Nem pão, nem água

O relato de uma ginasta com transtorno alimentar obrigada a se pesar quatro vezes por dia

Angélica Kvieczynski Especial para o UOL, em Campinas
Marcus Steinmeyer/UOL

Eu treinava com olheiras, porque tomava laxante. Passar a noite inteira no banheiro para manter o peso era uma desvantagem competitiva. Outras ginastas conseguiam vomitar e podiam dormir. Eu tentei a bulimia. Me ajoelhei na frente da privada, levantei a tampa e enfiei o dedo na garganta. Ânsia, ânsia, ânsia e nada. Tentei outras noites: um dedo, dois dedos, três dedos, a escova de dentes...

O problema começou por causa da pressão com o peso que conheci quando fui para a seleção brasileira de ginástica rítmica, em 2007. Eu me apresentava para treinar com os lábios roxos, porque estava desidratada. Na noite anterior, vestia vários casacos, me enrolava no papel filme e ia pular corda ou subir e descer escadas até ficar empapada de suor.

Acordava com o corpo tremendo de tão fraco, mas aliviada. A pesagem acontecia com todos os ginastas juntos. Para quem aumentava, nem que fossem 100 gramas, os técnicos gritavam: "GORDA, OBESA". Completavam a humilhação com agressões à honra. "Não vou levar para competição para passar vergonha com você gorda desse jeito".

As pessoas saíam chorando. Essa era a cultura da ginástica rítmica.

Saudade e medo

A balança foi minha maior inimiga na carreira. Me deixou com um tique. Até hoje, bebo água e parece que minha barriga está maior. Coloco uma roupa apertada, olho no espelho e penso: que porca gorda!

Na ginástica, a miséria à mesa era descomunal. Eu não passava a pão e água. Seria comida demais. Eu cheguei a ser pesada quatro vezes por dia, incluindo antes e depois do almoço. Não podia dar mais que 200 gramas de diferença. Até hoje eu tenho pavor de balança. PA-VOR.

O trauma começou no ano do Pan do Rio, em 2007, quando me mudei para Curitiba para treinar com a seleção brasileira. Pensa numa pessoa que não conhecia nada do mundo. Era eu. Treinava num clube muito família em Toledo, interior do Paraná. Estava com 15 anos e nem usar caixa eletrônico eu sabia.

Em Curitiba, eu chorava demais, todo dia. De saudade e de medo. Logo que cheguei, levei umas broncas muito pesadas que, eu acho, foram desnecessárias. Era só explicar a rotina de treinos que eu ia seguir. Eu era uma criança, meu primeiro selinho foi com 16, a primeira menstruação aos 18. Eu sentia saudade de treinar e depois brincar na rua com minha irmãzinha.

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Aprendendo a tomar laxante

Em Toledo, eu comia pão com ovo no café da manhã e nunca fiquei gorda. Mas em Curitiba, olhavam com cara de que queriam me matar quando comia pão. Na Páscoa, troquei o almoço por um bolinho de chocolate. Só pararam de me xingar quando comecei a chorar. Pelas técnicas e dirigentes, minhas refeições seriam ovo, salada e salada.

Um dia, uma atleta mais velha me convidou para ir ao parque de diversões na folga do final de semana. Ela falou para comprar pipoca. Fiquei desconsertada. Mas a veterana tinha uma solução: laxante. Comemos e ela tirou o comprimido da bolsa. Eu tomei com refrigerante, muito subversiva com a ditadura da balança. Minha primeira noite de laxante foi em claro. Que dor de barriga!

Só que no outro dia eu estava meio quilo mais magra. Ganhei muito elogio. Foi nesta manhã que aprendi que podia comer o que quisesse. Depois, era só tomar laxante. Também aprendi que quanto menos água eu tomava, menos eu pesava. A cultura da ginástica rítmica me levava em direção ao transtorno alimentar.

Laxante, nada de água e começa aquela desidratação. Não me importava. Eu pesava, não era mais humilhada e não me sentia mais culpada.

E nós não tínhamos nenhuma informação de nutrição, nem era explicado. Aprendi a olhar a comida sem me preocupar com os nutrientes. Cuidava só do peso bruto. Por que comer dois ovos se uma paçoca pesa menos?

Também só tomava água depois da pesagem, que era antes do treino da manhã e da tarde. Ia suar tudo no treino e não repunha enquanto não subisse na balança novamente. Tudo, tudo errado! Mas ninguém da seleção falava nada. Era parte de uma cultura que só se importa com o número que aparece na balança.

O salário em doces

Na frente dos técnicos eu sentia necessidade de mostrar que comia pouco. Até alimentos saudáveis eu comia escondido. Meu passo seguinte no caminho da degradação alimentar foi aprender a comer besteira.

Antes de ir para Curitiba, eu não era de comer porcaria. A gente era bem pobre. Quando ganhava um bombom, cortava em quatro pedaços e durava quatro dias.

Mas na seleção eu recebia salário. Mandava quase tudo para a família. A minha parte gastava em bobagem. A gente ia para o cinema no final de semana e no caminho passava no supermercado. Era capaz de comer um pote de paçoca de uma vez. Depois, tomava refrigerante e água com gás para arrotar e caber mais comida. Olha o nível a que chega!

O cinema era uma libertação, a única hora em que me sentia saciada. Voltava para o alojamento, tomava laxante, me embrulhava em casacos e papel filme e ia suar pulando corda ou subindo escadas.

Como eu não conseguia vomitar, lembro que meu corpo começou a criar tolerância ao laxante. Chegou uma época em que precisava tomar duas cartelas inteiras para fazer efeito.

sobre a piora do distúrbio alimentar

O mais absurdo é que é impossível os treinadores não perceberem. Como não vai saber com todos os sintomas? Eu chegava desidratada, com olheiras e os lábios roxos. Ia treinar tremendo. Ninguém é cego, pelo amor de Deus!

Mas o Pan do Rio acabou e voltei para Toledo. Minha mãe percebeu a mudança e falava para eu comer salada com filé de frango. Eu respondia que só podia comer 200 gramas. E comecei a fazer o que tinha aprendido de errado. Comia escondido e mandava laxante.

E o que acontece quando seu corpo vive em privação? Suga tudo que é possível. Eu comecei a engordar mesmo passando fome. Foi nesta época que passei a ser pesada quatro vezes por dia. Mesmo no meio desta calamidade, eu continuava sendo a melhor ginasta do Brasil. Tanto que em 2010 estava na Rússia.

Resistência sobrenatural

Moscou era a sede do Campeonato Mundial e cheguei antes para treinar. Estava fazendo um giro quando senti uma dor descomunal no joelho direito. Fui para o banheiro, respirei e voltei para o tapete com a técnica russa gritando na minha cabeça.

Faltava uma semana para a competição e guardei segredo. A dor dava certeza de que era grave, mas eu não aceitava ficar fora do mundial. Na véspera da estreia, eu contei. Fizeram um teste, era menisco. Não teve exame. Perguntaram se conseguiria competir.

"Vambora".

Foi horrível. A sorte é que a adrenalina da apresentação dá uma bloqueada nos receptores do cérebro e camufla a dor. O problema é quando termina. Eu sentava no sofá e não aguentava levantar. Mas era orgulhosa e saía da área de apresentação caminhando toda garbosa. Chegava no túnel e era carregada pelos fisioterapeutas que nem um bêbado.

Risco de morte ou amputação

Voltei para o Brasil com a sensação de uma faca espetada no meu joelho. Os exames comprovaram a ruptura do menisco. O problema é que tinha pré-Pan em Guadalajara dali dois meses e meio. A seleção brasileira estava Aracaju treinando com uma técnica búlgara e pediram para eu competir lesionada mais uma vez. Encarei.

Até que num movimento o arco bateu no meu pé direito. Deu uma torcidinha. Me arrastei para o banheiro e comecei a chorar. Encontrei meu limite.

Fiz a cirurgia em Aracaju mesmo e no terceiro dia eu sentia mais a panturrilha que o próprio joelho. Na consulta de retorno, falei para o médico que estava com uma dor de câimbra e até fazia gelo na panturrilha. Ele respondeu que era muito sério.

Como era um cara muito brincalhão, comecei a rir. Ele me cortou olhando com uma expressão grave. Me mandou na hora para um vascular. Eu tinha duas veias com trombose.

Começou o desespero de todo mundo, mais ainda da minha técnica que entendia a gravidade do quadro. Eu não entendia direito na época. Caiu minha fica quando ligamos para o fisioterapeuta que me acompanhava em Toledo e ele falou para cuidar:

Trombose pode levar à morte ou à amputação do membro.

A cirurgia foi em outubro e pude voltar para Toledo depois de um mês. Continuei o tratamento na minha casa. Tomei anticoagulante por via oral e por injeção todo dia durante seis meses. Eu mesma aplicava a injeção na minha barriga.

Falando de maneira popular, o remédio afina o sangue. O risco era o coágulo que forma o trombo se soltar da veia, viajar pela corrente sanguínea e parar no meu cérebro ou pulmão. Também podia acontecer de o sangue não passar na região do trombo, ter necrose e precisar amputar.

Passados dois meses, voltei a treinar, bem de leve. Lembro que comecei a sentir uma dor meio no lado, no meio nas costas. Um incômodo que não ia embora. Falei para minha mãe que tive uma contratura ou estiramento. O médico fez um ultrassom e era muito pior. Uma mancha ao redor do rim apontava hemorragia.

O sangue estava tão fino que saía das veias. A causa pode ter sido uma cambalhota, uma batida, uma hiperflexão forte, qualquer coisa. Ficou bem complicado. O sangue grosso podia me matar. O sangue fino também. Como faz? Achei que fosse morrer.

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Volta abaixo do nível

A volta às competições ocorreu em 2011 num campeonato brasileiro. Fui muito mal. Derrubei 11 vezes a maça, aquele bastãozinho. Uma delas caiu bem no meu nariz e senti aquele cheiro de sangue.

Antes da última série, sentei no espacate em cima do banco e fiquei. Todo mundo, dirigentes, atletas e treinadores rivais falando "a Angélica se acabou". Minha técnica mandava eu treinar e eu dizia: "Para quê? Tô competindo que nem uma merda". Esta palavra mesmo.

Estava com tanta raiva que a última série foi perfeita. O ginásio foi abaixo. Aí teve o Pan-Americano de Guadalajara. Eu era a principal atleta, todo mundo sabia. Vindo de cirurgia, sem treinar e longe da forma ideal ainda fiz uma série daquelas. Fui para o México e deu no que deu: quatro medalhas.

Angélica conhece a balada

Eu viajei sem nenhuma expectativa. Tinha feito aquela competição horrível no brasileiro e passava uma fase rebelde de adolescência tardia. Estava com 18 anos e menstruei pela primeira vez. Respondia para a minha técnica e treinava de qualquer jeito. Fui perceber a bobagem que estava fazendo um mês antes do Pan.

Comecei a me dedicar de novo e deu resultado. Mas as medalhas subiram para cabeça, e 2011 e 2012 foram uma merda. Depois do Pan, fui para minha primeira balada.

Conheci a batidinha. Fiz mais amigos, todo mundo pedia fotos, tinha passe livre nas festas, cartão VIP e camarote. Tive um ano achando que tinha o mundo aos meus pés.

Minha mãe me dava bronca direto, minha técnica começou a me repreender. "Vai dar ruim, vai dar ruim". Óbvio que deu ruim.

Estava treinando pesada e luxei o ombro. Luxei de novo, e mais uma vez. Até que rompi três ligamentos. Nova cirurgia. Já era 2012 e veio o choque de realidade. Cheguei a 74 quilos. Meu peso era 55 quilos - estava com um terço a mais.

Quanto mais falavam para fechar a boca, mais eu comia. Eu tinha uma compulsão por mastigar. Mesmo que eu não gostasse da comida, queria. Eu já estava com depressão. Não saía de casa. Minha mãe tentava me levar para uma caminhada e eu ralhava.

"SAI DAQUI".

Naquele tamanho, braço operado, cheia de celulite, olhava no espelho e parecia um porco gordo. Você começa a piorar. Passei a me trancar no quarto e saía escondida para comprar comida. A única coisa que eu queria era ficar deitada, mastigando.

No fundo do poço tinha uma arma

Eu comia, porque estava triste. Daí ficava feliz, mas em seguida ficava mais triste ainda. Inventava desculpa para não aceitar ir ao psicólogo. Minha mãe tentava falar comigo e eu não respondia. Tentava me repreender, eu ignorava. Passei a ser grosseira com minha irmãzinha pequena. Realmente cheguei no fundo do poço.

Eu pensei em tirar minha vida. Achava que não tinha mais futuro na ginástica e, na minha cabeça, eu não prestava mais para nada. Cheguei a procurar alguém que vendia arma. Minha melhor amiga descobriu. Ela viu quando chegou uma mensagem com o preço da arma no meu celular. Ficou desesperada.

Naquele dia, ela sofreu muito. Foi o mesmo ano em que ela teve um acidente e quase morreu. Ficou conversando o tempo todo comigo, não largava de mim, o tempo todo junto. Ela conversou muito comigo.

Percebi o quanto as pessoas que me amavam iam sofrer. Tirei a ideia da minha cabeça. Esta situação virou um segredo meu e dela. Ninguém mais sabe. Nem meus pais. Nunca contei para eles.

Marcus Steinmeyer/UOL Marcus Steinmeyer/UOL
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"Comecei a ser a Angélica de novo"

Tudo estava errado na minha vida quando o COB me chamou para ser embaixadora dos Olimpíadas Escolares, hoje Jogos Escolares da Juventude. Disseram que eu só ia carregar a tocha. Foi aí que conheci o Daniel Paiola. A gente conversou bastante.

O cara era diferenciado, tipo príncipe encantado. Ele era atleta do badminton e me deu a maior força. Eu tive um estalo. Comecei a ser a Angélica de novo.

Voltei para o ginásio daquele jeito, quase 20 quilos acima do peso. Todo mundo duvidando de mim, me julgando. Menos minha técnica. A pessoa para quem eu mais respondi, a quem desobedeci tantas vezes, me acolheu.

Foi dela que eu tirei força. Não posso correr, então vou andar. Não posso andar, então vou rastejar. Eu me empolguei. Perdi peso sem laxante. Nunca mais tomei na vida. Entrei 2013 bem e já estava namorando meu príncipe encantado. Hoje, somos noivos.

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Programada para sofrer

Esta coisa de sofrer é algo que aprendi na ginástica rítmica desde que que iniciei, aos 9 anos. Eu era ruim, muito ruim mesmo. Minha ascensão se deve à dedicação. O técnico mandava fazer 10 vezes, eu fazia pelo menos o dobro. Isto é meu. E força de vontade é essencial na ginástica rítmica. Treinei com muitas russas e sabe como é o regime delas. São bem carrascas.

E 9 anos é tarde para começar. Precisei de um intensivo para ganhar flexibilidade, algo que só se adquiri de um jeito: rasgando mesmo. O método é muito lesivo. Minha técnica me deitava num banco de barriga para cima. Vinham duas pessoas, uma em cada perninha, e forçavam o pezinho em direção ao chão. Um de cada vez. Dói bastante. Eu chorava. O combustível para abrir o espacate perfeito foi muita lágrima.

Eu não gostava que chorassem alto do meu lado. Às vezes eu estava lá, suportando, e a ginastinha do meu lado BUÁÁÁÁÁ. Pelo amor de Deus! Você começa a chorar junto.

Choro é algo tão recorrente na ginástica rítmica que nem lembro a primeira vez que chorei. Mas eu chorava toda vez que gritavam comigo. E os gritos eram constantes. Ainda assim, nunca duvidei dos métodos, porque sempre senti resultado.

Fui programada para aguentar a dor, aguentar a pressão e ser mais forte que a fome e a sede. E quando os outros duvidaram de mim, eu não aceitei, Para você ter uma ideia, em 2010 meu corpo estava tão desgastado que quatro médicos quiseram me aposentar. O quinto falou:

Médico: Angélica vai adiantar eu falar que você tem que parar?

Angélica: Não.

Médico: Então vou fazer de tudo para te manter em condição de treinamento.

Angélica: Se você falar que não posso treinar, vou em outro médico. Outros quatro falaram que minha carreira acabou e eu vim parar aqui.

Depois desta consulta, ganhei 6 medalhas Pan-Americanas.

Opressão passou a incomodar

Além de títulos, acumulei experiência. Quando tomei consciência do mundo, esta cultura da ginástica passou a incomodar. Chegou ao ponto de não querer ser mais atleta, mesmo com meu corpo permitindo. Nunca tive medo de treinar, nunca tive medo de competir. Eu aguentaria mais um ciclo olímpico. Tran-qui-lo.

Mas eu faria mais diferença fora dos tapetes. O Brasil ainda tem uma cabeça bem retrógrada. As meninas precisam do biótipo do Leste Europeu: brancas, olhos azuis, pernas compridas, sem bunda e raquíticas. Outra tecla que bato é o racismo. Existe muito. Eu vi com meus próprios olhos.

Eu deixei a ginástica ano passado para ser técnica. Estudei e quero continuar estudando para reunir condições de estar em postos de comando e mudar esta realidade. Modernizar os métodos. Algo que já faço com minhas atletas.

Eu estou treinando cinco ginastas. Minhas atletas não são pesadas. Eu não uso a balança, porque não acredito nisso. De que adianta? Não quero uma atleta desidratada e faminta. Eu confio no trabalho de um nutricionista que aferi a o percentual de gordura. Elas vão comer corretamente e ter uma alimentação saudável. E eu não proíbo nada. Quem decide o que elas vão comer é o nutricionista.

Em alguns pontos, eu sou meio mole. Não consigo pegar as meninas e rasgar para ganhar flexibilidade, como fizeram comigo. Trabalho com elas usando o peso do próprio corpo. Vai demorar? Vai. Mas é mais humano. E eu busco ser parceira das atletas. Acho que hoje em dia não funciona mais esta metodologia de fazer a criança sentir medo.

O que tento fazer de diferente é evitar que minhas atletas comprometam a saúde delas no futuro. Eu tenho dificuldade para ir ao banheiro até hoje de tanto laxante que tomei. Carrego pedras no rim porque passei muito tempo sem tomar água. Até hoje não desenvolvi o hábito. E eu acho uma derrota precisar baixar aplicativo para lembrar. Minha irmã, que treinou ginástica oito anos, já se rendeu a ele.

Na minha visão, se quer manter uma menina no esporte, precisa manter o interesse. Ainda mais quando são adolescentes, minhas atletas têm entre 09 e 13 anos. Muitas estão naquela fase em que veem o mundo contra elas. Os pais, os professores. Tento fazer com que acreditem que estão buscando o melhor delas no ginásio por iniciativa própria. Tem funcionado.

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Uma guerreira no ginásio, outra em casa

Eu passei por muita coisa, mas não me arrependo de nada. Nunca foi só brincadeira. Desde a primeira vez, aos 9 anos, levei a ginástica muito a sério. Contei aqui coisas que nunca contei para a minha própria mãe.

Eu nem gostava que ela assistisse aos meus treinos. Sempre foi raro o momento de desabafo com ela. Minha mãe me ensinou a ser forte. As pessoas mais fortes que conheço são minha ex-treinadora e minha mãe.

A Anita era minha técnica. Com 10 anos, ela começou a trabalhar de boia-fria na lavoura para conseguir comprar remédio, porque a mãe dela estava morrendo. Com 12, virou diarista em troca de comida e pouso. Não podia nem comer na mesa. Sentava fora da casa e comia a comida que ia para os cachorros.

Isso é só um pedaço da história dela que hoje é reconhecida pela Federação Internacional de Ginástica. Muito brava, muito carrasca, muito exigente. Mas graças a Deus e a ela que eu sou o maior nome da história da ginástica rítmica brasileira.

Já a minha mãe foi a pessoa mais criativa para fazer as filhas seguirem os sonhos. Como não tinha dinheiro para comprar collant, costurava para as outras meninas e usava os retalhos para fazer o meu. Fui campeã Pan-Americana juvenil com um collant de retalhos.

Nosso sonho de criança era ter uma piscina. Minha mãe cavou o dia inteiro no fundo do lote. Colocou uma lona e jogou água. Apesar de a gente não ter nada, a gente tinha tudo.

Meu pai é motorista de caminhão. Ele ficava sem jantar para, no final de semana, a gente viajar com ele e poder comprar sorvete. Eles, meu pai e minha mãe, trabalhavam na plantação de fumo e minha mãe perdeu um filho antes de mim por conta do agrotóxico.

Minha mãe fazia 16 quilômetros de bicicleta todos os dias para me levar aos treinos. Eu e minha irmã no varão. Ela não pode estudar, tem até a quarta série. Eu estudava numa escola particular, a melhor de Toledo, com bolsa graças à ginástica. O sonho dela e do meu pai era as filhas se formarem.

Quando você sai do nada, quando teus pais ficam sem comer para as duas filhas não passarem fome, você valoriza muito mais

Angélica Kvieczynski, a melhor ginasta da história do Brasil

Não era a dor do músculo rasgando num espacate, uma russa gritando na minha cabeça ou a humilhação por causa de peso que ia me fazer desistir. Eu sofri? Sofri e muito. Fui humilhada, passei fome, dor...Faria tudo de novo... Quantas vezes precisasse.

Meu berço era uma caixa de fumo e eu consegui ajudar minha família. Minha irmã é formada, eu sou formada, posso escolher onde quero trabalhar e conheço mais de 30 países...

Chega, já tô chorando de soluçar.

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