Cem anos, sem festa

Tostão, Dirceu Lopes e outros ídolos lamentam centenário do Cruzeiro em crise na Série B

Adriano Wilkson e Guilherme Piu Do UOL, em São Paulo e Belo Horizonte Divulgação/Mineirão

Há exatos cem anos, em 1921, um grupo de colonos italianos fundava, na então jovem capital Belo Horizonte, a Società Sportiva Palestra Itália. Na década de 1940, por impactos da Segunda Guerra Mundial, o time mudou de nome e se tornou o Cruzeiro Esporte Clube, que vai atravessar o ano de seu centenário vivendo a maior crise de sua história.

Com o empate diante do Cuiabá, na última partida de 2020, as chances do Cruzeiro voltar à série A se tornam praticamente nulas. Se confirmar o fracasso, a Raposa será o primeiro time grande da história do Brasileiro de pontos corridos a não voltar à elite no ano seguinte à queda.

Erros de administração recorrentes, suspeita de desvios de dinheiro e atuação ilícita de dirigentes e empresários moldaram a crise profunda do clube, que entristece referências históricas cruzeirenses.

Tostão, considerado o grande ídolo dos cem anos de Cruzeiro, o "Príncipe" Dirceu Lopes, o ponta-esquerda Joãozinho, que fez o gol do título do primeiro título da Libertadores, e Ricardinho, recordista de conquistas com a camisa estrelada, lamentam a fase e o centenário em crise. Mas acreditam que ainda é possível ver nascer um novo Cruzeiro.

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Dirceu Lopes: "Ver o Cruzeiro assim me deixa constrangido"

Dirceu Lopes já foi chamado de "Príncipe" pelo "Rei Pelé" e se tornou um ícone do Cruzeiro. Segundo maior artilheiro da história celeste com 223 gols e terceiro na lista de jogadores com mais jogos pelo clube (610), Dirceu se tornou uma lenda viva na década de 60.

"O meu sentimento em relação ao Cruzeiro hoje é o mesmo do torcedor de uma forma geral. É com muita tristeza que eu vejo o clube chegar em uma situação dessa, na segunda divisão, com risco de cair. Ver o Cruzeiro assim me deixa triste, constrangido", lamenta Dirceu Lopes.

"[Centenário] é uma data que mexe muito com o meu coração, aniversário do clube que tive a felicidade de vestir a camisa por 14 anos. Tive o privilégio de chegar ao Cruzeiro em 1963, um menino, e realizei o sonho de criança de vestir aquela camisa. Jamais podia imaginar que teria essa felicidade de participar da transformação de um clube que era o terceiro do Estado e depois virou um clube do mundo."

Daquele tempo restou só a lembrança, que contrasta com a realidade atual, de pouco dinheiro, problemas políticos, jurídicos e administrativos. Para Dirceu, é preciso acreditar na reconstrução. "Um clube que desde sua fundação foi modelo de administração. A marca Cruzeiro é muito forte, e o novo presidente que assumiu, o doutor Sérgio [Santos Rodrigues], é uma pessoa idônea. Não tenho dúvida que o Cruzeiro voltará ao seu devido lugar em curto prazo, vai nos proporcionar várias alegrias", afirma.

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Geração de 66 revolucionou o Cruzeiro e o Brasil

Os campeões da Taça Brasil de 1966 mudaram o cenário do futebol brasileiro. Todo mundo falava daquela equipe que venceu duas vezes o poderoso Santos de Pelé, Mengálvio, Zito, Pepe e companhia. Tostão, Dirceu Lopes e os outros titulares daquele time deixaram um legado que muitos chamam de a "escola de futebol" do Cruzeiro: um futebol vistoso, clássico, envolvente, dinâmico e muito moderno para a época.

Na chamada "A Era de Ouro", o clube foi três vezes vice-campeão brasileiro (1969, 1974 e 1975) e chegou perto do bicampeonato da Copa Libertadores, taça conquistada em 1976, em cima do River Plate.

"Logo que assumimos a direção do Cruzeiro, começamos a procurar grandes valores e conseguimos formar várias grandes equipes, porque, com o decorrer dos anos, alguns jogadores iam cedendo lugar a outros mais jovens. Formamos grandes equipes, inclusive com a participação de Tostão, Dirceu Lopes, Piazza, Zé Carlos, craques que foram forjados no Cruzeiro", disse Felício Brandi, presidente do Cruzeiro entre 1961 e 1982, em entrevista à TV Cultura na década de 1990.

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Tostão: "É possível o Cruzeiro ressurgir"

Maior artilheiro da história do Cruzeiro, com 245 gols entre 1963 e 1972, e pentacampeão mineiro com a camisa azul, Tostão, ainda hoje, é o grande expoente de toda a história cruzeirense. Um problema de visão abreviou a carreira do craque, que deixou o futebol aos 26 anos, após ser fundamental na campanha do tricampeonato com a camisa da seleção brasileira na Copa de 70.

Formado em medicina, hoje, aos 73 anos, se dedica à crônica esportiva. Os tempos de glória de Tostão estão bem distantes da realidade atual do clube, mas o ex-jogador acredita em uma reconstrução, desde que o clube afaste os responsáveis pela crise.

"Claro que é possível o Cruzeiro ressurgir. Acredito muito nisso. Será difícil, mas não impossível. Tudo isso tem de acontecer aos poucos. Não basta apenas voltar à Série A. O clube terá de se reorganizar e afastar todas as pessoas que, de alguma forma, prejudicaram a instituição", afirmou o ídolo celeste.

É absolutamente lamentável. Todos ficamos muito indignados pelo que aconteceu com o Cruzeiro, destruído por uma turma de incompetentes e desonestos dirigentes. Espero que pelo menos o Cruzeiro sirva de lição para outros clubes brasileiros."

Tostão, maior artilheiro do Cruzeiro

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Joãozinho: "Parei de ver jogos do Cruzeiro porque me dava raiva"

Um dos gols mais importantes da história do Cruzeiro saiu dos pés do "bailarino" Joãozinho. Driblador nato, ele era o terror dos adversários pela ponta-esquerda. Contra o River Plate, na final da Libertadores de 1976, o jogo estava empatado e o Cruzeiro tinha uma falta a seu favor. Nelinho, um dos melhores chutadores do mundo à época, faria a cobrança, mas Joãozinho se adiantou e bateu no canto direito do goleiro, de surpresa.

Aquele gol ajudou a internacionalizar o nome do Cruzeiro, vencedor da primeira Libertadores de um time mineiro. Dos Estados Unidos, onde mora atualmente, aos 66 anos, Joãozinho diz que não vê mais os jogos do Cruzeiro e lamenta a má fase.

"Entristece ver o clube assim. Gostaria que o Cruzeiro estivesse em outra situação, na ponta, disputando título, não na segunda divisão com risco de ir para a terceira. Não vejo futebol mais, porque com certa idade já não dá para ver essas coisas que magoam. Foi melhor não ver mais os jogos do Cruzeiro, e nunca mais eu vi. Antes de cair eu parei de ver, porque me decepcionava, ficava triste, com raiva."

"Espero que o Cruzeiro não vire um América do Rio, uma Portuguesa, times que foram muito bons na minha época e hoje estão em baixa. Espero que não chegue nesse mesmo ponto", sintetiza Joãozinho

O Cruzeiro representa tudo para mim, eu vivi dentro do Cruzeiro, sou um torcedor apaixonado do clube. Sou um privilegiado por fazer parte dessa história centenária do Cruzeiro, que teve inúmeros jogadores fantásticos. Ser um no meio desse grupo é uma honra sem tamanho."

Joãozinho, ex-ponta esquerda do Cruzeiro

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Ricardinho: "O Cruzeiro voltará a ser o que era antes"

O ex-volante Ricardinho é a personificação do sucesso do Cruzeiro nos anos 1990. Ele é o recordista de títulos na história do clube com 15 taças conquistas, como a Libertadores de 1997, a Recopa Sul-Americana de 1998, e as Copas do Brasil de 1996 e 2000. Nessa época, o time ganhou apelido de "La Bestia Negra" por ser a pedra no sapato, principalmente, de chilenos e paraguaios.

"O momento atual difere totalmente da história do clube", afirma Ricardinho. "Em cem anos há uma vasta história de crescimento, de títulos, mas vemos tudo o que se tornou hoje por má gestão. Algo que começou fora de campo e, infelizmente, atingiu o gramado. Acredito muito na recuperação. Na minha cabeça esse cenário atual é algo passageiro, uma coisa ruim, mas que certamente vai passar, e o Cruzeiro voltará a ser o que era antes", diz Ricardinho.

"Nesses cem anos o torcedor cruzeirense se sente feliz por tudo o que aconteceu, pelas glórias do passado. Por mais que o Cruzeiro tenha uma camisa muito forte, não conseguiu atingir um nível importante para subir. Tem que pensar assim, no ano do centenário precisa fazer um bom trabalho para atingir o acesso à Série A".

Passado de glórias

Um dos maiores clubes do Brasil, com 20 títulos nacionais e internacionais, o Cruzeiro é bicampeão da Libertadores (1976 e 1997), tretracampeão brasileiro (1966, 2003, 2013 e 2014) e recordista de títulos da Copa do Brasil (1993, 1996, 2000, 2003, 2017 e 2018). Além disso, levantou 39 vezes a taça do Campeonato Mineiro.

O Cruzeiro viveu seu auge na década de 60, quando conquistou, em 1966, a Taça Brasil contra o Santos de Pelé, por 6 a 2 no Mineirão. No jogo de volta, no Pacaembu, os cruzeirenses voltaram a impor uma derrota aos paulistas: 3 a 2, no placar final.

Em 1976, o Cruzeiro erguia a sua primeira taça da Libertadores sobre o River Plate. Na década de 80, o Cruzeiro viveu seu primeiro período de vacas magras, teve campanhas fracas no Brasileiro e conquistou apenas dois títulos estaduais, em 1984 e 1987.

A redenção veio na década seguinte, com duas Supercopas da Libertadores (1991 e 1992), uma Recopa Sul-Americana (1998), quatro Copas do Brasil e a segunda Taça da Libertadores, em 1997. Nos anos 2000, comandado por Vanderlei Luxemburgo e pelo camisa 10 Alex, o Cruzeiro continuou em alta e, em 2003, conquistou o inédito título da "Tríplice Coroa" — campeão estadual, Copa do Brasil e Brasileiro.

André Yanckous/AGIF André Yanckous/AGIF

Conquistas recentes coincidem com disparada de gastos

Entre 2013 e 2018, o Cruzeiro faturou quatro títulos muito importantes, os Campeonatos Brasileiros de 2013 e 2014, além das Copas do Brasil de 2017 e 2018. Foi justamente nesta época que o clube viu sua dívida disparar - saltou de R$ 109 milhões em 2012 para R$ 982,54 milhões em oito anos.

O atual presidente, Sérgio Santos Rodrigues, disse recentemente em entrevista ao UOL Esporte que se tivesse vencido a eleição de 2017 — perdida justamente para Wagner Pires de Sá —, o Cruzeiro não teria sido campeão da Copa do Brasil em 2018. Justamente para evitar gastos acima do que a saúde financeira do clube permitia.

"Hoje, o Cruzeiro paga pelos títulos que conquistou de forma desordenada nos últimos anos, desde 2013 e 2014, e em 2017 e 2018. Sabíamos que pagaríamos por isso, muita gente não enxerga, acha que a culpa é minha de qualquer forma porque eu assumi o clube", disse o cartola em outubro do ano passado. "No Brasil, muitas vezes, o errado dando certo é o que todo mundo quer ver."

DOUGLAS MAGNO / AFP

Dívidas, salários atrasados e processos

Com salários atrasados, mais de cem processos trabalhistas ativos, cofres "limpos e vazios", brigas políticas nos bastidores do clube, o inferno astral do Cruzeiro já dura mais de um ano. O rebaixamento de 2019 foi fruto de uma gestão que não regrou gastos e viu faltar dinheiro para o básico. Em processo de ruína financeira, Wagner Pires de Sá deixou de quitar parcelas importantes de impostos. O Cruzeiro acabou excluído do Profut, o Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro.

O processo instaurou o caos no clube. O Conselho Deliberativo e o Conselho Fiscal, que deveriam fiscalizar os gastos, "fecharam os olhos" para desmandos escancarados em reportagens do "Fantástico", da Globo, e depois em outros veículos.

"Não há irregularidades", chegou a dizer o presidente do Conselho Fiscal, em 2019, Paulo Marcondes Pedrosa, sobre a gestão Wagner Pires de Sá. O próprio Pedrosa virou presidente do Conselho Deliberativo em 2020, sob críticas e acusações da oposição. Polícia Civil e o Ministério Público de Minas Gerais dizem que a gestão cruzeirense praticou os crimes de lavagem de dinheiro, apropriação indébita, falsidade ideológica e formação de organização criminosa.

Na primeira etapa de uma longa investigação, foram denunciados o ex-presidente, o então ex-vice de futebol Itair Machado e o ex-diretor geral Sérgio Notato e mais seis pessoas. Os investigadores apuraram um prejuízo de R$ 6,5 milhões, mas o rombo nos cofres do Cruzeiro foi bem maior. Só em 2019, por exemplo, o défict no caixa foi de R$ 394 milhões. E a dívida total da Raposa pode superar R$ 1 bilhão no balancete de 2020.

Crise nos bastidores ameaça chances de acesso

Jogar a Série B no ano de seu centenário não estava no roteiro. Desde o estabelecimento dos pontos corrido no Brasileiro, todo time grande que cai, sobe de volta logo no ano seguinte. Mas a confusão política ainda efervescente nos bastidores do clube, os graves problemas financeiros e a crise institucional, além de um fraco desempenho dentro das quatro linhas, devem manter o Cruzeiro na segunda divisão pelo segundo ano seguido.

Depois que o presidente Sérgio Santos Rodrigues assumiu o comando, em junho do ano passado, um de seus fiéis escudeiros, Léo Portela, chegou a dizer que no dia do centenário, a Raposa já estaria garantida na Série A. A previsão ficou longe de acontecer. Grandes aliados, Portela e Rodrigues romperam relações. E esse é só um exemplo dos inúmeros problemas políticos que agravam a situação nos bastidores.

Só em 2020 o clube passou por duas eleições presidenciais e mais dois pleitos para eleger o presidente do Conselho Deliberativo. Dentro de campo, o time pode ter concorrência ainda mais acirrada para voltar à elite em 2021. Vasco e Botafogo, dois times de tradição e torcida, estão na zona de rebaixamento da Série A e podem fazer companhia ao Cruzeiro na próxima edição da série B do Brasileiro.

"O clube tem tudo para recuperar, mas tem que ter sintonia entre diretoria, jogadores, comissão técnica, conselheiros. Caiu para a segunda divisão com o time mais caro da época, hoje tem o time mais caro da segunda divisão, e não funciona. O dirigente precisa ver isso, tem que encontrar uma solução", afirmou o ex-atleta Joãozinho.

Fernando Moreno/AGIF

Realidade na Série B

Na série B do Brasileiro, o Cruzeiro vive a maior crise de sua história. Em 11º na tabela, com 41 pontos, em 32 jogos, pode chegar a no máximo 59 pontos, se vencer os seus próximos seis compromissos — contra Sampaio Corrêa (fora), Oeste (casa), Juventude (fora), Operário (casa), Náutico (casa) e Paraná (fora) e ainda torcer para tropeços no topo da tabela.

Com aproveitamento de 49% até aqui, a Raposa tem 12 vitórias, 11 empates e nove derrotas. Fez 36 gols e foi vazado 29 vezes. As chances de voltar à Série A são remotas (0,35%, segundo o Departamento de Matemática da Universidade Federal de Minas Gerais), e o Cruzeiro pode ser o primeiro grande a passar duas temporadas no acesso.

Até mesmo o técnico Felipão já declarou que o retorno à Série A neste ano não está nos planos: O que eu vim para fazer, e vou fazer, vamos fazer, é tirar o Cruzeiro da Série C. [...] Tenho que pensar na equipe que assumimos, que quando assumimos fizemos os pontos necessários para sair da Série C. Não sai da Série C só com camisa, sai com jogadores. Não sai só com meninos, sai com jogadores um pouco mais veteranos, rodados, e tudo isso temos que estudar para o ano que vem, e pronto", comentou após empate em 0 a 0 contra o Cuiabá no último dia 29.

Mas os craques do passado não deixam de acreditar que o Cruzeiro vai voltar a viver os dias de glória do passado.

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