Personalidade chuteira preta

Douglas não esconde que bebe, afirma que é bom de bola e não liga para o apelido Pança de Cadela

Felipe Pereira Do UOL, em São Paulo
Caio Cezar/UOL

Douglas é um meia que ganhou muitos títulos e ficou conhecido na comemoração de um deles, quando tirou uma foto numa piscina cheia de latas de cerveja. Realmente a imagem não é a mais usual num tempo de jogadores programados por assessores para dar declarações sem sal. Com ele é diferente. O atleta afirma que é bom de bola e tem condições de estar na Séria A no alto de seus 37 anos.

Mas o tom usado por Douglas não é aquele de quem conta vantagem. Soa sem pretensão, apenas como o reconhecimento de uma qualidade. A personalidade também aparece ao interagir com internautas em suas redes sociais e não fugir do embate ou da brincadeira. Nem quando pesam na dele e colam no meia o apelido para lá de pejorativo de Pança de Cadela. Gostar ninguém gosta, mas Douglas lidou bem.

Por estes motivos, e pelas várias histórias de boleiro de um cara que levantou duas Libertadores, faz todo sentido juntar Douglas e cerveja. O jogador é uma baita companhia de boteco. E não precisa ser um lugar metido em que boleiro gosta de exibir seu boné de aba reta. Douglas combina com um litrão.

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"Tem um monte de nego ruim aí"

Personalidade e confiança são características comuns aos grandes jogadores. Também são qualidades que não faltam a Douglas, que manifesta ambas quando explica porque acredita que tem espaço no futebol, mesmo aos 37 anos.

"Quero continuar porque eu gosto de jogar bola. E outra, tem um monte de nego ruim aí jogando. Daqui a pouco estou bem fisicamente e consigo mostrar que ainda posso jogar. Porque o questionamento agora é esse: 'Será que ele vai voltar?'. Quero mostrar que tenho condição. Eu assisto os jogos e tem muita gente ruim jogando. É absurdo. O futebol hoje é aquela loucura, é quem corre mais, é quem tem mais força. Qualidade está acabando. Então, eu não vou parar."

Douglas espera não sofrer com lesões, como aconteceu nas últimas temporadas. Desta maneira, calcula, joga pelo menos mais dois anos. O meia gostaria de uma despedida com título. O que não abre mão é de estádio cheio e festa. As linhas gerais estão traçadas, mas aposentadoria é um assunto que o atleta prefere deixar de lado.

"Eu não gosto de pensar muito nisso, não. Às vezes, eu fico assistindo despedida de jogadores e já enche o olho d'água. Tu vai ficando mais velho, vai ficando mais emotivo."

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Futebol trata cerveja com demagogia

Existe pressão na relação dos jogadores com a bebida. Os torcedores não admitem que os atletas de seu time sequer passem perto de um copo. Mas, curiosamente, Douglas nunca escondeu que gosta de um brinde, e a torcida convive bem com isto.

Ele também não liga para a opinião alheia. Apenas se considera um cara normal fazendo algo normal. O atleta ainda acrescenta que os jogadores que pagam de santinhos contam só metade da história.

"Tem um monte de jogador que fala: 'Eu não bebo, eu não saio, eu não faço, não aconteço'. Esses aí são os piores. Eu nunca tive problema de falar, até porque eu bebo quando eu acho que eu tenho que beber, não vai me atrapalhar em nada. Isso vai acontecer sempre. Torcida não vai aceitar nunca. A torcida acha que a gente é um robô".

O meia declara que nunca foi repreendido por nenhum treinador. Sobre o comportamento dos diretores, sugere que eles não têm moral para dar bronca.

"Esses caras [diretores] fazem pior. Não está me atrapalhando dentro de campo. Se tivesse me prejudicando, certamente, os caras falariam alguma coisa."

A associação com a bebida rendeu uma oportunidade a Douglas de dar nome a uma cerveja.

Foram atrás de mim com a proposta. Nem participei muito, minha assessoria que provou. Cerveja boa. Não deu para ficar rico, mas deu uma grana boa

Douglas, sobre a cerveja feita em sua homenagem

Zoeiro das redes sociais

Em tempos de polarização, as redes sociais se tornaram um território minado para opiniões incisivas. Mas, enquanto muitas marcas tentam ganhar moral gastando um dinheirão contratando profissionais que muitas vezes escorregam, Douglas virou celebridade deixando acontecer naturalmente.

"Não fui forçando nada, não fui querendo aparecer em nada, mas as coisas aconteceram. Não sei te explicar, de verdade."

Douglas já recebeu e aceitou oferta de nude, mandou beijo, tirou sarro de rival, falou de cerveja, churrasco e outras zoeiras. Ele diz que o tom usado nas interações lembra um pouco a resenha dos jogadores. Com a diferença que não pode se expor tanto. Os torcedores compraram a história.

O que era grande ficou imenso quando os internautas começaram a falar que ele bebia, mas jogava. Douglas abraçou o personagem, e a coisa virou. Ele não se incomoda com haters, mesmo assim se tornou menos ativo porque estava lesionado e por perceber que muitos só queriam um momento de fama.

"Hoje em dia, só me escrevem para aparecer, para ver se eu respondo. Eu nem dou mais tanta atenção".

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"Pança de Cadela me irritava"

Douglas virou sinônimo de jogador raiz, daquele bebe, mas resolve. Tipo um Renato Gaúcho ou Romário num tempo em que nem todas as chuteiras são pretas. Mas a popularidade virtual também colou um apelido que incomodava bastante no começo: Pança de Cadela.

"Agora, já me acostumei. Não tem problema, não. No início, Pança de Cadela me irritava. Mas agora, tudo certo".

Os outros apelidos - Seu Boneco, Chinelinho e Cachaceiro - foram aceitos sem problemas. Mas este último foi digerido porque Douglas estava bem resolvido quando ele surgiu. No começo, incomodava ser associado a álcool.

"Eu já fiquei bravo, no início. Agora, não ligo muito, não. Até porque, bebum eu não sou. Os caras acham que eu bebo todo dia: O Douglas acorda e já abre uma cerveja. Não. Então, no início, eu ficava irritado, mas, depois, eu falei: "Quer saber? Por que eu vou ficar discutindo? Vou ficar provando para quem?"

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Pai quase não viu Douglas jogar

Douglas fez três testes no Criciúma. Criança franzina que era, foi rejeitado em todos. Já tinha desencanado de bola quando o pai insistiu para dar uma última chance ao destino. Não é que calhou de dar certo. Ele virou camisa 10 da base do time catarinense e trilhou uma carreira cheia de títulos. Glórias que o pai não viu.

"Meu pai faleceu em 2002. Ele viu minha estreia, viu alguns jogos. Poucos jogos, na verdade. Quando a gente ia viajar para Taça BH [torneio de base], ele acabou falecendo. Então, ele participou muito pouco disso, mas ele tá olhando lá de cima."

O pai do jogador infartou do nada. Mais uma vez Douglas precisou recorrer a sua personalidade para encontrar uma força de vontade incomensurável e lidar com a perda repentina.

"Meu pai faleceu no dia da viagem e aí eu fui falar com o treinador que no outro dia eu ia enterrar o meu pai e em seguida eu ia viajar. E fiz isso. Enterrei meu pai às 15h, às 17h peguei um ônibus. Eu chorei, praticamente, de Criciúma a São Paulo. Foi uma época pesada para mim, mas sempre fui um moleque cabeça boa".

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Chegar ao Corinthians questionado ajudou

A carreira de Douglas demorou um pouco a engrenar, mas aos 26 anos o atleta chegou a um posto que deixaria qualquer pai orgulhoso. Assinou com o Corinthians. Mas muitos torcedores não apoiaram a contratação. O clube havia caído para a Série B e vivia um momento complicado em 2008. O meia transformou a desconfiança que pesava sobre ele em incentivo.

"Isso mexe com qualquer um, eu acho. Comigo não é diferente. Eu nunca tinha jogando em time grande, o Corinthians tinha que voltar para a Série A. Eu ouvi muita coisa nessa época. Falavam: 'O Douglas não vai se dar bem. Veio de time pequeno, só jogou em time pequeno até hoje'. Você quer mostrar que tem condição, você tem qualidade. Eu não vou sair dando pontapé, dando carrinho. Dentro da tua característica, tu quer mostrar."

O time passeou na Segunda Divisão e subiu com folga. A conhecida pressão no Corinthians não deu as caras, e a torcida abraçou a equipe. Douglas foi peça tão importante na campanha que terminou a competição como o melhor jogador.

Folha Imagem Folha Imagem

Jogando com Ronaldo

O que estava bom melhorou no ano seguinte, quando o Corinthians anunciou Ronaldo. O atacante, que fora alimentado por Zidane, precisaria dos passes de Douglas para ficar em condições de finalizar. O meia admite que a responsabilidade aumentou, mas uma conversa com Ronaldo aliviou a pressão.

"Ele me deixou muito tranquilo. Ele falou assim: 'Quando eu tiver do lado do zagueiro e tu tiver com a bola no pé, se eu balançar para fora e vir pra dentro, eu quero a bola no pé. Agora, se eu for pro lado do zagueiro e voltar, eu quero a bola na frente. Não interessa como, só bota na frente. Se errou, beleza. Na próxima, tenta de novo'. Fiquei mais tranquilo".

Douglas conta que o papo tirou a obrigação de precisar acertar a toda hora. Ele diz que o tempo trouxe entrosamento e, daí em diante, a parceria decolou dentro e fora dos campos. Andrés Sanchez, presidente do Corinthians também naquela época, fala que existem santos e outros não tão beatos nos times. O meia e Ronaldo nunca estiveram no grupo da "igrejinha", mas com ele não tem delação de como eram as baladas.

"A gente não pode falar isso. São informações confidenciais. Mas era bom. O Ronaldo era de boa, não era aquela loucurada que todo mundo imagina. Mas a gente aproveitava bastante".

Imprensa irritava Ronaldo

Com o atacante no time o glamour aumentou, o interesse do torcedor cresceu e até o bicho ficou maior. Isto que falavam que Ronaldo estava gordo, adjetivo que Douglas não concorda. Mesmo assim, não resistia a tirar sarro chamando o companheiro pelo apelido. O atacante nem ligava, conta Douglas. Reação diferente de quando era a imprensa que pegava no pé.

"O Ronaldo é de boa, nunca ligou para isso. Ele ficava mais puto quando a imprensa chamava, mas nós, do elenco, ele sempre foi muito tranquilo".

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Eu já sabia

O Corinthians nunca havia decidido uma Libertadores. Mas eis que o clube montou um time cascudo em 2012, e Douglas e os companheiros chegaram à final. Do outro lado, o poderoso Boca Juniors. Nem tabu, torcida rival ou histórico do adversário preocupavam o grupo.

"A gente nunca ligou para isso. Óbvio que tem a responsabilidade. A gente sabia que era difícil jogar lá [Bombonera]. A maioria que foi para lá nunca tinha pisado na Bombonera. Inclusive eu nunca tinha jogado lá. Tu vê aquela galera gritando, uma loucura."

Mesmo perdendo por 1 a 0, Douglas achava que dava para virar no Pacaembu. Quando o Corinthians empatou a partida de ida, os jogadores já começaram a sentir a mão na taça.

"Deu tudo certo, cara. Falei: 'Resultado bom aqui na Argentina. No Brasil agora, a gente se mata'. A gente estava confiante pra caramba. A gente conseguiu um resultado na Argentina que ninguém esperava. E no Pacaembu, a gente estava atropelando todo mundo. Aí, o Sheik, na noite abençoada dele, decidiu. O time jogou muito, mas o Sheik foi decisivo."

Flávio Florido/UOL Flávio Florido/UOL

Medo de cair nas semifinais virou Mundial

A Libertadores era um sonho e deu a chance de ser o melhor do mundo. Mas a faixa de campeão Mundial estava em segundo plano quando o time deixou o Brasil. O grande medo do elenco era cair nas semifinais, como ocorreu com o Inter em 2010. Douglas lembra bem o que disse aos companheiros antes daquela partida.

"Falei: 'Vamos passar, depois a gente vê o que faz'. Foi sofrido o primeiro jogo. Era um time do Marrocos, mas era um time que tinha qualidade, deu trabalho, mas conseguimos a vitória."

Na final, o time europeu sempre é encarado como favorito. Douglas acredita que os jogadores do Chelsea achavam que iam passar o carro, mas desceram do salto quando se viram em dificuldades.

Quando a gente fez o gol, os caras ficaram se matando, dando carrinho, tentando de cabeça. Foi bom, uma experiência única

Douglas, sobre a final contra o Chelsea

O poder da grana

Douglas viveu muitas alegrias no Corinthians e Grêmio, clube pelo qual também ergueu uma Libertadores, mas houve um grande erro de percurso. Em 2009, ele deixou de jogar ao lado de Ronaldo para atuar numa equipe de pernas de pau em Dubai.

"Obviamente, tu pensa no dinheiro. Era um salário maneiro. Falei: 'Vou ganhar uma grana'. Estava com 27 anos. Quando cheguei lá, a gente ia jogar e o meu time, tá louco! Tinha bombeiro, tinha policial, tinha professor. Os caras recebiam muito mais no trabalho deles do que no clube. Então, quando tinha alguma coisa importante no trabalho, os caras não iam jogar."

Além de falta de compromisso, os companheiros não tinha a personalidade de Douglas, tão necessária em jogos grandes. Para fugir da raia, eram capazes de aprontar bizarrices.

"O meu capitão era policial e um dia brigou no trabalho para ficar preso no final de semana. A gente ia jogar um clássico. Ele ficou lá, de boa, tranquilo. Brigou de propósito só para não jogar o clássico."

Um dia, o meia brasileiro perdeu a paciência, chutou um balde e tudo mais que viu pela frente no vestiário e simplesmente não se apresentou ao clube nos dias seguintes. Abriu negociações com clubes brasileiros e em 2010 fechou com o Grêmio, onde voltou a ser feliz e a se sentir no futebol profissional.

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Filha quer ser Marta, mas Douglas acha difícil

Hoje, Douglas está no Avaí e joga para provar que ainda tem condições de atuar na Série A. Nas horas vagas, tenta ser um pai exemplar. Mas o jogador admite que nem sempre é duro como deveria.

"Eu tento ser maneirão. Como fico um tempo sem ver minhas filhas, quando vejo, eu vou brigar? Não. A gente fica zoando, fica brincando. As meninas são aceleradas. A mãe delas briga, mas vou ficar brigando toda hora? Não vou deixar extrapolar também, óbvio, mas eu tento ser um pai legal."

Mesmo sendo tão amoroso, Douglas não se deixa enganar. A filha mais velha decidiu ser jogadora e o pai não acredita que ela será a próxima Marta. Apesar de evoluir, ele não esconde que há muito a melhorar.

"Quando começou, era horrível, não tinha muita noção das coisas, mas agora tá indo bem. Já tem noção, já consegue dar um passe, já chuta no gol. Eu tento ajudar para bater na bola, aprender de chapa, essas coisas. Mas tem muito o que aprender ainda."

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