A Premier League é aqui

Por que o Campeonato Inglês domina as convocações da seleção no ciclo para a Copa do Mundo do Qatar

Danilo Lavieri e Gabriel Carneiro Do UOL, no Rio de Janeiro Lucas Figueiredo/CBF

Tite convocou a seleção brasileira 12 vezes desde o fim da Copa do Mundo da Rússia. Dos amistosos contra El Salvador e Estados Unidos em setembro de 2018 até a atual Copa América foram 281 convocações com 73 jogadores diferentes. Entre tanta combinações possíveis existe um dado que chama atenção: o predomínio de jogadores que atuam na Inglaterra em comparação a qualquer outro lugar do mundo.

Quase um terço das convocações do Brasil no ciclo de preparação para a Copa do Mundo do Qatar vem da Premier League, inclusive nove jogadores entre os 24 que estão à disposição por esses dias. São 89 "ingleses" — ou 31,7% do total de nove países lembrados por Tite.

"Não é coincidência", indica Cleber Xavier, auxiliar técnico da seleção, ao UOL. Hoje estão no grupo três do Liverpool, Alisson, Fabinho e Roberto Firmino, dois do Manchester City, Ederson e Gabriel Jesus, e mais um de Aston Villa (Douglas Luiz), Chelsea (Thiago Silva), Everton (Richarlison) e Manchester United (Fred).

Várias razões explicam essa preferência além do óbvio alto nível técnico do futebol inglês, como a presença no país de treinadores que Tite considera referências e que têm conceitos de jogo parecidos com os que procura aplicar no trabalho diário. O argumento também passa pela qualidade da arbitragem e dos gramados, que influem no sistema de jogo da equipe principalmente em relação aos goleiros e o jogo com os pés no caso do segundo item. É quase um "english team", vejamos adiante.

Lucas Figueiredo/CBF

Divisão por liga das convocações desde 2018

  • Inglaterra

    89 convocações

    Imagem: Wagner Meier/Getty Images
  • Espanha

    57 convocações

    Imagem: Lucas Figueiredo/CBF
  • Brasil

    44 convocações

    Imagem: Buda Mendes/Getty Images
  • França

    34 convocações

    Imagem: Wagner Meier/Getty Images
  • Itália

    33 convocações

    Imagem: Lucas Figueiredo/CBF
  • Portugal

    12 convocações

    Imagem: Lucas Figueiredo/CBF
  • Alemanha

    5 convocações

    Imagem: Miguel Schincariol
  • China

    4 convocações

    Imagem: REUTERS/Ueslei Marcelino
  • Holanda

    3 convocações

    Imagem: Pedro H. Tesch/AGIF
Divulgação

Liga milionária e bem-sucedida

A Premier League também é o campeonato que mais tem jogadores convocados para a Eurocopa: dos 624 nomes lembrados para a segunda competição de seleções mais importante do mundo, depois da Copa do Mundo, 151 atuam no Campeonato Inglês, ou 24%. Os dois finalistas da última Liga dos Campeões — Chelsea e Manchester City — têm 15 representantes cada, o que mostra a força desse campeonato.

Na temporada 2020/2021, oito dos 20 clubes com elencos mais valiosos do mundo estavam envolvidos nessa disputa. Sobre jogadores brasileiros eram 25 espalhados por 13 clubes, sendo que apenas oito não têm passagem pela seleção principal.

Um estudo recente da plataforma especializada em negócios do esporte "Sportico" diz que o valor de mercado dos 20 times do Campeonato Inglês supera 25 bilhões de dólares (algo como R$ 125 bilhões). O sucesso é tanto que o futebol brasileiro tem procurado se inspirar no modelo. Clubes comunicaram à CBF na semana passada a decisão de criar uma liga para desenvolver o Brasileirão.

Como mostrou o UOL, a crise institucional da CBF abriu a oportunidade histórica de emplacar a liga, num movimento que espera prosperar depois do fracasso de diversas iniciativas nessa linha. A inspiração é óbvia na Inglaterra, que deu esse passo em 1992 e em 2019 faturou 5,8 bilhões de euros repartidos entre os clubes por fatores esportivos, alcance da marca e direitos de mídia. É lá onde está o dinheiro, o que começa a explicar seu alcance na seleção.

Lucas Figueiredo/CBF

Guardiola, Klopp, Ancelotti e cia.

Os convocados por Tite para a Copa América têm outro ponto em comum: foram comandados por treinadores que o brasileiro tem em alta conta, como Pep Guardiola (Ederson e Jesus), Carlo Ancelotti (Richarlison) e Jurgen Klopp (Alison, Fabinho e Firmino). Também fazem parte da lista Ole Solskjaer (Fred), Thomas Tuchel (Thiago Silva) e o menos conhecido Dean Smith (Douglas Luiz).

Ancelotti, que agora trocou o Everton pelo Real Madrid, teve relação próxima com Tite em 2014. Em seu ano sabático, o brasileiro foi à Espanha e acompanhou o trabalho do italiano, em jogos, treinos, preleções e conversas. Voltou para o Brasil animado com seu método, dinâmica de uso de dados e vídeos e relações e diz que o considera o treinador mais importante da carreira.

O trabalho de Ancelotti no desenvolvimento tático do atacante Richarlison é sempre elogiado por Tite nos bastidores. O brasileiro também conviveu com Guardiola na época de Bayern de Munique, trouxe conceitos e, dentro da seleção, usa a movimentação de Gabriel Jesus e a capacidade com os pés de Ederson para melhorar seu time.

Com Jurgen Klopp ainda não houve aproximação. Pelo contrário, ambos trocaram farpas porque o técnico do Liverpool disse em tom crítico que Tite nunca colocava Fabinho para jogar. Tite respondeu que tinha a mesma forma de ver futebol que Klopp, mas que o uso do jogador na seleção era "secundário". Fabinho foi titular na segunda rodada da Copa América.

Lucas Figueiredo/CBF

Por que o gramado é importante

Outro componente importante que põe os jogadores do futebol inglês à frente na concorrência é o fato de atuarem em gramados que seguem o padrão imposto pela Fifa para a Copa do Mundo. Trata-se de um tema muito importante para Tite, que gosta de visitar com meses de antecedência os estádios que receberão jogos da seleção e reclama fortemente nos bastidores quando não são de seu agrado.

A seleção considera a qualidade do gramado como fundamental para seu estilo de jogo porque os toques rápidos e velocidade permitidas por um piso sem avarias aumentam a vantagem técnica que já existe. "Um gramado uniforme, homogêneo, de superfície regular, com altura de corte constante, possibilita uma jogabilidade e rolagem da bola com maior velocidade e qualidade", explica o engenheiro agrônomo Matheus Ortega, especialista no tema pela empresa Campanelli Gramados Esportivos e Áreas Verdes.

Nos gramados da Premier League, explica Ortega, é usada uma grama chamada "ryegrass", conhecida no Brasil como "grama de inverno" porque é comum na Europa sob temperaturas mais amenas. Ele é mais rápido, mais úmido, mais resistente, mais espesso, arranca menos tufos e é mais aderente.

O gramado do futebol inglês ajuda principalmente aos goleiros Alisson e Ederson, habituados ao jogo com os pés e com a busca por passes longos e precisos na construção de jogadas.

Gramados com altura de corte elevada tendem a dificultar a rolagem da bola, tornando o jogo mais truncado e lento, proporcionando maior cansaço aos atletas. Cada espécie de grama conta com uma característica de folha, algumas mais finas e lisas, outras mais grossas e ásperas. Assim, um gramado com diferentes tipos de grama e contaminado com plantas daninhas tem sua uniformidade prejudicada, ora a bola rola mais rápido, ora mais lentamente."

Matheus Ortega, Engenheiro agrônomo

Outro ponto que já roubou a cena nos debates esportivos são os buracos e os famosos morrinhos artilheiros, que atrapalham os jogadores e muitas vezes acabam interferindo diretamente no resultado. Acredito que essa discussão sobre a qualidade dos gramados tenha se tornado frequente pela mudança de estilo de jogo do futebol atual, mais focado em manter a bola no chão e fazer triangulações em velocidade, o que exige dos gramados maior homogeneidade."

Sobre a importância da qualidade dos gramados

Lucas Figueiredo/CBF

"Tem que ter força mental"

Os auxiliares e analistas de desempenho da comissão técnica de Tite são os responsáveis pela observação de jogadores e produção de relatórios sobre um radar que chega quase a 50 nomes de possíveis convocados e está sempre em atualização. Sem pandemia, viajariam à Europa para acompanhar jogos, visitar clubes e conversar com atletas e comissões, mas no último ano e meio isso só pôde ser feito no Brasil.

Sobre o alto número de jogadores convocados da Inglaterra, a visão é de que não existe coincidência. Já há um grande número de nomes contemplados por lá em razão de vários pontos e esse radar cresce a cada rodada. A lembrança de nomes como Gabriel Magalhães e Martinelli (Arsenal) e Raphinha (Leeds) não parece distante, além de novas chances para velhos conhecidos, do tipo Alex Telles (Manchester United) e Allan (Everton).

É a busca por uma liga organizada, forte, está a maioria dos melhores jogadores de seus países, equipes fortíssimas com grandes investimentos, o melhor gramado, a melhor arbitragem... Eu vejo o exemplo do que era o Campeonato Inglês antes e o que virou hoje, referência para o mundo inteiro. Para ser um atleta que está lá e briga para conquistá-la você tem que ter, além de muita qualidade, uma enorme força mental para se manter, são jogadores mais preparados."
Cleber Xavier, auxiliar técnico da seleção brasileira, ao UOL Esporte

A seleção brasileira com sotaque inglês quer continuar top.

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