"Vou morrer"

Ousei treinar com o time de futebol profissional do Juventus. Se nascesse de novo, talvez tivesse conseguido

Talyta Vespa Do UOL, em São Paulo Amanda Perobelli/UOL

Rir trucida meu abdômen, levantar destrói o posterior das minhas coxas e pentear o cabelo, bom, não o faço há alguns dias —daí a sorte de ter um corte joãozinho em fase de crescimento. Não estou à beira da morte, por sorte, mas em uma tarde de quarta-feira fiquei na dúvida se sobreviveria a mais poucos minutos depois de treinar com o time de futebol profissional do Juventus. Ainda não sei a resposta.

Nem cheguei perto de resistir aos 120 minutos debaixo de sol num fim de outubro de verão antecipado na Mooca, na zona leste de São Paulo, onde fica o clube. Depois de uma hora de sofrimento, dei um sorriso monalisístico ao Welington, treinador do time, que, tirando um belo de um sarro, pediu que eu voltasse ao treino assim que ressuscitasse. Welington, não foi dessa vez.

Enquanto tentava me recuperar das dores, do cansaço e da frustração por não ter aguentado nem metade do que elas fazem todos os dias, as jogadoras seguiam com a bola nos pés como se não houvesse calor, como se a borracha do gramado não transformasse a chuteira em um forno e como se o suor não ensopasse o uniforme. O que elas fazem, caro leitor, não é para mim. E eu ouso dizer que nem para você.

Amanda Perobelli/UOL

Tudo começou numa reunião de pauta, a minha primeira com a equipe do UOL Esporte. Pânico, terror e aflição. Novata, queria impressionar, e tentei caprichar nas sugestões que levei para meus editores, que pouco me conheciam: entre elas, a ousada 'fazer um treino profissional'. "Mas você joga?", perguntou um deles franzindo a testa. "Não, mas batia uma bolinha na escola", respondi, tentando me convencer de que seria uma boa ideia.

Um colega sugeriu que procurasse o Juventus. Já cheguei de zap na Cristina, assessora de imprensa do clube, que aprovou de bate pronto a ideia: "quarta às 12h, pode ser?" Claro. "Você tem chuteira de society? É só o que precisa. O uniforme a gente empresta". É claro que eu não tinha. E claro que não disse isso a ela.

Começou a maratona até encontrar alguma amiga com mini-pés trinta e cinco que, por acaso, tivesse uma chuteira de society dando mole em casa. "Cristina, aqueles treinos físicos intensos que matam pessoas rolam aí também? Ou não?", brinquei e recebi, num misto de alegria e desespero, o que de, alguma maneira, eu queria ouvir. "Sim, mas ele vai pegar leve. Vai ser tranquilo, fica na paz que vai dar certo."

Se você passar mal, tem um hospital do lado, tá?

Cristina, à repórter

Amanda Perobelli/UOL

Até tentei me preparar para essa pauta. Na minha cabeça, duas semanas de academia, alimentação leve e o "não" a todas as cervejas oferecidas a mim nesse período seriam suficientes para que eu, pelo menos, aguentasse as duas horas de treino. É claro que nada disso fez qualquer diferença. Para chegar perto do nível dessas jogadoras, rapaz, eu precisaria ter treinado todos os dias incansavelmente desde a primeira infância. Ou nascer de novo. Nada disso é possível.

Acordei. Dia do treino. Tomei um banho, preparei um café forte e amassei uma banana e meia no prato. Taquei canela em pó em cima e comi, lá pelas dez horas. Mexi dois ovos na frigideira, com tomates picados, e mandei para dentro com mais uma xícara de café. A sugestão do café dos campeões foi do senhor Google, a quem sou grata por não me fazer vomitar as tripas.

Cheguei ao clube às onze, como orientado pela Cristina, vestindo um macacão esgarçado com a chuteira amarrada na bolsa. No vestiário, a gritaria típica dos hormônios púberes virava um grande embolar difícil de compreender. "Essa é a Talyta, ela é jornalista e vai treinar com vocês", disse a assistente de Cristina, Marylha. "Ah, já ia dar o uniforme pra ela", respondeu a goleira Daniela, a quem quero formalizar um agradecimento por tanta paciência. Ela recebeu a desafiadora missão de ser minha dupla nos exercícios de aquecimento para o treino.

"Pode dar, ela vai jogar também". Do alto de seus quase 1,80 m, Daniela arremessou com delicadeza o kit camisa-shorts-meião na minha direção. Me tranquei numa espacinho de 1m² e me vesti enquanto os decibéis continuam crescendo exponencialmente do lado de fora. Mal imaginava eu que, ainda no vestiário, enfrentaria minha primeira missão: colocar o meião.

Acho um porre vestir meia fina. Quando o faço, enrolo toda a perna da meia num bolinho para enfiar o pé e puxar de uma vez aquele monte de tecido que sobra. Regada pela minha pouca noção, imaginei que, com o meião, a técnica seria a mesma. Que nada: meião é um troço duro, que não estica, nada maleável e que aperta a minha batata da perna.

Amanda Perobelli/UOL Amanda Perobelli/UOL

Fora do vestiário, as jogadoras se abraçaram num círculo grande. Elas rezaram, baixinho, algo que fazem todos os dias numa corrente que durou uns dois ou três minutos. Me aproximei do Welington, que disparou um incisivo "elas já começaram, vai lá". "Tô com medo de atrapalhar o treino, sou uma mera jornalista, não sei se vou conseguir acompanhá-las". "Vai dar certo", me confortou, com um tapinha no ombro.

Obviamente não deu: a cada erro meu —foram vários—, eu franzia os olhos e me desculpava. E, por mais hediondos que fossem meus passes e jogadas, as jogadoras sempre davam um jeito de consertar o erro — sem cara feia ou esboço de falta de paciência. Um dos meus passes cruzou a quadra e a receptora teve de correr um monte até chegar na bola. Outros que dei atrapalharam a sequência do circuito. Às vezes, meu pedido de desculpa virava mais uma trapalhada, já que eu perdia o lance seguinte tentando esconder a cara de vergonha.

Ninguém me xingou. Ufa.

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Vai, vai, vai

"Formem duplas", disse Felipe, auxiliar de Welington. Fiquei pastelona no meio do campo esperando alguém se comover e me chamar. Nada aconteceu, até a Daniela —a mesma que me entregou o uniforme no vestiário—se aproximar e dizer que me acompanharia.

O aquecimento era um circuito de alta intensidade com dez etapas de exercícios diferentes. A cada comando, a dupla trocava a perna exercitada até, enfim, pular para a guilhotina seguinte. O instrutor demonstrava como era para fazer cada exercício e a gente repetia os movimentos. De cara, Dani e eu tivemos de pular sobre meia bola - "BOSU", aprendi o nome depois — com uma perna na tentativa de nos equilibrarmos. A cada pulo tinha a certeza de que cairia no chão, de bunda. Vitória: isso só aconteceu uma vez. Mas isso não significa que nas outras eu tenha ficado parada, estava mais para um joão-bobo. Já a Dani se equilibrou em todas.

Dali, corremos para uma sequência mortal de abdominais que mandam lembranças todas as vezes em que levanto da cama. A parte mais dura foram as "trocentas" pranchas. Aquele exercício em que a gente apoia os braços e pés no chão e levanta todo o corpo, retinho, contraindo o abdômen. Era prancha de todo lado, em todas as posições existentes: de frente, de lado, de costas.

A tortura abdominal foi seguida por agachamentos segurando uma anilha de 10 quilos, responsáveis pela minha coxa esgarçada, e pulos em um pé só sobre duas camas elásticas, sem quebrar a perna, obviamente.

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A esta altura, eu já pouco falava. Cada descida até o chão levava junto a minha voz e todo o ar. A Dani dava risada das minhas piadas de moça constrangida e vibrava cada vez que eu conseguia fazer, uma única vez, o que ela fazia em sequências de dez. Dani, você é porreta.

O aquecimento durou, no máximo, vinte minutos —suficientes para que eu já molhasse a camisa do uniforme de tanto suar e tivesse vontade de sair correndo. Eu tive vontade de sair correndo durante essa reportagem inteira, na verdade.

Depois do apito final, as jogadoras se organizaram para a próxima etapa: o treino com bola. Pensei, bem quietinha, "bom, na Educação Física da escola eu fazia umas coisas assim". Que bom que não disse isso alto, nem para ninguém.

Welington deu as instruções: só podia dominar a bola e dar o passe com a perna esquerda. Éramos seis em um retângulo, e os passes vinham da direita para a esquerda. Digo, os passes das jogadoras — milimetricamente precisos—, porque os meus ganhavam vida própria no momento em que saiam do meu pé. Para elas, aquilo era mamão com açúcar. Para mim, dipirona em gotas.

Corri para lá e para cá, para frente e para trás, tentando seguir o posicionamento que o Welington tinha ensinado. "Cai para trás para receber, finta o pratinho por fora e devolve a bola", ele repetia a cada passe que chegava até mim.

Depois de um apito, ele ordenou: decidam os marcadores! É o quê? "Marca, marca", gritou minha colega ao lado e eu, imediatamente, interceptei a bola destinada a outra jogadora. "Não, eu sou do seu time. Você tem que marcar as outras, não, eu". A cada trote de deslocamento, as jogadoras se torciam sem perrengue, como num passeio no parque. E eu franzia os olhos num eterno "acuda-me, por favor".

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Sol do meio-dia

Já no auge da falta de ar, da dor nas pernas, do suor que inundava a camisa, Welington deu uma pausa. Era o fim: do treino ou de mim. "Ufa. Que horas são?", perguntei para a Amanda, fotógrafa, com a expectativa de ouvir qualquer combinação de números acima de "uma e meia". O treino acabaria às 14h. "Quase uma", disse ela. "Você tá brincando comigo, né? Fala sério. Que horas são?". Ela mostrou o celular. Ali, decretei falência.

Eu mal conseguia respirar. Sentia que meu coração estava prestes a colapsar. Eu já estava pálida, ofegante, cansada, desesperançosa e com sede. Sentei. Juro por Deus que uma hora nunca passou tão lentamente. O sol apertava, o pé esquentava e eu enfiava a cabeça debaixo da torneira porque... dignidade? Nunca nem vi. Respirei fundo, uma, duas vezes, quis chorar, mas segurei. Era só o que faltava.

A escolha do pior horário do dia para treinar, na verdade, nunca existiu: foi o que sobrou. É esse, das doze às duas. O único horário em que o campo fica livre. Os outros, favoráveis em termos de temperatura, são do time masculino. "Que é quem manda no clube", me contou Betão, um dos auxiliares técnicos.

É por causa do horário, ainda, que as peneiras femininas no Juventus raramente captam um grande número de jogadoras: quem estuda de manhã não consegue chegar ao meio dia; quem estuda à tarde não pode sair às duas. Quem tem flexibilidade de horário sente a borracha do gramado sintético estufar com o calor e impedir os pés de repousarem em campo. O gramado esquenta a chuteira, que esquenta o pé. Betão me contou que já viu um monte de menina não conseguir jogar porque sentia o pé queimar em campo. "Outro fator que nos impede de ter mais mulheres no time", confessou.

As meninas, excelentes jogadoras e atletas, não só resistem como lutam para estar ali. E jogam. Muito. Eu não luto, não jogo, nem aguento. Pelo menos escrevo: o mérito é delas.

Amanda Perobelli/UOL Amanda Perobelli/UOL

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