Sou muito mais do que isso

A atleta Verônica Hipólito conta como sua vida e carreira vão além de notícias de tumores e AVC

Verônica Hipólito Especial para o UOL Esporte
Marcus Steinmeyer/UOL

Quando as pessoas querem vender jornal, tumor benigno vira câncer. Quatro cirurgias são 20. E as manchetes sempre são: "A menina com mais de 200 tumores". Isso mais todos os blá blá blás... Ok, ok, vamos à minha versão da vida, pode ser?

Eu não ficava mal quando lia isso. Porque, em partes, é verdade. Eu tenho 22 anos e já passei por quatro cirurgias e sofri um AVC.

Eu sei, espanta muita gente, mas olha... É tanta informação que eu mesma me confundo às vezes. A primeira operação foi para retirada do tumor na cabeça, aos 12 anos. Com 14, tive o AVC - foi em casa mesmo, à noite.

Imagine o desespero dos meus pais, quando o meu irmão ligou dizendo "Vem logo pra casa! A Verônica tá tendo um troço muito estranho"? Até hoje não sei como eles chegaram tão rápido em casa. Aos 19, retirei o intestino grosso por causa dos mais de 200 tumores que havia nele - fiquei chateada e tudo... Mas fui fazer o que deveria: correr o mais rápido que eu pudesse e aproveitar cada momento. Tive que abrir mão do Mundial, já que dois dias após chegar do Parapan, fiz a operação. Aos 21, passei por outra operação na cabeça para tirar o mesmo tumor de quando era criança. Um ano depois, tive de repetir a cirurgia, porque o tumor tinha crescido mais uma vez e ficado gigante. Foi a maior cirurgia de todas. E claro, a maior recuperação de todas também - ainda estou voltando, aos poucos, a correr.

Mas, apesar de todas essas cirurgias, queria dizer uma coisa:

Eu sou muito mais do que isso.

Sou medalhista de prata e bronze nas Paralímpiadas em 2016, campeã mundial absoluta nos 200m rasos, vice-campeã mundial nos 100m rasos, tenho 3 ouros e 1 prata no Parapanamericano em 2015, também sou recordista das Américas nos 100m, 200m e 400m na classe T38, para quem tem algum tipo de paralisia do corpo, seja por paralisia cerebral, AVC ou Traumatismo Craniano.

Então, quando eu lia todas a manchetes eu não ficava mal. Ficava brava.

Ficava brava por, muitas vezes, me resumirem a algumas cirurgias. Ficava brava por se esquecerem dos meus títulos. Eu não sou A Menina dos 200 tumores. Eu quero ser uma Gigante do século. Quero inspirar e ajudar muitas pessoas, e é claro: conquistar muitos títulos.

Vamos explicar de uma vez por todas: não é câncer. Nunca foi. Eu fiz um exame genético e tenho uma mutação. E é por causa dessa mutação que existe uma facilidade para produzir tumores benignos em alguns lugares do meu corpo, como o intestino grosso e a cabeça. Não é câncer. São tumores benignos, e eu tenho muita certeza de que agora estou curada e nada mais irá acontecer.

É chato ter operado tantas vezes? É chato. Eu fico chateada? Ô se fico! Mas a vida não foi feita para ficarmos num canto, chorando, irritados, reclamando. Sempre digo para todos: problemas todos nós temos. Pode ser uma cirurgia para a retirada de tumor, pode ser uma nota baixa na escola ou faculdade, pode ser um resfriado, uma briga com alguém, e até mesmo pode ser bater o dedão na quina de um móvel - e meu Deus, como dói!

Mas também todos temos as soluções. Para que complicar?

Quando tive os tumores, tive a solução de operar cada um deles e retirá-los. Quando tive o AVC, consegui chegar a tempo no hospital, fiz fisioterapia, fonoaudiologia e fui melhorando. Quando tiro uma nota baixa? Osh, vou estudar mais e recuperar! Se briguei com alguém, eu vou e resolvo.

Eu sempre fui uma criança comum. As minhas lembranças sempre têm esporte no meio. Sempre.

Fiz natação, ginástica olímpica, vôlei, basquete, tênis de mesa, de campo, futebol, futsal...Fiz de tudo e era ruim em quase tudo! A minha mãe chegou a parar uma competição de natação achando que eu estava me afogando. Mas vou falar: meu nado cachorrinho é o melhor de todos!

Os meus pais nunca pensaram em me colocar em algum lugar para ser campeã mundial, para ganhar dinheiro, fama. Nunca. Eles são professores de história, do Estado, e sempre acreditaram no poder de transformação do esporte. Para eles, esporte e educação andam juntos. É nisso que eu acredito, também.

Lembro a primeira vez que corri. Era um domingo, 7 da manhã. Um festival de atletismo. Não queria ir, meu pai me levou mesmo assim. E eu perdi a corrida. Na verdade, levei uma surra naquela corrida, mas nem liguei. Eu saí de lá falando uma coisa:

"Quero ser a menina mais rápida da cidade."

Meu pai respondeu: "Então, se esforce para isso."

Parece um daqueles momentos de filme, mas aconteceu assim mesmo.

Após isso, eu entrei na equipe de atletismo de vivência, ou seja... Poderia comer o que quisesse, se eu faltasse não teria problema nenhum, não precisava ficar me preocupando com as marcas. Mas eu queria mais. Queria treinar no alto rendimento.

Só que eu tive um AVC.

Na época, foi um grande auê. Assim que acordei, tinham vários familiares ao meu redor. Até pensei que era uma festa, mas eu estava no hospital. E tooodo mundo que escuta essa história hoje fica pensando que eu fiquei triste naquela época, depressiva, achando que nada daria certo para mim.

Bicho, eu estava ansiosa para saber o que teria de almoço e jantar.

Fiz até amizade com as enfermeiras para que elas pudessem me trazer uns pedaços de carne a mais, uns copinhos de suco a mais. Até hoje acredito que foi muito mais difícil conseguir que elas me trouxessem comida a mais, do que voltar a andar.

E falando em voltar a andar, as pessoas falavam muito sobre isso. Que seria impossível eu voltar a andar, impossível voltar a falar, impossível, impossível e impossível... Mas eu sempre escutei os meus pais. Pouco antes de sairmos do hospital, minha mãe me disse para que eu desse o meu melhor em tudo. Já o meu pai falou para que nunca deixasse que ninguém me dissesse o que eu deveria ou não deveria fazer.

Marcus Steinmeyer/UOL Marcus Steinmeyer/UOL

Depois do AVC, eu tive hemiparesia, e uma parte do meu corpo ficou paralisada. Voltar para a escola não foi fácil. É claro que me zoavam. "Espera todo mundo descer porque você empaca o trânsito da escada", me falavam.

Eu comecei a sentar no fundo, ao lado da porta. Não queria que ninguém me visse. Mas era um lugar em que eu via todo mundo. Tentava colocar na minha cabeça que era para não dificultar ainda mais as coisas.

Mas um dia uma menina me deu uma tesoura. Do nada.

"Era melhor você ter morrido", ela disse.

Ela me deu uma tesoura para que eu me cortasse. Guardei isso dentro de mim e só consegui falar para os meus pais no ano passado. Acho que preciso contar essas coisas porque só assim posso ajudar outras pessoas.

Eu voltei. Primeiro andei. Depois eu trotei. Trotei mais rápido, e aí voltei a correr. Então saí correndo por esse mundão.

Em 2018, eu já não tinha uma parte da hipófise, que é a glândula mestra que faz os hormônios do corpo. E estava com o maior tumor que já tive. O meu médico falou: "Na pior das hipóteses, você tem que colocar um dreno nas costas para aliviar a pressão". A situação era tão grave que eu estava, basicamente, sem visão do olho direito. Quase cega. Mas eu disse para o médico: "Não vai acontecer nada disso".

Aconteceu.

Acordei com um dreno nas minhas costas. Sentia muita dor de cabeça. Vomitei muito. Evitei ao máximo, mas tive que tomar morfina. Fiquei um tempão de cama, parada. Quando fui levantar, demorei umas duas horas e meia só para conseguir sentar.

Quatro passos depois, falei: "Quero voltar para a cama. Eu estou com medo".

Chorei muito. Em casa, depois de tirar o dreno, me deixaram começar a virar de um lado para o outro na cama. Ainda sentia muita dor, na cabeça, nas costas. E fome. Mas eu vomitava tudo muito rápido.

Meus pais e o Allan, meu namorado, quase soltaram um rojão quando tomei meu primeiro banho sozinha. Foi o ano em que mais aprendi, 2018.

Olhem bem... Primeiro, sobre a minha mãe: a maioria das pessoas tem uma péssima mania de achar que as melhores atletas, cantoras, atrizes, professoras e os Gigantes são pessoas """escolhidas""". Que alguma divindade, seja lá qual for sua religião, as escolheram para serem as melhores. Que foi o destino. Ou que elas tiveram muita sorte.

Pelo amor, vai. Sabe o motivo delas estarem onde estão agora? Porque elas trabalharam. Elas deram o melhor todos os dias, e isso é muito cansativo. A zona de conforto é um lugar incrível. Pena que nada acontece lá. A zona do seu MELHOR é um lugar super cansativo, muitas vezes dolorido, e quantas frustrações existem lá quando você falha... Mas tudo o que você quer, todos os seus sonhos, é lá que eles serão realizados.

Agora, o meu pai: não tem algumas vezes que alguém te fala que algo é muito difícil? Ou tem aquela pessoa que diz que ninguém consegue fazer, inclusive você? Mande ela a merda. Vá lá e faça. Falar, todo mundo fala, fazer é você quem decide.

Engordei 20 kg depois da última operação por causa do corticoide que tinha que tomar, uma espécie de hormônio sintético para fazer meu organismo funcionar direitinho.

Eu vestia PP com folga. Tanto que a hashtag que usavam para torcer por mim era #vaimagrela, por conta do meu apelido.

De repente, estou vestindo M e Top G para não ficar me apertando. De repente, estou cheia de estrias, nas mamas, até no joelho, em tudo quanto é lugar. E não foi um processo de um ano, de dois anos, foi um processo de quinze dias para tudo isso acontecer.

No início, eu não aceitava mesmo. Eu queria continuar vestindo a roupa PP. Até que eu sentei, a blusa subiu e eu falei: "Cara, isso não sou eu".

Gente falando merda sempre vai ter. Seja você famoso ou não. Gente que te conhece e fala pelas costas. Falaram que engordei porque não me cuidei e comi demais, falaram que eu estava mentindo do grau da cirurgia e minha reabilitação estava sendo muito rápida, falaram que eu mentia da minha classe T38, falaram, e ainda falam, sobre muitas coisas.

Mas eles só falam. Quem decide sou eu. Quem vive sou eu.

Ainda não me adaptei completamente à minha rotina: idas aos médicos, exames, remédios, cuidados com qualquer mudança no clima devido à minha imunidade, mas de uma coisa eu sei. Com barriga ou sem barriga vou continuar me divertindo e fazendo aquilo que eu mais amo:

Correr.

Correr como sempre corri, me divertindo. Dando risada. Vivendo.

Só eu digo o que é impossível para mim. E eu decidi que NADA seria. Espero que vocês também.

Marcus Steinmeyer/UOL Marcus Steinmeyer/UOL

Seria impossível eu voltar a andar. E eu voltei a correr, sendo a mais rápida do mundo. Seria impossível eu conseguir ser reconhecida no mundo esportivo. Hoje treino no Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, um dos 5 maiores e melhores centros de treinamento do mundo, com os melhores atletas brasileiros - que também se posicionam entre os melhores do mundo. Assinei contratos com a Nike, Nissan, Petrobras, Caixa, Ajinomoto, Nestlé, Time São Paulo e Bolsa Pódio. Seria impossível conciliar os estudos com o esporte. Então, eu estou estudando na Universidade Federal do ABC.

Tudo pode ser muito difícil. Nada é impossível. Trabalho duro, humildade, honestidade e positivismo te levam para lugares incríveis. Tente.

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