Conformismo não é uma opção

Meligeni brigou para ser brasileiro, quase ficou fora de Olimpíada e hoje critica a cultura do esporte na TV

Rubens Lisboa Colaboração para o UOL, em São Paulo

Aguerrido em quadra, se jogando em cada bola, brigando a cada ponto, Fernando Meligeni nunca escondeu seu sangue argentino e a garra característica de atletas do país onde nasceu. Ele encerrou sua carreira, mas isso não quer dizer que vá deixar de lutar —fora de quadra e também fora do ar, após sete anos ininterruptos como comentarista na ESPN. A diferença é que o ex-tenista dessa vez não rebate ou ataca a bolinha. O que não o deixa parar é o ímpeto para questionar o momento do esporte brasileiro e o modo como essa cultura esportiva é retratada na TV, mesmo que pague o preço por sua contundência.

Aproximando-se dos 50 anos (está com 49), ele vive de clínicas de tênis e de seu novo projeto, um curso de tênis pela internet, enquanto recusa propostas para voltar a ser comentarista e retomar uma carreira televisiva que teve passagens por MTV, Cultura, SporTV e a própria ESPN.

Num momento em que o esporte brasileiro está basicamente parado por conta do novo coronavírus, vindo, no seu entender, de um período de baixa, a onda das reprises tomou conta das transmissões. A escolha do menu diz, para Meligeni, que o país ainda não entendeu quais são os passos necessários para se tornar uma potência. Do futebol ao tênis, praticamente só as vitórias ganham espaço, numa deturpação não só do que representa o esporte, mas especialmente o esporte no país.

Há muitos anos que a gente não é o melhor país do mundo no esporte. A gente tem alguns campeões mundiais. Já tivemos muito mais, a gente teve muito mais esporte. Futebol é prova, o vôlei é prova, e vários outros esportes em que a gente já foi muito forte. No tênis a gente teve número um do mundo, no skate tem hora que tem, tem hora que não tem, mas a gente era até mais forte do que a gente é hoje. E vamos lá, hoje o surfe ficou forte, coisa que não era antes. Só que a gente não pode mostrar para o público que está na televisão o tempo inteiro a vitória."

Agora, se for para falar do circuito mundial de tênis, mesmo, ele acredita que, por conta da pandemia, as reprises serão a única opção para quem quer ver a modalidade na TV em 2020.

O ex-tenista, que hoje vive mais como pai de Gael (10) e Alice (6) e marido da atriz Carol Hubner, conta nessa entrevista ao UOL Esporte sobre como sofreu com a xenofobia de dirigentes esportivos depois de ter brigado com a família para ser brasileiro, reflete sobre o momento em que atingiu o auge da carreira, os motivos de não ter ido além, e também sobre o alerta aos sobrinhos tenistas enquanto vê crescer o número de casos de doping e corrupção no tênis.

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Assista à entrevista de Meligeni

"Há muitos anos que a gente não é o melhor país no esporte"

Sem jogos ao vivo devido à quarentena, as emissoras programaram reprises. No tênis, o SporTV começou com uma maratona repetitiva das partidas de Gustavo Kuerten pela Masters Cup de Lisboa, em 2000. Foram jogos históricos, sem dúvida: foi quando se tornou número um do mundo. Mas chegou uma hora que Meligeni não aguentou mais a exibição monotemática e reclamou no Twitter. Onde estavam os jogos de Thomaz Bellucci, Flávio Saretta, Jaime Oncins ou até mesmo os seus?

A repercussão, em primeiro momento, foi de críticas nas redes sociais, quando o alvo de sua queixa não era Guga e, sim, a cultura esportiva de um país que opta por mostrar as vitórias quando já não colhe os mesmos resultados de outrora. Mesmo depois de um período em que acolheu edições de Jogos Pan-Americanos, Copa do Mundo e Jogos Olímpicos.

A coisa do Guga foi um limite porque toda hora que você ia para a televisão, TV a cabo, e agora a Globo fazendo os jogos do Mundial, das finais a gente vê, eu vejo que a gente está querendo mostrar para o público que a gente é invencível, imbatível, maravilhoso, que nosso país é lindo. Eu acho que esse ufanismo... isso é muito legal, a gente acreditar no nosso país. Só que a gente não pode nem ser negativo e nem ser esse cara que é fonte da verdade".

Seu questionamento é em relação ao papel da televisão no esporte e o uso do slogan pelos esportes, quando a prioridade é o futebol.

"Qual é a função da televisão? Instruir ou ganhar dinheiro? Então levanta a bandeira e fala assim: 'eu ganho dinheiro e caguei para quem eu vou botar. Eu estou aqui para ganhar dinheiro'. Beleza, então a gente pensa se assiste esse canal. Agora, ficar com slogan que ajuda todos os esportes, que ajuda o esporte do Brasil e não bota ninguém? A ESPN teve uma época que falava 'o canal de todos os esportes'. Eu falei: 'cadê todos os esportes? Vocês só falam de futebol!'".

Parte das críticas a Meligeni pelo público citava a audiência como motivo para exibir apenas os jogos de Guga.

"Na hora que fala que tem que botar o Guga para dar Ibope no SporTV, me desculpa, às 16h ele não vai dar um Ibope. A gente não dava Ibope, na final do US Open a gente não dava 1 ponto. Então a gente não está falando de BBB".

"Começaram a olhar como se eu estivesse criticando o Guga. Eu sou trouxa de criticar o Guga? Eu posso criticar o Guga numa atitude que ele faça e eu tenho o direito, como ele tem o direito de me criticar. Se amanhã ele fizer uma besteira, eu vou criticar. Como o [Novak] Djokovic fez uma grande cagada agora. Ah, mas quem é você para criticar? Eu sou eu".

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"Briguei com a minha mãe para ser brasileiro"

Ele é Fernando Meligeni, tenista que nasceu em Buenos Aires, se mudou para o Brasil aos 5 anos com a família devido ao trabalho do pai, o fotógrafo Osvaldo Meligeni. E que, depois de aprender a jogar tênis no Brasil, ainda na infância optou pela nacionalidade brasileira, escolha que o fez sofrer.

Sua mãe, dona Concepción, não aceitava que o filho fosse brasileiro. Ela lembrava seu conselho a cada episódio de xenofobia que ele enfrentava no país, onde era o "argentino naturalizado brasileiro'" até chegar a uma semifinal olímpica e se queixar a respeito em uma entrevista.

Eu quis ser brasileiro, briguei com a minha mãe para ser brasileiro. Minha mãe se opôs totalmente. Ela me ajudou a minha vida inteira, mas a única coisa que ela não me ajudou foi a fazer o documento de brasileiro. Ela era veementemente contra. Assim como minha irmã e meu pai. Então, mas eu era coração, eu achava que eu tinha que fazer. Eu me sentia, então eu fui contra a minha família naquele momento. Quando eu recebia uma crítica desse porte, me doía. Quando eu não ia para uma Olimpíada com isso aí, me doía na alma."

Sua queixa nunca foi em relação ao povo brasileiro, mas dirigentes esportivos que o rejeitavam pela origem argentina.

"Eu sofri bastante, com a quantidade de convocações que eu perdi, a quantidade de vezes em que a minha mãe falava: 'Você vira brasileiro e as pessoas te tratam assim?' Eu tenho o maior orgulho de ter superado. E não me vitimizo isso. Mas eu apenas sei muito bem o que eu passei."

Antônio Gaudério / Folhapress Antônio Gaudério / Folhapress

"Nuzman não me queria na Olimpíada porque eu era argentino"

Meligeni costuma ser crítico a dirigentes esportivos e um de seus primeiros embates se deu a partir dos Jogos Olímpicos de Atlanta-1996. Ele conseguiu seu lugar no torneio como "alternate" (lista de espera), num período no qual apenas três dos dez melhores do mundo optaram por jogar. Mas o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) negou sua participação alegando que não aceitaria convite, mesmo que a entrada do brasileiro não fosse exatamente como convidado, mas sim por um direito adquirido por seu ranking.

E então começou sua relação de ódio com Carlos Arthur Nuzman, que presidiu o COB de 1996 até 2017, quando foi afastado depois de investigado e preso pela Operação Unfair Play, sob a suspeita de compra de votos para a eleição do Rio de Janeiro a sede dos Jogos de 2016.

"Ficou muito claro para mim que o motivo era porque eu era argentino. Muito claro", se queixa Meligeni, que contou então com a ajuda de um mecenas do esporte brasileiro, o banqueiro Antonio Carlos de Almeida Braga, o Braguinha, que pressionou Nuzman a mudar sua posição.

"Eu estava em Roland Garros conversando com o Pardal [Ricardo Acioly, técnico de Meligeni], e o Braguinha escuta a conversa, pede detalhes e a gente conta. O Braguinha, muito amigo do Nuzman, faz a ligação ao Nuzman'. Eu estou do lado, e é dura, pesada e ele fala: 'você não vai fazer isso, você não tem moral, você não tem motivo para fazer isso. Você vai se complicar comigo, você não vai tirar um cara porque você não quer, não é direito. Ligue para o Fernando e fale que ele está'. E desligou na cara dele."

Então ele olhou para mim e falo: 'fique tranquilo, em uma ou duas horas, o Nuzman liga para você ou para o Pardal'. Duas horas depois, ligam para o Pardal e falam que repensaram, olharam a regra. Não tiveram nem a hombridade de falar que foram pressionados."

O tenista se queixa de nunca ter ouvido um pedido de desculpas por parte do cartola, que entregou a medalha de ouro ao tenista em seu jogo de aposentadoria, no Pan de Santo Domingo-2003. Naquele momento, Nuzman já havia ouvido todo o descontentamento de Meligeni durante um evento de exibição em que atuou ao lado de Gustavo Kuerten.

"No Maracanãzinho lotado, ele vem e me dá um troféu pela participação de 1996. E eu olho para o Guga e falo: 'agora ele vai escutar tudo o que eu tenho para falar'. Ele (Guga) falou: 'você não vai fazer isso, Fino'. Eu falei: 'Opa, se vou, e se tiver um microfone aqui, o mundo vai saber o que eu vou falar'. Ele me deu o troféu, eu peguei a mão dele, fiquei segurando e falei: 'nunca mais faça uma coisa dessa com um atleta. Você não tem o direito de fazer isso, você não manda no esporte. Você tem que servir ao esporte. Eu te odeio e eu nunca vou te perdoar. Abraço'. Soltei a mão, e hoje a gente vê onde ele está. Eu acredito muito no merecimento".

Al Bello/Getty Images Al Bello/Getty Images

"Eu não fui feito para ser número um do mundo"

A Olimpíada de Atlanta foi um dos grandes momentos da carreira de Fernando Meligeni. Ele foi longe no torneio, mas caiu na semifinal e não conseguiu a medalha. Até hoje, o "Fino" ainda não sabe quem gritou "vai errar" —no tie-break do primeiro set, quando estava sacando para fechar a parcial— durante a semi contra o espanhol Sergi Bruguera, aquele mesmo que seria derrotado por Guga na final de Roland Garros no ano seguinte.

Pois foi no torneio francês que Meligeni também atingiu seu auge, a semifinal de um Grand Slam, em 1999, quando acabou derrotado pelo ucraniano Andrei Medvedev depois de começar o jogo abrindo 4 a 0 no primeiro set.

A melhor campanha da vida de Meligeni —que foi número 25 do mundo após o torneio— teve vitórias sobre estrelas como o australiano Patrick Rafter e o espanhol Alex Corretja antes de ser derrotado por Medvedev e ver escapar a chance de uma final contra Andre Agassi. Ele vivia sua melhor temporada contra tenistas top 10, tendo batido inclusive o legendário Pete Sampras semanas antes. O excesso de confiança, porém, acabou jogando contra. Hoje ele entende que perdeu para Medvedev por "soberba".

"Contra o Medvedev, pela primeira e única vez, eu não tenho vergonha nenhuma de dizer: a soberba me venceu dentro de uma quadra de tênis. E eu só consegui perceber isso revendo o jogo, quando comprei a partida seis anos atrás e parei para vê-la inteira. Percebi que eu estava com tanta confiança, e eu sempre fui um cara tacanho, mão de vaca — na quadra, fora dela eu não tenho nada disso. Eu não dava ponto de graça de jeito nenhum."

Estava 4 a 0, eu olho para mim, estou com o peito erguido, achando que eu sou o Nadal,o Federer, dando esquerda na paralela. Que esquerda na paralela? Volta para a Terra! Eu ganhei confiança e, ao invés de perceber isso, eu achei que eu ganhava de qualquer jeito dele, não que eu o tenha subestimado , mas eu achei que estava jogando mais tênis do que eu realmente jogava."

"Se eu tivesse sido um pouco mais ponderado, eu teria vencido o Medvedev ali. Eu tinha tudo para vencer e, provavelmente, perder para o Agassi na final. Ou fazer o jogo da minha vida e poder ganhar. E a partir daí, muita coisa mudou. Eu não fui feito para ser número um do mundo. Porque eu não tinha tênis para ser número um do mundo, eu não era o Guga, nunca fui. Então, não tenho vergonha nenhuma de dizer que eu me assustei, que eu me perdi no pensamento. Comecei a me exigir demais e jogar muito parecido como eu estava jogando a semifinal".

Ao perder a chance de chegar à final de Roland Garros, Meligeni deixou a quadra rumo aos vestiários e foi amparado pelas americanas Serena e Venus Williams, que jogaram na sequência a semifinal de duplas. "Ainda estava com a raquete na mão, e quando eu vejo, percebo que a única maneira de passar por elas, é se uma das duas ficasse atrás da outra para eu poder passar pela direita ou pela esquerda. E eu via que as duas não paravam e vinham. E quando estou chegando, as duas abrem os braços para me dar um abraço. Eu entrei no meio das duas, elas me abraçam e falam um monte de coisa legal. Sentiram. A coisa mais legal de tudo isso é que é muito louca essa sensação, mas eu não pertencia à semifinal."

Antonio Gauderio/Folha Imagem

Ex-número 1 pagou cerveja a Scheidt após perder no Pan-2003

A participação nos Jogos Olímpicos de Atlanta ajudou Meligeni a se tornar amigo do velejador Robert Scheidt, que foi campeão olímpico pela primeira vez no evento.

"Para mim, é o maior atleta brasileiro, se bobear, de todos os tempos. Ah, está bom, o Pelé, mas é um cara individual, o Pelé para todo mundo, sei lá quantas vezes campeão mundial, só que o Robert é difícil falar que o Robert não seja o maior atleta brasileiro de todos os tempos."

Nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo-2003, quando o tenista se despedia das quadras, Scheidt já tinha o ouro garantido e não largou na última final para acompanhar a final do tênis. Em jogo que encerrou a carreira de Meligeni com vitória em um jogo épico, salvando match points e vencendo um ex-número um do mundo, o chileno Marcelo Ríos.

Como um bad boy na época, Ríos ficou incomodado na partida enquanto Scheidt provocava com uma bandeira do Brasil e chegou a reclamar com o árbitro, sem saber de quem se tratava. Descobriu horas mais tarde e pagou até cervejas para o velejador — que naquele momento tinha apenas uma de suas cinco medalhas olímpicas.

"A gente sai dali e vai comemorar na parte náutica, onde estava o Bimba, onde estava toda a galera que tinha ganho as medalhas de vela, que não eram poucas. Ficamos lá dando risada, tomando uma cervejinha. Voltamos para a vila, quebrando a vila no meio, tomando bronca de todo mundo porque tinha gente que jogava no dia seguinte, e aí a gente decide sair para ir numa boate em Santo Domingo".

"Quando aparece o Marcelo e começa a encher o saco. Ele vê o Robert e na hora associa, o Robert tira um sarro da cara dele e fala: 'Perdeu, agora paga a cerveja'. Ele olha para mim, o Robert na minha esquerda, o Marcelo na minha direita, e o Marcelo olha para ele tipo: 'Quem é você para falar para mim?' Justo para o Marcelo. Aí eu falo: 'ele é o Robert Scheidt'. E nessa hora ele olha e pergunta se era o Robert. Eu fale que sim. 'Não acredito, é o da vela?', perguntou. Eu falei que, e ele foi embora embora e pega a cerveja para a gente, todo mundo que estava ali. Trouxe umas seis cervejas. Uma ele deu para o Robert e fica lá conversando, a gente dando risada, tirando sarro dele. Quando acaba a cerveja, o Robert vai para ele: 'e dá outra'. E ele vai buscar outra cerveja para o Robert".

Reprodução/TV Cultura

A 'descoberta' de Neymar no início da carreira televisiva

Meligeni ainda nem tinha encerrado sua carreira como tenista quando foi convidado pela MTV brasileira para apresentar um programa, o MTV Sports, durante dois anos. Em seguida, ele apresentou o programa De Fininho, na TV Cultura, antes de comentar os Jogos Pan-Americanos Rio-2007 pelo SporTV e atuar como comentarista da ESPN durante quase oito anos.

Em sua carreira televisiva, Meligeni descobriu na TV Cultura dois nomes que se tornariam conhecidos do público brasileiro alguns anos depois. Um deles foi Neymar, então, que aos 12 anos jogou futebol com o ex-tenista durante a gravação de uma matéria.

"Incrível como você vê um menino daquela idade já com a visão, como eu como vi o Nadal com 15 anos em Aix-en-Provence, eu tinha certeza que ele iria ser número um do mundo. Sabe que você olha e fala 'cara, é diferente'. E o moleque era diferente. Eu lembro quando eu falei para o Neymar que ele podia fazer o que ele quisesse comigo, que eu não ia tocar nele, que a ideia era tirar sarro da minha cara, com respeito, uma coisa normal, mas que ele podia passar por baixo da minha perna, me dar chapéu, e ele me olhou com uma cara tipo: 'nunca me falaram isso'".

O outro talento que Meligeni pôde conhecer cedo foi o de Felipe Andreoli, que atualmente é o apresentador do Globo Esporte em São Paulo, mas foi estagiário da TV Cultura durante a passagem do ex-tenista pela emissora e poderia estar trabalhado ESPN.

"É outro cara que quando eu vi trabalhar, eu tinha certeza que iria bem. Eu tentei levar ele para a ESPN, pouca gente sabe. Antes de ele fechar com a Globo, eu estava empurrando ele para a ESPN, empurrando, empurrando, empurrando, como tentei empurrar uma época o Dan Stulbach. Eu gosto, gostava e continuo gostando da ESPN como maneira de trabalhar e, lógico, você tem esses caras que são diferenciados, eu acho legal a televisão ter uns caras diferentes".

Reprodução/Instagram

Saída da ESPN e a recusa de Olimpíada pelo Sportv

A saída da ESPN, no fim de 2018, ainda causa incômodo no ex-tenista, não por ter deixado a emissora, mas pela forma com que o grupo apresentou uma proposta de redução em seu salário. Ele revela que recebeu ofertas para trabalhar em outras emissoras após a saída do grupo pertencente à Disney, mas recusou e não tem planos de voltar à TV.

"Quando você recebe por e-mail uma determinação que você vai ganhar basicamente 20% do que ganhava, e sem uma explicação... Obviamente que aquele foi um momento de 'muito obrigado pelos serviços'. Acaba o meu contrato e acaba a minha relação com a ESPN. Essa foi a única coisa que me deixou triste, porque a relação minha com toda a direção, com todo mundo era muito boa. Era chegar e falar: 'cara, desculpa, você ganha muito, a gente não quer mais fazer tênis, fica entre a gente, e estou te mandando embora'."

A sensação que fica é: 'Estou com medo de te demitir, não sei como, então vou pedir para você sair'."

Meligeni recebeu convites para participar de programas no Bandsports, além de transmissões de tênis no DAZN e no SporTV, mas não aceitou nenhuma.

"Recebi proposta para fazer uma participação no Ace na Bandsports no ano passado, e eu jogo aberto com todo mundo, mas não aceitei. Recebi proposta do SporTV para fazer o Rio Open a semifinal e a final esse ano e depois fazer Olimpíada, e não aceitei. A DAZN me fez proposta para fazer a Fed Cup desse ano porque a Carol [sobrinha] teoricamente jogaria, ou não jogaria, e eles queriam que eu fizesse, e eu não aceitei".

"Eu aparecer no Rio Open comentando dois jogos? Eu falei isso para o SporTV: para quê? Para saciar a minha vontade? Não tenho vontade (risos), saciar a vontade, não. Se você me perguntar: você acha que você volta? Não sei, eu acho que não. Sinceramente, eu acho que não. Me fez muito bem o sair, tomar porrada".

Nelson Toledo/Fotojump

"Vou fechar o Jornal Nacional quando morrer? Não precisa"

Além de não ter aceitado propostas da emissora, Meligeni tem uma outra questão em relação ao SporTV: a recusa em ceder gravações de seus jogos para um acervo pessoal que está sendo montado pelo ex-tenista há alguns anos. Ele revela que conseguiu comprar vários jogos seus em torneios de Grand Slam, mas faltaram alguns de Jogos Olímpicos e Copa Davis, que na época era transmitida pela emissora, mas hoje é exibida no Brasil pelo DAZN.

"Eu quero entender que deve existir alguma política que a pessoa que me negou foi uma pessoa que eu adoro, que é o João Pedro [Paes Leme], que era um dos chefes e ele pode ficar bravo comigo, numa boa, mas foi negado. Foi negado por toda a cúpula. Eu estou fazendo um acervo lindo, maravilhoso, infelizmente ainda de uma época muito antiga".

Meligeni se emociona ao contar que mostrou a vitória sobre Pete Sampras ao filho Gael e reclama pela recusa quando, nos torneios atuais, a organização cede a gravação dos jogos aos tenistas dentro do torneio, quando solicitado.

"Outro dia eu estava mostrando para o meu filho o jogo contra o [Pete] Sampras. Meu filho tem 10 anos, joga um pouquinho de tênis, meu filho me olhava com olhar assim 'você ganhou do cara que era o melhor jogador do mundo, papai?' Isso é impagável! E uma televisão falar 'não' para você sendo que ela não pagou nenhum direito para você, eu não recebi um centavo da Globo e do SporTV ou qualquer canal para mostrar meu jogo. Se a CBT ganhou, se a Federação de não sei onde ganhou, não sei, eu não ganhei".

"Daqui a 10, 20, 30 anos eu vou morrer e vai ter um babaca que vai fazer o que com o jogo? Vai começar a botar quando eu morrer na televisão? 'O Fernando era tão legal, né?' Aí eu vou fechar o Jornal Nacional quando eu morrer? Não, não precisa me botar no Jornal Nacional. Por isso. Então eu tenho o direito de falar o que eu quero e tenho o direito de ser convidado para ir para fazer a Olimpíada pela Globo e falar 'não'".

Elsa/Getty Elsa/Getty

"Tênis vai ser o último segmento a voltar"

Meligeni não espera ver novos torneios de tênis em 2020. Com a pandemia do novo coronavírus e os circuitos masculino e feminino suspensos até o dia 1º de agosto, o Aberto dos Estados Unidos ainda está programado, enquanto Roland Garros foi adiado para setembro, mas ele não acredita que os torneios aconteçam.

"O tênis eu acho que vai ser o último esporte a voltar. Um dos últimos segmentos a voltar. Porque eu acho que, se você botar a arte, o teatro, o cinema, na hora que isso puder mais ou menos se pensar como vai se fazer, volta para todo mundo. Está todo mundo aqui no Brasil. Um campeonato de futebol, não a Copa do Mundo ou uma Libertadores, mas o Campeonato Brasileiro vai voltar, porque as pessoas estão aqui no Brasil. O que a gente faz se um, dois, três, cinco, dez países estão com problema ainda? A gente exclui esses jogadores? A gente só exclui os torneios daquele lugar e faz uma quarentena com os caras? Como que você resolve isso?"

"Quatro meses parado, não há pré-temporada que segure. Se você vai abrir, abriu hoje e amanhã é o US Open? O cara vai jogar melhor de cinco sets depois de estar meses parado? Então a gente tem um problema muito sério, de logística e de plano, que eu não vejo, não escuto que está sendo feito. Eu não sou pessimista, sou super otimista na minha vida, mas acho que esse ano a gente não tem tênis, tênis profissional, tênis de Federer, Nadal, Carolina Meligeni ou João Menezes".

Michael Reaves/Getty Images

Homens e mulheres devem receber premiação igual

"A gente sabe muito bem qual é a briga, e é um assunto muito delicado, a briga que sempre existiu a respeito da unificação do prize money. Sempre aconteceu por causa do tempo de jogo ou por causa de quem leva mais gente para ver. Isso sempre se usou. Quando um queria brigar, brigava por aqui, o outro brigava por ali. Sou a favor da coisa igualitária, pouco me importa se são três ou cinco sets."

Reprodução/Instagram

Tênis entrará em um colapso quando Federer e Nadal saírem

"Acho que também porque a gente teve muita sorte, os meninos tiveram muita sorte de ter um Federer e Nadal que vende até guarda-chuva não sei aonde. São dois caras que vendem demais, quando eles saírem, aí a gente vai entrar num colapso, com certeza. Pode trazer o [Stefanos] Tsitsipas, pode trazer o [Alexander] Zverev, traz quem quiser, mas os dois, ninguém vai pegar."

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Morte do pai o fez compartilhar conhecimento do tênis

A pandemia do coronavírus deixou Meligeni recluso. Desde que saiu da ESPN, sua fonte de renda eram as clínicas de tênis em viagens pelo país. Como alternativa, ele criou um curso online de tênis. Essas iniciativas seguem uma guinada do ex-tenista nos últimos anos, em especial desde a morte do pai, em 2015.

Meligeni já vinha seguindo uma postura na linha de 'coach', dando dicas nas redes sociais em relação ao tênis. Ele publicou dois livros com pitacos e recém-lançou o curso online "O Fino do Tênis", em que tenta passar suas experiências vividas em quadra nos principais momentos da carreira. Aí vem a lembrança de um pedido de Osvaldo Meligeni durante um passeio em Angra dos Reis: "Não vá embora desse mundo sem devolver tudo o que o tênis te deu".

"Não tenho vergonha nenhuma de dizer o que falei para ele. Que eu paguei por toda essa expertise, eu suei por essa expertise. Eu iria doar isso? E meu pai falou: 'você acha que o Nunes, teu primeiro treinador, foi pago o suficiente por tudo o que ele fez por você? Não. Daniel Musacchio, teu treinador da transição na Argentina, você acha que ele ganhou o que ele merecia fazendo jogar o que você jogou? Não. Você acha que o Pardal, o Bebe [Enrique Perez], o Marcelo Meyer, você acha que eles receberam o que eles mereciam por te fazer 25 do mundo?' Não. Então você tem uma dívida, você tem uma dívida com as pessoas. E principalmente, com o tênis'. E aí eu aprendi".

A ideia do curso, que é pago, é ajudar os tenistas juvenis e amadores com informações em aspectos técnicos, táticos, estratégicos e mentais do esporte. E Meligeni espera usar seu curso para ajudar professores de tênis, com uma espécie de comissão.

"Dentro desse problema da Covid agora, onde me preocupa? O professor de tênis. Eu tenho dois professores em casa, minha irmã e meu cunhado são professores de tênis. Parte das pessoas pararam de pagar, porque não estão tomando aula. Como esses caras estão sobrevivendo? Não estão. Então eu botei e vou tirar 15% do meu valor e quem vender um curso, manda um WhatsApp ou um e-mail com o link que vendeu, e ganha 15% do valor".

Alexandre Loureiro/COB

Corrupção e doping preocupam Meligeni no tênis brasileiro

Meligeni acompanha o tênis brasileiro bem de perto. Os sobrinhos Carolina, de 24 anos, e Felipe, 22, disputam o circuito profissional atualmente e integraram as seleções brasileiras que disputam este ano a Fed Cup e a Copa Davis. Seu olhar sobre a modalidade no momento é de preocupação, que passa pela quantidade de jogadores, a mentalidade dos jovens e dois problemas que atingiram em cheio o tênis no país nos últimos anos: doping e corrupção.

No último ciclo olímpico, seis brasileiros de diferentes níveis foram suspensos por doping, entre eles, Thomaz Bellucci, por cinco meses, e Beatriz Haddad Maia, liberada após dez meses. Além disso, a Unidade de Integridade do Tênis (TIU, sigla em inglês) baniu por corrupção Diego Matos e João Souza, o Feijão, ex-top 100 e que foi treinado por Ricardo Acioly, ex-técnico de Meligeni.

Meligeni revela o alerta aos sobrinhos para que tenham cuidado e não manchem suas carreiras no momento em que a máfia de apostas tem cada vez mais atletas coagidos a entregar jogos. Sobre Feijão, ele prefere aguardar o julgamento do recurso apresentado pela defesa do tenista, mas não esconde a decepção, pontuando a gravidade da venda de jogos em comparação ao doping.

"A hora que você tem um doping, dois dopings, três dopings? Pega o telefone e liga para a pessoa, liga para toda a molecada. Eu pego o Felipe, eu pego a Carol, eu pego no saco do Felipe e falo: 'Abre o teu olho, moleque. Vou deserdar vocês, se vocês venderem jogo. Eu deserdo vocês, não olho na cara'. Para dar um susto também. Eu sei que é fácil. Alguém pode pensar que é só o cara ir lá vender um jogo e ganhar US$ 10 mil. Mas isso é roubo. Você tem que ir para a cadeia", diz.

"Eu gosto do Feijão. Lógico que é decepcionante. Você não pode falar, você não está dentro, você escuta um monte de coisa. Ele foi processado, ele está recorrendo. Eu não posso afirmar que o cara fez ou que o cara não fez. Mas é triste".

"Existe o doping que o cara tomou um remédio que não sabia e bobeou. Esse doping realmente existe e eu morria de medo de pegar. Agora, vender um jogo, não. Você não vendeu um jogo sem querer. O cara te ligou, você falou o que ia fazer".

Em relação a Thiago Wild, brasileiro que foi o último campeão de um ATP em Santiago, antes de o circuito parar devido ao coronavírus, Meligeni acredita no potencial do tenista, mas faz ressalvas em relação ao comportamento.

"É um moleque que joga muito bem tênis, tem um impacto de bola muito bom, só que tem que botar a cabeça no lugar toda semana. Se não, vai ser um menino que vai ter resultados esporádicos muitos bons, porque ele joga tênis muito bem. Onde ele vai chegar, vai depender dele. Se ele for casca grossa e botar a carreira na frente de tudo: família, namorada, saída, bebida, Covid, tudo, ele pode ir muito longe".

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