O menino que virou Rei

As histórias da infância de Pelé, segundo quem as viveu ao lado do maior jogador de todos os tempos

Roberto Salim Colaboração para o UOL, em São Paulo Divulgação/Bauru Atlético Clube

Era filho de um Dondinho e de uma menina Celeste. Deu no que deu: o menino Dico virou Rei. Nasceu em Três Corações e brincou com uma bola pelo mundo inteiro. Muito se sabe de seus gols, dribles, namoradas e deslizes. E até de suas músicas.

Mas você que está lendo aí: sabia que o menino rodava pião na unha, quase morreu afogado, ganhava de todo mundo na bolinha de gude e ainda atirava mamona com seu estilingue no Véio Sardanha, em Bauru?

Historietas que podiam estar no gibi do Pelezinho, aquele personagem que o Maurício de Sousa criou para o Rei, mas aconteceram de verdade —pelo menos a maioria delas, já que as duas pessoas que contaram aquela do macaquinho que morava no quintal da família não se entenderam quando o assunto foi a mordida que o animal teria dado na perna do Rei. "Ele deve ter a marca na perna até hoje", diz Zinho, hoje policial. Maria Lúcia, irmã de Pelé, discorda...

Divulgação/Bauru Atlético Clube

Treino com frutas? "Não é verdade, não"

A menina Celeste tinha de 15 para 16 anos quando o menino nasceu. Quem foi chamar a parteira foi o Tio Jorge, porque Dondinho estava trabalhando. O nome do menino era Edison, mas "a vovó Ambrosina o chamava de Dico", relembra Maria Lúcia, a irmã de Pelé que tem 75 anos, e que trata até hoje o irmão pelo apelido carinhoso dado pela avó.

Na casa de Três Corações moravam muitos familiares, mas as primeiras histórias que nós vamos contar do Dico já são de outra cidade mineira: São Lourenço, onde Dondinho era o artilheiro do time do Vasco da Gama.

"As histórias da infância começam lá, porque saiu de Três Corações com quatro anos", conta Maria Lúcia, que no começo desta semana ainda não sabia se haveria festa ou não pelos 80 anos do irmão. "Talvez tenha um almoço para os familiares mais próximos".Maria Lúcia lembra que seu pai gostava de cabrito e, em ocasiões especiais, vovó Ambrosina preparava um almoço especial. Nesses dias tinha até refrigerante, porque durante a semana era no máximo uma limonada.

Acervo UH/Folhapress

"Quando tinha refrigerante era tubaína e eu lembro que eu e o Zoca tomávamos nosso copo. Só quando a gente acabava é que o Dico aparecia com a canequinha de alumínio dele, ainda cheia, como querendo dizer: 'eu ainda tenho'. É uma imagem de infância que eu tenho dos aniversários".

Maria Lúcia (a primeira à esquerda, na foto acima —ao lado dela, dona Celeste, mãe do Rei, dona Ambrosina, avó de Pelé, e seu Dondinho, o pai) tem falado muito do irmão nesses dias. Tem visto também alguns fatos exagerados: "Tudo bem que exista ficção em alguns casos, mas há uns exageros. Por exemplo: dizem que o meu pai treinava o Pelé com frutas para melhorar o controle de bola. Que ele treinava com mangas. E isso, gente, não é real".

Então, nós aqui prometemos nos ater ao que os familiares e os velhos amigos nos contaram.

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Arquivo/Estadão Conteúdo Arquivo/Estadão Conteúdo

A história do macaquinho que mordeu Pelé. Ou não?

Teve um período em que a situação da família apertou. O Bauru Atlético Clube, onde Dondinho jogava, ficou um tempo sem pagar o salário dele e, coincidentemente, o Centro de Saúde, o segundo emprego do pai da família Nascimento, atrasou o pagamento também.

"A situação só não ficou ruim, porque sempre tinha algum amigo para ajudar. Dona Joana, que era comadre da minha mãe, nos ajudou nesse período e superamos as dificuldades", fala Maria Lúcia, que conta um outro caso envolvendo dona Joana.

No quintal da casa em Bauru, o menino Dico (na foto acima aos cinco anos, com amigos não identificados) tinha um macaquinho em seu pé de manga. "E dona Joana foi brincar com ele e ele deu uma mordida na mão dela. Foi isso". Maria Lúcia nega que o macaquinho (que ela não lembra o nome) tenha mordido a perna do seu irmão, como diz a lenda.

Só que essa história tem outra versão, contada para mim há dez anos por um amigo de várias histórias do menino Rei, o policial aposentado Dirceu Moura, o Zinho. "O Pelé tinha sim um macaquinho e levou uma mordida na barriga da perna. Ele deve ter a marca até hoje. Depois da mordida, o Dondinho deu o macaquinho".

Divulgação

O mistério da bola de capotão de Pelé

Zinho foi parceiro de Pelezinho em inúmeras traquinagens. "Da casa dele até a estação de trem dava uns 350 metros. A gente descia um barranco, ia perto dos vagões, passava uma faca nos sacos de amendoim e pegava o que desse para pegar. Então a gente torrava o amendoim e comia ou ia vender", contou Zinho em sua casa em Marília, em 2010.

A dupla era terrível. "A gente passava nas ruas, e o leite e o pão eram entregues nas portas das casas. Muitas vezes, a gente pegava e saía correndo. Era uma festa". O amigo sapeca lembra que os dois estavam obcecados para ganhar uma bola dada pelo refrigerante Crush. Cada tampinha vinha com uma letra de cores diferentes. Se formassem a palavra Crush com as letras cor de laranja, ganhariam uma bola de capotão.

"Eu lembro que a letra 'S' alaranjada não saía de jeito nenhum. Então bolamos um plano: tinha uma tampinha com a letra 'S' azul e nós pusemos fogo e começamos a pintar com um lápis de cor. Já era de noite e a tampa estava mesmo é queimada. Eu resolvi desistir e fui para casa dormir".

"No dia seguinte, quem apareceu depois do almoço em casa com uma bola? O Pelé, não sei como, convenceu o rapaz da distribuidora de bebida que o 'S' era cor de laranja e ganhou a bola". Os amigos, então, puderam deixar de lado as bolas de meia, como essa aí em cima, que fez parte de uma exposição no Masp sobre Pelé.

Arquivo pessoal

O garoto Pelé não sabia nadar

O senhor Luciano Dias Pires faz parte da história da cidade de Bauru. Jornalista dos bons, sempre registrou a passagem de Pelé por sua região. Uma delas envolvia o menino Rei e um amigo que quase se afogaram em um lago bauruense.

"Tinha um laguinho onde as crianças se divertiam que era conhecido como Banheirão aqui em Bauru. Foi lá que quase o Pelé se afogou", me contou seu Luciano há 10 anos.

E quem era o amigo de Pelé naquela aventura? O Zinho, da bola de capotão e da história do macaquinho.

"Eu nadava mais ou menos, e o Pelé não sabia nadar. Mas ele insistiu e disse que dava para chegar na outra margem. E fomos: eu na frente nadando e ele segurando os meus pés. A coisa ficou feia e, se não fosse um rapaz que pulou na água e nos tirou, eu não estaria aqui. Nem o Pelé teria sido o rei do futebol".

Anos depois, Pelé aprendeu a nadar. Está vendo a foto aí em cima? Mostra o Rei e seu professor: Manoel dos Santos, brasileiro vice-campeão olímpico que foi recordista mundial dos 100m livre, da natação, em 1961.

Divulgação/Bauru Atlético Clube

Carlinhos e o pião na unha

Carlinhos Menezes jogou bolinha, bola, rodou pião e aprontou muito com Pelé. Enquanto o amigo virou rei, Carlinhos foi ser médico ginecologista. Foi em seu consultório, há dez anos também, que ele contou coisas do arco da velha...

"Tudo o que o Pelé fazia, ele fazia bem. Ia jogar pingue-pongue, ganhava de todo mundo. Ia jogar búrica e limpava todo mundo. Pra quem não sabe, búrica é um jogo com bolinha de gude. O Pelé aparecia sem nenhuma bolinha, pedia duas emprestadas e ia ganhando todas de todos os meninos. Depois, quando tinha limpado toda a turma, ele fazia aleluia".

Você também não sabe o que é aleluia? O doutor Carlos explicou: "Ele jogava todas para o alto e os meninos pegavam as bolinhas que tinham perdido no jogo. O Pelé era incrível. Você acredita que quando a gente rodava o pião no chão, ele rodava, puxava, e o pião rodava na mão dele, na testa, na orelha, na unha?".

Um velhinho tinha vários pés de manga em seu terreno, mas não dava, não colhia e não vendia. A turminha ficava de prontidão. Quando ele bobeava, dois pulavam no terreno para pegar as mangas e o Pelé ficava fora, em cima do muro, de prontidão, com um estilingue e mamona. Se o Véio Sardanha aparecesse de repente, o Pelé mandava umas mamonas nele, até a gente pular o muro e ficar em segurança

Carlinhos Menezes, amigo de infância

Dona Clementina não gostava que a gente jogasse bola na frente da casa dela. Chegava ao cúmulo de pôr a cadeira no portão e ficava lá sentada. Um dia, a bola passou pela janela e caiu na sala da dona Clementina. Ela entrou toda feliz. Tivemos certeza que ela iria furar a bola. O Pelé não esperou. Bateu na porta e, quando ela veio ver quem era, ele pulou a janela e pegou a bola. E ficou dançando na frente dela

Carlinhos Menezes, amigo de infância

Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Divulgação SantosFC

O primeiro Coutinho foi Dirceu Mineiro

Pelé teve inúmeros parceiros de ataque, mas nenhum é tão lembrado quanto Coutinho (os dois estão na foto acima). Mas o Rei teve outros "Coutinhos" em sua carreira vitoriosa. O primeiro foi Dirceu Mineiro, que até fez mais gols que o Rei Menino em um campeonato da cidade. "Teve até um jogo em que fiz três gols e o Dondinho veio me cumprimentar dizendo que eu tinha sido o melhor da partida", contou em Campo Grande o velho Dirceu, também dez anos atrás, lá em Mato Grosso do Sul.

"Minha amizade com o Pelé começou quando ele levou uma bola de capotão para eu costurar. Eu trabalhava com a minha família e no dia seguinte ele foi buscar a bola".

Pelé e Mineiro provocavam medo nas defesas adversárias defendendo o Rádium. "Era um time de futebol de salão e fomos campeões do primeiro torneio. Eram 24 equipes e não perdemos de ninguém. No ano seguinte, estavam nos prejudicando em uma partida e um jogador nosso foi até a mesa, rasgou todas as fichas e falou que ninguém ia nos roubar mais, que estávamos fora do campeonato. E saímos".

O parceiro, já no Santos, chegou a convidá-lo para treinar na Vila. "Eu até estive lá e fiquei de voltar, mas não voltei. Mas fui jogador profissional e em 1965 joguei pelo Comercial de Campo Grande contra o Santos de Pelé. No primeiro tempo, ganhávamos de um a zero, mas no segundo tempo, ele fez quatro gols. Quatro a um".

Arquivo pessoal Arquivo pessoal

Quem esquece a primeira chuteira?

A família de Raul e Raquel era muito amiga da família de Dico, Maria Lúcia e Zoca. "Quando precisava se comunicar com alguém por telefone, minha mãe ou meu pai iam na casa do avô do Raul, que era o único que tinha telefone no lugar", relembra Maria Lúcia.

Raul jogava nos mesmos times que Pelé na rua. "Teve uma vez que marcamos um jogo contra e os meninos adversários apareceram de chuteira. Nosso time jogava descalço. Eu ainda tinha uma chuteira, mas o Pelé, por exemplo, não tinha. E aí, o meu pai, que tinha sido profissional do Noroeste, emprestou a dele e serviu no pé do meu amigo" —na pesquisa para essa reportagem, encontramos a foto acima, parte do livro "Eu sou Pelé". A data é 1947 e ele a legenda diz que é o primeiro jogo do garoto com uma chuteira.

O pai de Raul era Lavico. "E isso entrou para a história da nossa amizade e da minha família", recorda Raul. "Um dia, quando já jogava pelo Santos e pela seleção brasileira, o Pelé jogou na União Soviética. Quando ele voltou para Bauru, foi em casa e falou para o meu pai: 'Seu Lavico, vim devolver a chuteira. Eu comprei na Rússia para o senhor'".

Pelé e Raul sempre mantiveram a amizade. "Quando ele fez o jogo de despedida pelo Cosmos, eu e minha irmã fomos convidados especiais para a partida. Foi muita emoção".

Ezyê Moleda/Folhapress

Pelé jogou pelo Noroeste

A história conta que foi no Baquinho que Pelé começou a brilhar. E diz a lenda que o menino nunca jogou no Noroeste, no grande time da cidade. Será? Valeriano era um atacante da equipe de Bauru e disse que o menino jogou, sim, alguns amistosos pelo Noroeste. Inclusive, dez anos atrás, fomos até Ibitinga, onde eles venceram a equipe local por 7 a 0.

"Ele marcou quatro gols. O Nivaldo fez um e eu marquei mais dois", afirmou Valeriano. "E eu lembro também de outros dois jogos, com certeza: em Itu e em Presidente Prudente".

A verdade é que foi o técnico do Baquinho, o Valdemar de Brito, que levou o menino para a Vila Belmiro. Pelé chegou no dia 8 de agosto de 1956. Tinha 15 anos. E ainda não era Rei.

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