O melhor do pior

No vestiário do Íbis, o pior time do mundo, o histórico de perdedor vira combustível

Adriano Wilkson Do UOL, em Recife* Michael Silva / Íbis

No vestiário do pior time de futebol do mundo, as palavras soam fortes como o calor que castiga o litoral pernambucano, às 16 horas de uma tarde de sábado. O vestiário está abaixo da arquibancada do Estádio dos Aflitos, e os jogadores desviam da água que pinga de uma goteira direto no piso de grama sintética — o que é muito estranho, porque no céu não há sequer uma nuvem de chuva e a umidade do ar é baixa.

A humildade também não tem espaço na atmosfera do vestiário, nesse momento. O que também é incomum porque os jogadores do Íbis — acostumados a conviver com a pecha de perdedores, entrar em campo com um mascote chamado "Derrotinha" e assombrados pelo histórico de 48 derrotas em 55 jogos nos anos 1980 e pelo recorde mundial de maior tempo (3 anos e 11 meses) sem conhecer o sucesso — agora esses jogadores só pensam em vencer.

Eles se reúnem em um círculo, se abraçam, os olhos acesos pela chama da ambição. "Nós não viemos aqui pra empatar", um deles diz, as palavras reverberando em eco no concreto do estádio. "Nós viemos pra ganhar".

Eles têm entre 19 e 35 anos, vestem o uniforme rubro-negro ostentando no escudo o pássaro preto da mitologia egípcia que batiza o time. No meio deles, uma figura se destaca, camiseta polo preta, calça jeans e tênis esportivo, o cabelo preto salpicado de fios brancos e o rosto marcado pelos vincos do tempo. "Vai falar, Ozir?", pergunta o goleiro Lucas Peixe, líder do time.

E então Ozir Ramos Júnior, 64 anos, o presidente do Íbis, um clube fundado pelo avô dele em 1938, no qual ele jogou quando era jovem e que é uma das razões da sua vida desde então, começa a falar.

Michael Silva / Íbis
Michael Silva / Íbis
Ozir Ramos Júnior, presidente do Íbis

"Eu esperei 20 anos para estar aqui", ele diz. O Íbis não disputava a primeira divisão do Pernambucano desde o ano 2000 e muitos acreditam que sua passagem pela elite será breve. "Eu tenho certeza que não vou sair mais." Os adversários em geral não esperam ter vida dura quando enfrentam o Íbis. Afinal, quem teria dificuldades contra o pior time do mundo?

"Eu estive numa reunião na federação, e a turma tá dizendo que o Íbis é a cereja do bolo da competição", relata o presidente.

Tem muita gente querendo foder a gente. Mas vão foder é a puta que o pariu!"

Os jogadores gritam, aplaudem, falam em realizar um sonho, se abraçam e rezam o pai-nosso com força, como se as palavras fossem golpes. Com a promessa de vitória na cabeça, eles cruzam o túnel que leva ao gramado e são recebidos em silêncio sob o sol inclemente do verão nordestino.

Do outro lado do campo, os jogadores do Náutico, o atual campeão pernambucano, os aguardam.

Michael Silva / Íbis Michael Silva / Íbis

Quando dois times se enfrentam em um jogo de futebol, além dos 22 jogadores envolvidos, entra em campo também a história. Quando você olha os atletas de Náutico e Íbis perfilados no centro do gramado dos Aflitos, é difícil não pensar no abismo que se impõe entre eles.

O Náutico joga a segunda divisão do Campeonato Brasileiro; o Íbis sonha com uma vaga na quarta. O Náutico tem 22 títulos do Campeonato Pernambucano; o Íbis foi no máximo 5º colocado. O Náutico tem um atacante, Kiesa, que ganha R$ 100 mil por mês; o Íbis tem um atacante, Kelven, que até ano passado precisava tirar do próprio bolso o dinheiro da condução para ir aos treinos. O Náutico tem seu próprio estádio, rodeado pelos imponentes prédios residenciais do bairro batizado em homenagem a uma capela de Nossa Senhora dos Aflitos; o Íbis treina em um campo emprestado pela prefeitura de Olinda e joga em outro, cedido pela prefeitura de Paulista, uma cidade-dormitório de Recife. O Náutico tem seu próprio ônibus, que leva os jogadores aos jogos; o Íbis está tentando comprar o seu de segunda mão em sites como a OLX.

É claro que o Íbis também tem sua força e foi essa força que permitiu a um clube pequeno, que sempre sobreviveu com pouco ou nenhum dinheiro, se manter relevante no imaginário dos torcedores brasileiros por tanto tempo. A força do Íbis vem da inteligência de brincar com um rótulo horrível — o de pior do mundo, atestado pelo "Guinness", o livro dos recordes — e transformá-lo em uma identidade única. O time tem mais de 665 mil seguidores nas redes sociais e engajamento que rivaliza com grandes do Brasil e do mundo.

O Íbis também tira forças da vitalidade de um homem, Ozir Ramos Júnior, que abdica de momentos com a família para fazer o Íbis dar certo e honrar a memória do avô, do pai e do irmão, todos atletas ou cartolas do clube, assim como ele próprio foi e é. "Foi o Íbis que me salvou", responde Ozir quando questionado se tem valido a pena ser presidente do pior do mundo. "Se não fosse isso aqui, eu já estaria louco."

Michael Silva / Íbis Mascote do Ìbis, chamado Derrotinha, entre os mascotes do Náutico, os timbus

Mascote do Ìbis, chamado Derrotinha, entre os mascotes do Náutico, os timbus

Michael Silva / Íbis

Mas a maior força do Íbis talvez esteja no seu elenco, um punhado de jogadores desconhecidos que representa o futebol brasileiro mais do que qualquer celebridade da bola. Quando falta técnica, quando faltam treinos, eles apostam na vontade, no sonho de fazer um grande jogo, conseguir um grande contrato e dar uma vida melhor pra família. Quando a bola rola na estreia do Pernambucano, são esses jogadores que tentam levar o Íbis a um lugar onde ele nunca esteve.

Mas claro, as coisas não são fáceis, e durante os primeiros minutos, o atacante Kelven não vê a sombra da bola, nem de perto, nem de longe. Preso na marcação da defesa do Náutico, ele se sente impotente, corre muito, mas não chega a lugar algum.

Ele foi o artilheiro e um dos destaques do time na campanha do acesso em 2021. Sua trajetória no futebol começou tarde, aos 20 e poucos anos, no Ferroviário do Cabo de Santo Agostinho. As coisas não deram certo e ele logo abandonou o futebol para ir trabalhar como carregador em empresas como a Jeep e a Itaipava, que têm fábricas na região. Voltou a apostar no sonho da bola no ano passado, ao ser convidado para jogar no Íbis.

No começo, era uma aposta alta. Paupérrimo, o "Pássaro Preto" sempre deixou claro que não conseguia pagar salários aos jogadores, quando muito fornecia uma ajuda de custo em certas situações. Mesmo assim, atletas em busca de exposição topavam assinar contrato, almejando aparecer nas páginas dos jornais e ganhar alguns segundos de TV, esperando a chance de serem notados por times maiores.

Michael Silva / Íbis
Kelven, atacante do Íbis (à esquerda), disputa bola em partida contra o Náutico

Entre a sorte e o azar: o pé quente do artilheiro Kelven

As coisas começaram a mudar para Kelven e seus companheiros quando a Betsson, uma casa de apostas esportivas com sede na Suécia, se encantou com os números do clube nas redes sociais e resolveu patrociná-lo. A empresa usou a imagem dos "piores do mundo" para vender seus produtos. E o elenco passou a receber salários e a concentrar antes dos jogos, o que nunca acontecia.

Antes do jogo que valia o acesso à elite do Estadual em novembro de 2021, o Íbis convidou a família dos atletas para uma confraternização no treino da equipe. Ao voltar pra casa, Kelven esperava o ônibus junto com seus filhos na beira da estrada quando uma peça que prendia a roda no eixo de um caminhão se soltou e rolou em alta velocidade em direção ao filho do atacante, um menino de 2 anos. No reflexo, Kelven puxou a criança para junto de si, tirando-a do caminho da peça, mas o objeto acabou acertando seu tornozelo direito. No mesmo pé que ele havia usado pra levar o Íbis à disputa pelo acesso — foram seis gols que valeram a artilharia da Série A2 do Pernambucano.

Aos 29 anos, ele foi levado ao hospital, precisou ser operado e ficaria fora do jogo decisivo, contra o Petrolina. Depois da cirurgia, recebeu alta e correu à rodoviária, comprou uma passagem de ônibus e encarou as 12 horas de estrada até a cidade que receberia a partida decisiva para ficar perto de seus companheiros. "Eu tinha que fazer isso", ele explicou. "Nós somos uma família, e família fica junto sempre." O Íbis sofreu o empate nos acréscimos e perdeu o título, mas garantiu a vaga na primeira divisão.

Michael Silva / Íbis
Wil, zagueiro do Íbis (à esquerda), cumprimenta torcedores do Náutico

Entre o hambúrguer e a bola: os dois turnos do zagueiro Wil

Antes dos 10 minutos no estádio do Náutico, a aflição já toma conta de Ozir Ramos, que assiste ao jogo sozinho no alto do setor reservado à torcida do Íbis. A torcida visitante é composta por convidados da patrocinadora, como influenciadores digitais, funcionários do clube e simpatizantes. Na maior parte do tempo, é mais barulhenta e animada do que os anfitriões, que não esperam nada além de uma vitória acachapante.

Aos 12 minutos, o meio-campista Juninho Carpina aparece livre na entrada da área. Ele recebe a bola, ajeita o corpo e chuta com força por cima do goleiro Lucas Peixe: 1 a 0. Só o Náutico joga, e o Íbis parece perdido, desorganizado, como se fosse um time que tivesse se reunido naquele momento depois de anos sem treinar. Cinco minutos depois, em novo vacilo da marcação, Carpina arrisca outro chute de fora da área e acerta: 2 a 0.

A derrota parcial foi sentida por toda a defesa do Íbis e particularmente por Wildson Teixeira Gomes da Silva, o zagueiro Wil, de 23 anos. Ele não tem a compleição física tradicional de um zagueiro. Tem estatura apenas mediana. O corpo franzino e o cabelo descolorido deixam claro que ele não faz o estilo brucutu. Como perderia quase todas as divididas se dependesse apenas da força física, Wil aposta em botes certeiros e no domínio sobre o espaço para bloquear o avanço dos atacantes.

Michael Silva / Íbis Torcida do Íbis com convidados e influenciadores

Torcida do Íbis com convidados e influenciadores

Ao final deste jogo, Wil será considerado o melhor do Íbis em campo. Nada mal para um jogador que há algumas semanas estava dividindo seu tempo entre os treinos e os turnos como atendente de um McDonald's de um shopping do Recife. Ele fazia o turno da noite e da madrugada: fritava hambúrguer e batata, servia milk shake e contava o troco no caixa, limpava as lixeiras do restaurante e depois pegava ônibus pra treinar de manhã, treinava forte, descansava algumas horas à tarde e depois começava tudo de novo. Chegou a ser suspenso do trabalho quando precisou viajar com o time.

Ele precisava do trabalho porque no Íbis ninguém recebia salário e era preciso ajudar nas despesas de casa. Foi só no começo de 2022, quando a situação financeira já estava permitindo ao clube remunerar adequadamente seus atletas, que Wil resolveu pedir demissão do McDonald's. "A ideia é fazer um bom campeonato e conseguir ir a um time maior, quem sabe na Europa", ele projetou no ônibus a caminho do estádio.

Ao sair de campo no fim da partida, com 3 a 0 contra no placar, sufocado pelo peso de um jogo em que o Íbis jamais esteve perto da vitória, Wil encontra o clima pesado no vestiário. Os jogadores se despem do uniforme encharcado, se espalham pelo chão e evitam se olhar nos olhos, procurando em algum lugar desconhecido uma explicação para os últimos 90 minutos.

Adriano Wilkson / UOL

O silêncio fúnebre é quebrado apenas pelo treinador Carlos Alberto, que faz uma rápida avaliação sobre o desempenho do time e articula algumas frases motivacionais para levantar o moral dos jogadores. O fisiologista pede que eles tirem o domingo pra descansar, se hidratar e ficar prontos para o treino na segunda-feira. Wil senta no banco, estende as pernas cansadas e revê a entrevista que deu à TV no fim do jogo. Lucas Peixe tira e guarda seu par de luvas, pensando na esposa e na família que ele encontrará logo mais. Kelven faz careta ao tocar o tornozelo inchado por uma dividida no segundo tempo, o mesmo tornozelo que ele operou há dois meses.

Alguns funcionários preparam lanches para o elenco. O presidente Ozir aparece para orientar a operação de saída do estádio. O Íbis agora vai tentar se recuperar da estreia ruim. Eles vão refletir sobre os erros, mas não muito para que esses erros não sejam capazes de paralisá-los. Vão repassar os acertos e se agarrar neles para manter a esperança de permanecer na primeira divisão. Eles vão tentar melhorar. Na semana que vem, vão voltar a treinar, vão repetir movimentos, vão conversar mais e se entender mais e depois vão fazer tudo de novo até chegar no lugar aonde eles sonham chegar. Eles vão ficar cada vez mais próximos, fechados, unidos como uma corrente que só é forte pela ligação entre seus elos. E se chegarem lá, vão chegar juntos.

Porque eles podem ser o pior time de futebol do mundo, mas ainda assim são um time de futebol. E é isso que os times de futebol fazem.

Adriano Wilkson/UOL Adriano Wilkson/UOL

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