Via de mão única

Brasil encontra Argentina na final da Libertadores, mas brasileiros convivem com mercado fechado no país

Gabriel Carneiro Do UOL, em São Paulo
Denis Doyle/Getty Images

Apenas um jogador brasileiro atua na elite do Campeonato Argentino: é o zagueiro Tiago Pagnussat, de 29 anos. Ex-Atlético-MG e Bahia no Brasil, ele foi contratado pelo Lanús em janeiro. Não é titular, mas está sempre relacionado para as partidas do atual vice-líder.

É uma trajetória de carreira incomum. Ao contrário da presença de argentinos no futebol brasileiro, que é quase uma regra. O intercâmbio tem sido de mão única, explicado por fatores econômicos, culturais, históricos, esportivos e linguísticos entre os dois países fronteiriços, que vão opor suas escolas de futebol na final da Copa Libertadores, sábado (23), no confronto entre Flamengo e River Plate.

Desde 2005, quando o Grupo Globo e a CBF criaram o prêmio "Craque do Brasileirão", Tévez e Conca já colocaram o troféu na estante. Guiñazú, Montillo e Cuesta também já estiveram em seleções ideais. A "Bola de Ouro", da Revista Placar, premiou os mesmos dois e também o goleiro Cejas, em 1973. Andrada, Doval, Lucas Pratto e Sorín levaram Bolas de Prata. Hoje são 15 argentinos na Série A do Brasileirão.

Argentinos no Brasil

  • 4 no Athletico

    Lucho González, Tomás Andrade, Braian Romero e Marco Rubén compõem a "colônia". Atuaram em 14, 11, 13 e 20 jogos do Brasileirão, respectivamente, com 6 gols.

    Imagem: Gabriel Machado/Agif
  • 3 no Internacional

    Victor Cuesta, D'Alessandro e Martín Sarrafiore são os argentinos do Colorado. São 26, 19 e 17 partidas no Brasileiro deste ano. O último soma três gols marcados.

    Imagem: Ricardo Duarte/Internacional
  • Kannemann

    Zagueiro foi contratado pelo Grêmio em julho de 2016. É campeão de seis torneios pelo clube, como Copa do Brasil e Libertadores. Está na seleção de seu país.

    Imagem: Lucas Uebel
  • Boselli

    Anunciado pelo Corinthians no começo deste ano, soma 44 partidas até o momento, com dez gols marcados. É o goleador corintiano na atual edição do Brasileiro.

    Imagem: Daniel Augusto Jr./Agência Corinthians
  • Vázquez

    Destaque no futebol colombiano chegou ao Fortaleza há quatro meses, mas jogou apenas seis vezes no Campeonato Brasileiro. Foram três como titular.

    Imagem: Reprodução/Facebook
  • Di Santo

    Ex-Chelsea e Werder Bremen, atacante reforçou o Atlético-MG em agosto e ganhou a vaga no ataque. Até agora jogou 16 vezes no Brasileirão e fez três gols.

    Imagem: Divulgação/Atlético-MG
  • Joel Carli

    Zagueiro foi contratado pelo Botafogo no fim de 2015 e hoje é capitão. Aos 33 anos, mantém regularidade ano a ano e atuou em 23 partidas do Brasileirão.

    Imagem: Botafogo FR/Divulgação
  • Ariel Cabral

    Volante de 32 anos era destaque no Vélez antes de chegar ao Cruzeiro, em agosto de 2015. Tem 174 jogos pelo clube e quatro títulos. Soma 14 jogos no Brasileiro.

    Imagem: REUTERS/Ueslei Marcelino
  • Jonathan Gómez

    Emprestado pelo São Paulo, chegou ao CSA em maio e hoje é titular. Tem 23 partidas disputadas no Campeonato Brasileiro e cinco gols marcados até agora.

    Imagem: Divulgação/CSA
  • Diego Torres

    Meia está na Chapecoense desde agosto do ano passado e começou bem 2019, mas perdeu espaço. Entrou em campo 11 vezes no Brasileiro e fez um gol.

    Imagem: Márcio Cunha/ACF
Martín Zabala/Xinhua Martín Zabala/Xinhua

R$ 90 mil por mês fazem diferença

O UOL Esporte ouviu seis empresários brasileiros sobre as razões do mercado fechado para jogadores do país na Argentina. O primeiro motivo apontado por todos é financeiro. Um deles foi além no discurso: "O jogador brasileiro tem condição de jogar lá tranquilamente. Só que no Brasil os times de elite pagam muito bem, e na Argentina são poucos os clubes que podem pagar um salário de R$ 200 mil."

As maiores folhas salariais do futebol brasileiro são de Flamengo e Palmeiras e batem a marca de R$ 15 milhões, somando CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e direitos de imagem (que podem corresponder a até 40% da remuneração total). A média de pagamento mensal dos clubes da Série A é próxima de R$ 4 milhões.

Segundo um estudo da Sporting Intelligence referente a dados de 2018, a remuneração média por jogador é de R$ 207 mil por mês no Brasileirão. Já na Argentina o valor é bem menor, com R$ 117 mil mensais, mas só River Plate e Boca Juniors despontam na lista. O Lanús de Tiago Pagnussat, por exemplo, paga menos de R$ 2 milhões mensais ao elenco inteiro. É o equivalente à folha salarial do Fortaleza no Campeonato Brasileiro.

Esta questão financeira torna o mercado argentino pouco atrativo para os jogadores brasileiros, conta outro agente: "O jogador de primeiro nível tem mercado nos grandes centros da Europa e na China. Então vêm mercados médios da Europa, Japão e mundo árabe. Ainda tem a Coreia do Sul, todos esses pagam melhor". Há outro elemento: o mercado argentino não busca jogadores "tops" do Brasil e sabe que só pode pagar pelos médios. Que não interessam, porque o país também é muito formador.

Acho que não tem muito interesse de vir para cá. Há preconceito do brasileiro em vir para a Argentina. Ele olha para Ásia e o mercado europeu. Mas o financeiro não é o principal. O fato de ter um futebol com mais intensidade faz com que os brasileiros que venham para cá sofram mais. Mas aqui é um país que também produz muitos jogadores, não tem necessidade.

Tiago Pagnussat

Tiago Pagnussat, Zagueiro do Lanús

Felipe Melo e Felipão no Boca? Sim, isso pode acontecer

Daniel Angelici deixará a presidência do Boca Juniors no próximo dia 8. O clima é de fim de feira depois de perder a Libertadores de 2018 para o River Plate e ser eliminado da edição deste ano novamente pelo grande rival. O técnico Gustavo Alfaro é outro que já disse que vai embora no fim do ano. Grandes mudanças são esperadas, pois correntes políticas variadas disputam o comando. Foi dessa sede de novidades que nasceu a especulação sobre Luiz Felipe Scolari e Felipe Melo.

Leandro Contento, colunista do jornal argentino "Olé", foi o primeiro que levantou tal possibilidade, em outubro. Ele disse que Felipão era uma alternativa desejada de outros tempos e que agora poderia ser concretizada. Renato Gaúcho, segundo o jornalista, "não fica atrás" na lista de desejos por um técnico estrangeiro.

Mais recentemente, um dos pré-candidatos à presidência do Boca Juniors, Jose Beraldi, disse que se for eleito tentará a contratação de Felipe Melo: "Se eu quero ganhar a Libertadores o contrato". O volante do Palmeiras é um jogador muito elogiado pelos torcedores argentinos nas redes sociais, e a "sugestão" está sendo levada a sério por causa do estilo aguerrido em campo do ex-jogador da seleção brasileira.

O Boca Juniors teve receita de cerca de R$ 265 milhões em 2019. Seria o nono colocado deste quesito financeiro no Brasil, o que pode dificultar na eventual confirmação de interesse em Felipe Melo, pois o Palmeiras registrou R$ 654 milhões e tem contrato com o jogador até o fim de 2021. Vai cobrar caro.

Já Felipão está livre, mas cotado para voltar ao futebol chinês na próxima temporada.

Schirner/ullstein bild via Getty Images Schirner/ullstein bild via Getty Images

Boca teve campeão mundial pelo Brasil

Primeiro treinador campeão do mundo pela seleção brasileira em 1958, Vicente Feola foi contratado pelo Boca Juniors na véspera do Natal de 1960. O presidente do clube argentino da época afirmou que gostaria de voltar a ser campeão e também "oferecer bons espetáculos".

O Boca de Feola chegou a fazer bons jogos, como uma goleada por 4 a 0 sobre o Flamengo que rendeu elogios do jornal "A Noite": " (...) uma grande exibição, jogando à brasileira, de primeira e em grande velocidade". Também houve episódios negativos, como os 5 a 1 sofridos diante do São Paulo. Os argentinos buscaram nomes importantes do futebol brasileiro na época nessa tentativa de reconstrução. Mas a magia durou pouco.

O contrato de Vicente Feola tinha cláusula de rescisão em caso de convite da seleção brasileira. Ele tinha ouvido que a torcida do Boca exigia saída de treinadores por qualquer coisa e se protegeu. Em setembro de 1961, pediu demissão após uma sequência de derrotas com elenco caro que deixou o Boca em sexto lugar. No mês seguinte, o treinador aceitou convite para ser supervisor da seleção na Copa do Mundo do Chile. Viu o bi.

Casos de sucesso

AP Photo/Eduardo Di Baia AP Photo/Eduardo Di Baia

Silas

Meia revelado na geração dos "Menudos" do São Paulo passou pelo San Lorenzo entre 1995 e 1997. Conquistou um título do Clausura (que o time não conquistava há 22 anos) como camisa 10, foi capa de revistas na Argentina e ainda é lembrado pelos fãs. Hoje técnico, considera a Argentina sua melhor experiência fora do Brasil por ter se tornado ídolo.

AFP PHOTO/Yoshikazu TSUNO AFP PHOTO/Yoshikazu TSUNO

Iarley

Meses após fazer o gol da vitória do Paysandu sobre o Boca Juniors na Libertadores de 2003, na Bombonera, o meia-atacante foi contratado pelo clube argentino. Com a 10 de Maradona, ele fez um gol em uma vitória por 2 a 0 sobre o River Plate fora de casa e ainda foi campeão argentino e mundial contra o Milan. Tornou-se ídolo, chamado pela torcida de "irmão do Pelé".

Vitor Silva/Botafogo Vitor Silva/Botafogo

Jean foi "xodó de Verón"

O volante Jean, que hoje defende o Botafogo emprestado pelo Corinthians, tem uma passagem de um ano e meio pelo Estudiantes, da Argentina - é um dos raros casos na história recente. Ele foi descoberto ainda adolescente, em Brasília, por um empresário uruguaio que conseguiu um período de testes no time de La Plata.

"Tínhamos um parceiro de negócios que conhecia um argentino e falou que o Estudiantes gostaria de ter um brasileiro novo para apostar. Eu sempre vi que o Jean era um jogador de muita força, marcação agressiva e virilidade, então sempre quis levá-lo para Uruguai ou Argentina. Surgiu a Argentina primeiro. Conversamos e levamos quando ele tinha de 17 para 18 anos", explica o empresário Juan Martinez, que até hoje cuida da carreira do volante.

Jean foi submetido a um mês de testes na base do Estudiantes. "Aqui no Brasil você leva um jogador e ele é avaliado em dois ou três dias. Devem ter olho mágico no Brasil, é impressionante", ironiza o uruguaio. O brasileiro acabou aprovado nas avaliações e assinou contrato. Em seis meses foi promovido para o time principal, mas não conseguiu espaço e jogou apenas amistosos. Em 2013, foi transferido para o Paraná, quando conseguiu sequência de jogos e o grande negócio da vida ao ser comprado pelo Corinthians.

"Ele era o xodó do Verón, treinavam juntos diariamente. Teve uma época que o Racing queria por empréstimo, mas o Verón não liberou. No ano retrasado fizeram contato comigo, mas ele preferiu o Vasco. Até hoje converso com o pessoal do Estudiantes e eles só elogiam o comportamento do Jean, as portas estão abertas."

Insucessos no Boca

Acervo pessoal Acervo pessoal

Charles Baiano

Campeão brasileiro pelo Bahia em 1988, encantou Maradona e foi contratado pelo Boca Juniors quatro anos depois. "Nem me adaptei, tive contusões e problemas. Depois de seis meses decidi retornar porque não estava feliz. O jogo é mais de contato físico, eu sempre fui técnico."

Acervo pessoal Acervo pessoal

Jorginho Paulista

Lateral-esquerdo campeão da Copa Mercosul e da Copa João Havelange pelo Vasco foi emprestado pela Udinese ao Boca em julho de 2001. Não cumpriu nem o ano de contrato. Acabou devolvido antes por causa da desvalorização do peso, que fez seu salário pago em dólar quadruplicar.

REUTERS/Enrique Marcarian REUTERS/Enrique Marcarian

Baiano

Revelado pelo Santos e com passagem pelo Palmeiras, o lateral foi contratado pelo Boca em 2005. Além de não ter brilhado em campo, relatou casos de racismo sofridos por jogadores adversários. Foram só oito meses, com os apelidos de "Café" e "Bombom" recebidos.

Divulgação/Site oficial do Boca Juniors Divulgação/Site oficial do Boca Juniors

Luiz Alberto

Zagueiro ex-Fla, Santos e Flu foi contratado pelo Boca em fevereiro de 2010 e disputou sete partidas, sempre sob críticas. Rescindiu em abril. "Foi sofrimento pra todo o lado, a família sofreu. Não aconselho nenhum jogador a ir para lá", disse. Foi o último brasileiro a defender o clube.

Os caras lá não falam: 'Eu não gosto de brasileiros'. Mas você sente que não gostam, eles não falam nítido assim, mas você sente o ambiente, é estranho aqui para a gente. Eu falo isso para jogar futebol, não sei com outras profissões. Eu ficava lá isolado, entrava no vestiário, ficava isolado, batia papo com um e outro, depois do treino tomava meu banho e ia para casa

Luiz Alberto

Luiz Alberto, Zagueiro do Boca Juniors em 2010

Bruna Prado/Getty Images Bruna Prado/Getty Images
JuanJo Martin/EFE JuanJo Martin/EFE

Domínio da língua também faz diferença

A Primeira Divisão do Campeonato Argentino tem jogadores de 13 nacionalidades - sem contar os locais.

  • 28 nascidos no Uruguai
  • 27 nascidos no Paraguai
  • 22 nascidos na Colômbia
  • 9 nascidos no Chile
  • 2 nascidos na Venezuela e na Suíça
  • 1 nascido em Brasil, Itália, Equador, Peru, Estados Unidos, Armênia e São Tomé e Príncipe

Outra explicação para a ausência de brasileiros no futebol argentino da atualidade é o idioma. Jogadores que falam português e já passaram pelo país alegam dificuldades de adaptação por causa do espanhol. Também há uma visão de que o brasileiro é pouco adaptável, segundo empresários brasileiros que já ofereceram jogadores a clubes argentinos.

Reprodução/Instagram Reprodução/Instagram

Falta um craque

O futebol argentino não tem o hábito de contratar jogadores brasileiros mesmo em cenário de equilíbrio econômico - até River Plate e Boca Juniors, que têm boas condições financeiras, por exemplo, não fazem propostas por destaques do Brasileirão. As experiências frustradas anteriores e considerações sobre as diferenças das escolas de formação de jogadores são os principais responsáveis pela desconfiança. É muito mais do que dinheiro.

Não há uma perspectiva próxima da mudança deste quadro. Mas há uma alternativa. "Vieram poucos brasileiros para a Argentina, e de maneira muito espaçada. Isso não anima os clubes a tentar. Quem sabe se viessem muitos e rendessem bem se criaria uma tendência para que chegassem mais", cogita o jornalista Claudio Mauri, do diário "La Nación". É uma ideia repetida em outros cenários: o que falta para brasileiros "invadirem" o futebol argentino é o sucesso de um brasileiro.

Tiago Pagnussat é o único representante em 2019. No ano anterior havia sido Mosquito, que jogou oito partidas pelo Arsenal de Sarandi. Nos três anos anteriores nenhum brasileiro jogou o Campeonato Argentino. O brasileiro da vez só precisa recuperar a titularidade... "Não fui tão bem na temporada passada. A equipe não estava muito bem encaixada. Saiu um zagueiro do time porque saímos do 3-5-2 para o 4-4-2 e algum zagueiro tinha que sair. Fui eu."

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