O carioca mais paulista

Multicampeão no Corinthians, Marcelinho pede título de carioca paulistano e crava: "fui o melhor" em faltas

Diego Salgado e Vanderlei Lima Do UOL, em São Paulo
Marcelo Justo/UOL

Marcelinho se ajeita na cadeira enquanto escuta a pergunta com atenção. Sem rodeios, como se estivesse prestes a chutar uma bola no ângulo e decidir um jogo, assim como fizera tantas vezes na carreira, coloca-se no topo de uma lista de grandes batedores de falta, incluindo Zico, seu mestre nesse fundamento.

O argumento do ex-meia é simples. Para ele, não havia distância. A história prova que os goleiros corriam mesmo perigo qualquer que fosse o lugar do chute venenoso. E foi por meio dele que Marcelinho Carioca entrou para a galeria dos maiores jogadores do Corinthians.

Dono de dez títulos pelo clube, agora ele sonha com outro: o de cidadão paulistano. Em dezembro, o carioca mais paulista do Brasil completará 27 anos na maior cidade do país, mesmo com o pai e a praia no Rio.

Em São Paulo, obteve a maior conquista fora dos gramados: o diploma de jornalista. Com ele "debaixo do braço", Marcelinho concedeu entrevista ao UOL Esporte e manteve o espírito decisivo nas respostas ao falar do ex-desafeto Vanderlei Luxemburgo, do Flamengo de Jorge Jesus e até do pênalti perdido contra o Palmeiras na Libertadores de 2000.

Assista à entrevista exclusiva com Marcelinho Carioca no canal do UOL Esporte no YouTube.

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Paixão pela cidade

Se fosse para escolher, Marcelinho não desembarcaria em São Paulo numa tarde quente de dezembro de 1993. A vontade do jovem de 21 anos era continuar no Rio de Janeiro, no Flamengo, clube que o revelou para o futebol. O sonho de criança era brilhar no Maracanã e, não, no Morumbi ou no Pacaembu.

Mas a visão da rua Parque São Jorge tomada por torcedores, com a sirene de grande contratação em pleno funcionamento, tornou-se símbolo da virada. Marcelinho se apaixonou pelo Corinthians, onde jogou por sete temporadas e meia.

O amor pelo clube e as andanças pelo interior do Estado fizeram Marcelinho criar laços com a capital paulista. Ao ponto de ir ao Rio somente nas férias para visitar o pai, irredutível na tentativa do ex-jogador de deixá-lo mais perto. "Tento trazer o meu pai para cá, mas ele não gosta muito. Então, vou pro Rio a trabalho e, às vezes, nas férias do final do ano, ficar um pouco com o meu pai. Mas é o carioca mais paulista que tem, cara."

Em meados de 2001, Marcelinho trocou o Corinthians pelo Santos. Depois, atuou no futebol japonês antes de voltar ao Rio de Janeiro para defender o Vasco. Nem assim a cidade natal o seduziu. São Paulo continuou sendo seu lar, como se aquela tarde de dezembro de 1993 nunca tivesse chegado ao fim.

Sabe quando uma perna sua quer voltar pra São Paulo? Porque eu conheci o interior de São Paulo. Eu sou apaixonado pelo interior de São Paulo. A cidade de São Paulo movimenta violentamente, as coisas acontecem em São Paulo

Marcelinho Carioca, sobre sua cidade do coração

Eu lembro que eu não queria sair do Flamengo. Não queria. Falar que eu queria vir pra São Paulo, pro Corinthians, eu vou tá mentindo. Não queria. Não conhecia São Paulo. Eu queria jogar no Maracanã, no Flamengo.

Marcelinho Carioca, sobre o sonho no início da carreira

Corinthians na "segunda pele"

Campeão nove vezes pelo Corinthians, Marcelinho repetiu à exaustão a expressão "segunda pele" em quase todas a comemorações de título. No ano retrasado, marcou o pulso com uma tatuagem do antigo escudo do clube paulista.

Segundo ele, a paixão pelo Corinthians começou pela sirene do Parque São Jorge e se consolidou logo no primeiro jogo oficial, contra a Portuguesa, no Pacaembu, em janeiro de 1994. Na ocasião, Marcelinho marcou o primeiro dos seus 206 gols pelo clube.

"Aí você faz o gol de falta e olha o anel do Pacaembu. Vê a galera gritando o seu nome. Aí, amigo, pulei no alambrado. Na semana, foi um rolo compressor. Aí, bateu. Bateu aqui", explicou Marcelinho, que não se esquece das equipes que serviram de ponte rumo ao Corinthians.

Primeiro, o ex-meia faz um agradecimento ao clube da infância, o Madureira. Depois, ao Flamengo, casa de Marcelinho por sete anos. Na Gávea, o futuro craque do Corinthians, de acordo com ele mesmo, aprendeu todos os fundamentos que o levaram a ter destaque. "Estive com Zico, Bebeto, Jorginho, Aldair, saudoso Zé Carlos, Leandro. Só maravilha."

Domício Pinheiro/AE Domício Pinheiro/AE

Flamengo 1991 x Flamengo 2019

Marcelinho fez parte de uma geração que fez história no Flamengo no começo dos anos 1990. O time rubro-negro conquistou o Campeonato Carioca em 1991 e, no ano seguinte, ergueu a taça do Brasileirão, na consagração do time comandado por Júnior.

O elenco do Flamengo tinha nomes como Djalminha, Marquinhos, Júnior Baiano, Paulo Nunes, Fabinho e Marcelinho, todos crias da base. "Aquele time ganhava os jogos com inteligência, com jogadas sensacionais", relembrou o ex-meio-campista.

Agora espectador dos jogos do Flamengo de Jorge Jesus, Marcelinho se diz um apreciador do estilo da equipe. Para ele, um hipotético embate entre os times de 1991 e 2019 terminaria empatado. "Agora, ganha o de 2019 porque tá todo mundo véinho, mas se tivesse todo mundo com a mesma idade, rapaz... Tem qualidade nessa parada. Deixa o empate ai. "

Para Marcelinho, a grande virada do Flamengo atual aconteceu por meio de um planejamento bem-sucedido, com estabilidade financeira e contratações pontuais e certeiras. Jorge Jesus, segundo ele, também é fundamental para o sucesso do líder do Brasileirão e finalista da Libertadores.

"O Flamengo está jogando por música, com inteligência, de uma forma brilhante. Então, eu vejo esse Flamengo, hoje, no rol dos melhores", afirmou Marcelinho. Para ele, o time de Zico, de 1981, é incomparável.

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Não ao Flamengo e ao Palmeiras

Quando deixou a Gávea no fim de 1993, Marcelinho fez uma promessa ao presidente Márcio Braga. De malas prontas rumo ao Parque São Jorge, ele afirmou que nunca mais vestiria a camisa do Flamengo, mesmo sendo grato ao clube por servir como vitrine no fim dos anos 1980.

Menos de quatro anos depois, Marcelinho cumpriu a palavra. No meio de 1997, o ex-meia deixou o Corinthians para acertar com o Valencia, da Espanha. A passagem durou pouco, apenas seis meses. Em meio à iminente saída, dois times tentaram contratá-lo: Flamengo e Palmeiras - o próprio atleta tratou de vetar a possibilidade.

"Quando foram me buscar em 1997, eu falei [para o Flamengo]: 'O que eu falei lá atrás tá valendo agora'. O presidente Márcio Braga: 'Não, vamos, é a sua casa'. Eu falei: 'Não, a minha casa é o Corinthians'", relembrou.

No começo de 1998, Marcelinho voltou para casa, após uma ação bastante peculiar da Federação Paulista de Futebol. A entidade comandada por Eduardo José Farah comprou o passe do jogador e decidiu entregá-lo para um dos quatro times grandes de São Paulo. A torcida que fizesse mais ligações ficaria com o jogador. Os corintianos venceram com 62%, e a Federação amargou um prejuízo.

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Elogios a Luxemburgo

Desafetos há tempos, Marcelinho e Vanderlei Luxemburgo já protagonizaram discussões públicas que resultaram até em processo - no começo deste ano, o técnico foi condenado a pagar R$ 351 mil por dano moral.

Apesar do imbróglio, Marcelinho fez elogios recorrentes ao treinador do Vasco, apontado por ele como um dos destaques do Brasileirão. O ex-meia ainda admite que está feliz por ele ter retomado a carreira.

"Problemas tivemos e já foi lá atrás. Estou feliz pra caramba com que ele tá fazendo com o Vasco e é até ótimo para a carreira dele", disse Marcelinho, que elege Luxemburgo e Telê Santana como os melhores treinadores com quem trabalhou.

Marcelinho relembrou o último encontro dos dois, nos bastidores da Dança dos Famosos, do Faustão, em 2010. Naquela ocasião, de acordo com ele, houve uma tentativa frustrada de reaproximação. O processo movido por Marcelinho, porém, atrapalhou os planos.

"Se ele quiser me cumprimentar, beleza. Se ele não quiser, o importante é que eu estou aqui leve, livre e solto. E não falo bem dele porque eu tenho que fazer média, até mesmo porque eu não jogo mais bola, não trabalho mais com ele, não temos negócios juntos. Eu falo porque eu vejo muita virtude nele. É um treinador excepcional. Defeitos e falhas todo mundo tem."

Ele [Luxemburgo] me prejudicou? Violentamente. Ele tirou a minha artilharia do Campeonato Brasileiro de 98. O Viola fez 21 gols, eu cheguei com 19, só que eu fiquei cinco jogos fora, nesses cinco jogos tiveram três pênaltis.

Marcelinho Carioca, sobre a briga com Luxa

Olhando o lado bom dele, em 1991, tendo o Júnior em campo, o cara falar: "Quem vai bater as faltas é o Marcelo". Então, ele não é de fazer média. Ele me levou pra seleção em 1998. Fui feliz pra caraca sendo campeão com ele.

Marcelinho Carioca, pondera o lado positivo da relação

Tivemos problema na Justiça, que eu ganhei e tudo, mas a questão financeira é secundária. Eu acho que a vida te ensina. O que eu quero carregar é respeito, educação, os princípios de vida, a base familiar e as coisas boas que eu convivi com ele.

Marcelinho Carioca, e os sentimentos que quer alimentar

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Sonho era ver o gol no Fantástico

Especialista na bola parada, com dezenas de gols de falta e até alguns olímpicos, Marcelinho moldou o seu talento com o tempo. Antes mesmo de virar jogador profissional, passou a se dedicar de forma constante ao fundamento.

Aos 13 anos, com o radinho de pilha à mão, Marcelinho escutava gols dos maiores cobradores de falta do futebol brasileiro, como Zico, Éder Aleixo e Roberto Dinamite. Anos mais tarde, ainda no Madureira, passou a colocar coletes nos ângulos e treinar chutes de longe.

No Flamengo, viu Zico, seu maior ídolo, fazer a mesma coisa ao seu lado. O maior sonho de Marcelinho à época era assistir a um gol seu na televisão, com a narração de Léo Batista. "Eu queria o meu gol no Fantástico. Eu falei enquanto aquele cabelinho branco, o Léo Batista, não falar o meu nome no Fantástico, enquanto eu não vir o meu nome no Globo Esporte... Então, eu ficaria ali incessantemente", frisou.

O primeiro gol como profissional saiu em dezembro de 1989, pouco antes de Marcelinho completar 18 anos. Não foi de falta, mas foi no Maracanã e com direito à locução de Léo Batista no fim da noite de domingo. "Eu queria que o jogo acabasse logo porque eu queria ver na televisão o meu gol."

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"Sou o número 1"

O aprendiz superou o mestre na arte de bater faltas. Pelo menos essa é opinião de Marcelinho. Ele se coloca em primeiro lugar em uma lista com nomes de peso. O ex-jogador listou seu ranking de maiores batedores em um papel durante a entrevista ao UOL Esporte. Apresentado com oito nomes, eles escolheu seus favoritos.

Marcelinho, então, passou a falar em voz alta os cinco primeiros colocados. Em 5º, ele colocou Juninho Pernambucano. Na sequência, elegeu Marcos Assunção, Neto e Zico. O topo do ranking de Marcelinho? Ele mesmo.

A explicação está no fato de ele conseguir levar perigo aos goleiros de qualquer distância, não apenas na falta frontal, uma especialidade de Zico. "Próximo da área ele [Zico] é o número 1. Eu aprendi com um grande mestre, um grande professor que é o Arthur Antunes Coimbra", ressaltou.

Ele ainda fez elogios a Rogério Ceni, apesar de não ter colocado o ex-goleiro do São Paulo entre os cinco melhores. Para Marcelinho, o atual técnico do Fortaleza era especialista no chute de média distância.

Evelson de Freitas/Folhapress Evelson de Freitas/Folhapress

VAR o salvaria em 2000

As duas primeiras passagens pelo Corinthians foram recheadas de títulos, mas também ficou marcada por um pênalti desperdiçado em plena semifinal da Libertadores. E pior: contra o arquirrival Palmeiras.

Depois de 19 anos, Marcelinho trata o tema com leveza e até brinca com a defesa do goleiro Marcos no último pênalti da decisão que levou o Palmeiras à final contra o Boca Juniors.

"Se tivesse o VAR em 2000, eu estava bonito com o Marcão, ´porque o Marcão saiu antes. Eu brinco até isso com ele. Mas não tem nada de VAR, não. Ele foi lá, defendeu o pênalti. Foi brilhante. Qual goleiro que não sai antes?"

O árbitro de vídeo, inclusive, é visto por Marcelinho como "uma vergonha para o futebol brasileiro". O ex-jogador entende que o VAR tem tirado a autonomia dos árbitros de campo.

"O árbitro tem que ter autonomia, senão o que valeu a pena ele fazer o curso, ele se especializar? Aí, ele vai ter que deixar uma tecnologia decidir por ele. Agora, se o caráter dele tá em dúvida, se ele vai ser manuseado e marionete dos outros, vai no VAR, porque o grande personagem do futebol tá sendo o VAR."

Marcelinho vai além. Ele ainda contestou o custo do VAR por partida e frisou que pode haver interesse de terceiros por trás da tecnologia. "Não precisa disso. Agora, a quem interessa ter o VAR? Quanto custa o VAR por partida? Por ano? Alguma coisa por trás tem nisso daí", disse.

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Corintiano x jornalista

Jornalista formado desde o fim de 2017, Marcelinho frisa que é preciso separar a paixão e o trabalho. E, nesse cenário, a relação com os palmeirenses ajuda o ex-atleta.

Alvo de gozações de torcedores alviverdes por causa do pênalti perdido em 2000, Marcelinho incorpora a brincadeira e até responde. "Em tudo que é lugar eu encontro os palmeirenses, Vejo o palmeirense me olhando. Aí, o palmeirense está ciscando, ciscando. Eu sei que ele vai falar do pênalti do Marcão. Aí eu já chego ali pra ele: "Ô meu, eu já te dei aquele presente de 2000, então, não vem brigar", disse.

Marcelinho crê que isso faz parte da rivalidade e lembra que a resposta dos corintianos é dizer que o Palmeiras não tem Mundial. O tema é um exemplo de como o corintiano roxo busca separar as coisas.

Ele ressalta que, como torcedor, não ficaria feliz com um eventual título mundial do clube alviverde. Mas, como jornalista, iria relatar a conquista de forma imparcial.

"Eu, como corintiano, lógico que eu não quero, é óbvio que eu não quero. Agora, jornalisticamente, que ele possa construir esse caminho, que ele possa conquistar porque a oportunidade e a sorte ocorrem a todos. Ainda bem que eu tenho essas duas vertentes", disse.

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