por longo período. Renato e o Grêmio acumulam casos de sucesso com os chamados refugos. Jogadores dispensados em outros clubes e que em Porto Alegre conseguiram recuperar o rendimento ou até subir de nível.

"Tem cara aí que acorda 5h, separa um dinheirinho do salário para ir na academia e manter a forma. Eles aqui (jogadores) ganham um puta de um salário para se manter em forma. Quer coisa melhor que isso?", diz Renato.

Do atual elenco, listamos aqui quatro casos emblemáticos:

  • Bruno Cortez

    Estava acertado com o Náutico até que, de última hora, foi procurado pelo Grêmio. Rescindiu com o São Paulo e caminhou para ser titular absoluto na lateral esquerda. Talvez a maior reversão da 'era Renato'

    Imagem: Lucas Uebel/Grêmio
  • Léo Moura

    Também chegou no início de 2017 vindo do Santa Cruz, como homem de confiança de Renato. Aos 40, é voz importante do vestiário e elo do clube com alguns dos reforços contratados desde então

    Imagem: Divulgação/Site oficial do Grêmio
  • Maicon

    O meio-campista foi mais um a sair do Morumbi pela porta dos fundos, vaiado, em 2015, emprestado ao Grêmio. No sistema de Renato, se firmou como um dos mais criativos e eficientes articuladores do país

    Imagem: LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA
  • Alisson

    Um refugo precoce. O meia-atacante subiu aos profissionais do Cruzeiro com muito prestígio, mas não se firmou e virou moeda de troca pelo veterano lateral Edilson para a temporada 2018

    Imagem: Pedro H. Tesch/AGIF
Lucas Ueberl/Grêmio Lucas Ueberl/Grêmio

O jogador é muito injustiçado. Aqui é céu e inferno? Na Europa é diferente. Lá, pra torcida ter ira de um jogador, o cara tem que fazer um monte de merda. Aqui no Brasil é da noite para o dia.

Renato Gaúcho

Leo Caobelli/UOL Leo Caobelli/UOL

A Renato, com carinho

A faceta de "mestre" de Renato vem de muito tempo, mas atingiu outro nível a partir de 2016. Renato passou a investir cada vez mais em conversas ao pé do ouvido com os jogadores. É mais um exemplo da transição pela qual passou.

Saiu a jogada ensaiada diante das câmeras e entraram as reuniões individuais no hotel, na véspera do jogo importante. Talvez tão ou mais importante, porém, seja seu papel conselheiro extracampo. "Muitas vezes, o treinador faz um puta trabalho com o jogador, e o procurador ou o pai falam coisas totalmente diferentes. E aí, por ser procurador ou pai, o jogador sem experiência acredita mais neles e não no treinador", analisa.

Seguindo essa linha, Renato tem exercido influência considerável no progresso dos veteranos antes descartados. Essa influência, porém, também abrange atletas mais jovens lançados pelo Grêmio. A combinação desses grupos, em geral com baixo custo de mercado, contribui para uma gestão sustentável do clube.

  • Arthur

    O volante estava no grupo de transição há dois anos e foi promovido em fevereiro de 2017. A entrada no time titular foi meteórica. Não demorou também para chegar ao Barcelona e à seleção

    Imagem: Pedro Vale/AGIF
  • Everton

    Promovido por Roger Machado, Cebolinha virou titular e artilheiro com Renato. Outro que chegou à seleção brasileira de Tite durante o trabalho com Portaluppi e agora é o principal jogador do clube

    Imagem: Divulgação/Site oficial do Grêmio
  • Matheus Henrique

    Outro volante com estilo ofensivo, promovido por Renato e trabalhado como sucessor de Arthur. Ganhou vaga entre os titulares, assim como o antecessor e acabou de ser convocado por Tite

    Imagem: Divulgação/Site oficial do Grêmio
  • Jean Pyerre

    Acrescentem aqui também Pepê e Patrick em um trio que também estava no Grêmio nos tempos de Roger Machado, mas longe do time principal. Deram salto expressivo, renovaram contrato e custam milhões

    Imagem: Besoccer

O Flamengo tem dinheiro. Está de parabéns, mas parabéns para a gente também por revelar jogadores e estar na semifinal

Renato Gaúcho, um formador

Alexandre Vidal/Flamengo Alexandre Vidal/Flamengo

A Libertadores

Detalhamos aqui alguns dos méritos de Renato na construção de um Grêmio que se habituou a ir longe na Libertadores. Esse histórico recente, de todo modo, não impede que Renato elogie, sinceramente, ou não, seu adversário da vez, pela semifinal continental. Ele não tem papas na língua para jogar o favoritismo para o Flamengo. Diz isso baseado no grupo que o português Jorge Jesus tem em mãos.

"O Flamengo, no papel, tem 90% do time em nível de seleção brasileira. Eu gosto de trabalhar com os garotos. Os jogadores prontos e mais os garotos. O Flamengo, com dinheiro, contratou muito bem e montou uma seleção. Mas o Grêmio está junto com o Flamengo sem gastar".

Alexandre Vidal/Flamengo Alexandre Vidal/Flamengo

Palavras cruzadas

As semanas que antecederam a semifinal serviram para abrir um duelo de retóricas, com microfone aberto. Renato e Jesus vêm trocando declarações fortes, defendendo seus elencos. No final, coube ao treinador gremista diminuir o tom ao falar do português.

"As pessoas estão dizendo que falei que ele é velho e ganhou poucos títulos. Todo mundo sempre leva para outro lado. Ele treinou em Portugal e depois na Arabia. Não menosprezo a idade dele. O que quis dizer é que estou surpreso por ele não ter ganho mais coisas com o trabalho que ele está mostrando no Flamengo. Não é a idade. O trabalho no Flamengo é excelente, mas ele tem dois ou três títulos na carreira."

Hoje o Jesus está lá, estou aqui no Grêmio. No futuro não sei o que pode acontecer

Renato Gaúcho, já assediado pela diretoria rubro-negra algumas vezes

Leo Caobelli/UOL Leo Caobelli/UOL

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