Promessas vazias

Homem é acusado em cinco cidades de enganar pais e atletas com jogos e torneios que nunca aconteceram

Brunno Carvalho Do UOL, em São Paulo Pedro D'apremont/UOL

A minha história aconteceu entre abril e dezembro de 2017. Foram os piores meses que tive na vida. Passei fome, passei frio. Tomei banho gelado porque não tinha chuveiro. Dormi no chão porque eles não arrumavam uma cama. Cheguei a colocar uma madeira embaixo do colchão para não pegar friagem na hora de dormir.

O Diego prometeu um rio de coisas pra gente. No total, em Igaratá [SP], acho que tinham 24 atletas, entre maiores e menores de idade. Tinha moleque de 16 até 24 anos. A promessa era fazer a preparação em Igaratá e Santa Isabel, que era a cidade ao lado, e ir para a Argentina.

Para não preocupar minha família, eu falava que estava em um lugar bom, mas era tudo mentira. Eu mentindo para minha família e passando pela pior fase da minha vida. Não tinha medo dele, mas não queria preocupar meus pais. Eu estava tentando buscar meu sonho, porque a gente faz de tudo para mudar a vida da nossa família.

Fiquei com ele quase sete meses e não joguei nenhum amistoso. Era tudo mentira. O único amistoso que a gente jogou foi com um time de várzea, não era nem profissional. Quando percebi que era tudo uma farsa, eu fui embora.

Conheço pessoas que foram até a chácara para matar o Diego. O Diego saiu correndo. Foi nessa hora que cada atleta foi para um canto. Alguns ficaram aqui em casa pra não dormir na rua.

O Diego roubou muito dinheiro, fez muita merda.

A primeira acusação

O relato acima é de Ramon Lorenzo, um jogador de 20 anos de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. A história é a primeira de uma série de denúncias envolvendo Diego Ferreira de Matos. As vidas dos dois se cruzaram na pequena cidade de Igaratá, no interior de São Paulo, em abril de 2017.

Ramon diz ter servido como motorista para Diego durante os sete meses que ficou em Igaratá. Enquanto treinava para amistosos que nunca aconteceram, o jovem fazia "os corres" com o homem que prometia uma vida melhor dentro do futebol.

Diego é acusado em pelo menos cinco cidades de enganar pais, atletas e donos de chácaras. Em todos os casos, a promessa era a mesma: montar uma equipe que se prepararia para disputar torneios e jogos amistosos na Argentina. Em nenhum dos casos, a promessa virou realidade. Em vários, o relato era de fome e até falta de lugar para dormir.

Após conversar com diversos atletas, familiares e autoridades públicas, contatamos Diego. Ele nega qualquer tipo de irregularidade. Especificamente no caso de Igaratá, diz que sequer esteve na cidade.

A promessa

As promessas feitas por Diego têm pontos em comum em Joanópolis (SP), Igaratá (SP), Araras (SP) e Curitiba (PR). Os campeonatos e amistosos eram usados como justificativa aos pais. Para que o filho jogasse era necessário inscrevê-lo no campeonato. Para inscrevê-lo, era preciso que as famílias enviassem mais dinheiro. O valor era somado ao montante que já era pago mensalmente para os meninos ficarem no alojamento.

Em todos os casos, Diego é acusado de sumir repentinamente e de deixar as famílias sem informação, dinheiro ou participação nos campeonatos prometidos. Teria sido assim nas quatro cidades.

Pais dizem ter perdido milhares de reais

O futebol é visto como a única esperança para algumas famílias mudarem suas situações financeiras. Em busca do sonho de ver o filho se transformar em jogador, pais gastam muitas vezes até o que não têm. No caso da mãe de J., que não quis se identificar, a quantia chegou a R$ 6 mil.

"Eu colocava o dinheiro na conta do meu filho e passava para o Diego e para o Sérgio, que era quem trabalhava com ele em Araras. Eles diziam que era para pagar equipamentos para treinarem no Rio Grande do Sul. Depois, o Diego falou que iriam para a Argentina. Quando me mostraram o que estava acontecendo, eu mudei meu menino de lá".

Valor maior perdeu José Aílton, pai de Ramon Lorenzo, do relato que abre a reportagem. Morador de São Bernardo do Campo, na grande São Paulo, ele disse ter conhecido Diego por meio de um amigo e convidado a ser uma espécie de gestor do alojamento em Igaratá. Na conta dele, R$ 7,2 mil foram perdidos.

"Ele me chamou para ficar no gerenciamento. A cada 15 dias eu ia lá para ver como que estava a situação. Aí comecei a desconfiar de algumas coisas, algumas falcatruas. Ele começou a lesar os meninos e falava para os pais que já estava tudo legalizado para viajar. Quando descobri, briguei com ele e pedi a devolução do dinheiro de todo mundo, que calculava ser uns R$ 40 mil. Foi aí que ele sumiu".

A quantia de R$ 7,2 mil calculada por José Aílton incluía a alimentação dos atletas. "O tratamento com os meninos era péssimo. Eles chegaram a passar fome. Quando descobri isso, me meti no meio e comecei a bancar junto com outro cara que é lá de Santa Isabel [cidade vizinha de Igaratá]. Chegou uma hora que falei que não dava mais para bancar sozinho. Eram quase 30 meninos vindo de todos os cantos do país".

Questionado sobre a história em Igaratá, Diego disse nunca ter pisado na cidade. Em relação a Araras, afirmou que Sérgio Ferreira, seu parceiro no alojamento da cidade, era o responsável por cuidar do dinheiro.

O sócio

Sérgio Ferreira do Santos trabalhou com Diego em três chácaras em Araras (SP). A história de como os dois se conheceram e quem convidou quem para o projeto é diferente, dependendo de quem conta a sua versão.

Diego diz que os dois se conheciam há cinco anos pelas redes sociais, mas se encontraram pela primeira vez em 2018. Um ano depois, veio o convite para trabalhar em Araras. Sérgio coordenava o projeto por lá e ele atuava como um "faz tudo".

"Eu conheci as famílias por meio do Sérgio. A gente se conhecia por rede social e ele me pediu para ajudá-lo. Em Araras, eu era tudo: cozinheiro, ajudante. Eu só caí nisso por causa do Sérgio. Ele me chamou para tomar conta e saiu fora da jogada", diz Diego.

Sérgio diz ter conhecido Diego apenas em 2019, por intermédio de um professor. Nessa versão, Diego era o responsável pela parte administrativa do alojamento de Araras, enquanto ele cuidava dos treinamentos dos atletas.

O treinador diz que no primeiro mês de parceria, os pais depositavam o dinheiro da taxa em sua conta. A partir do segundo mês, Diego teria pedido para mudar o esquema e começado a sacar as quantias diretamente das contas dos atletas. O aluguel do local, então, teria começado a atrasar e Sérgio ficou com uma dívida de R$ 2,3 mil para pagar.

"Depois disso, a gente se mudou para uma segunda chácara e lá tudo foi pago, mas tivemos que sair porque outros locatários entrariam. Na terceira chácara, eu comecei a desconfiar do Diego e fiquei uma semana só. Ele pedia dinheiro para os pais para pagar inscrições de campeonatos que nunca aconteceram. E a justificativa era que o valor tinha sido usado para comprar comida", rebate Sérgio.

O que dizem as pessoas em Araras

Dizem que toda história tem três lados: o meu, o seu e a verdade. Mas a de Diego em Araras tem quatro. Pessoas que conviveram com ele e com Sérgio dão um relato diferente sobre o que aconteceu no interior de São Paulo.

Os dois ficaram menos de duas semanas na segunda chácara em que se hospedaram na cidade. O dono do local diz que Sérgio era o que menos aparecia, com a justificativa de que precisava cuidar da mãe doente em outra cidade. Em relação ao dinheiro, segundo conta, tudo passava pela mão de Diego.

"Ele sempre negava entregar os documentos ou falar o nome completo. Quando foi fazer o acerto na minha chácara, ele pediu o recibo. Eu disse que precisava dos dados dele para preencher o documento. Foi quando ele disse que não precisava mais do recebido", relatou.

A versão de que Diego e Sérgio não tinham tido problema na segunda chácara também é contestada pelo dono do espaço. Ele acusa Diego de ter sumido por três dias e abandonado atletas lá. Após constante pressão, teria retornado para quitar a dívida. "Eu fiquei pressionando. Ligava para ele, mandava mensagem e ele não me atendia. Três dias depois, ele veio acertar, porque tinha interesse em continuar na cidade".

Após o acerto, Diego teria ido para uma terceira chácara, a mesma em que Sérgio afirma ter rompido com o parceiro na primeira semana. Lá, a acusação é de abandono dos atletas e uma dívida de R$ 4 mil referente a mais de duas semanas de locação.

"Nos primeiros dias, as condições eram boas, mas depois começou a faltar comida. Eles chegavam a fazer vaquinha com a gente para comprar comida. Falavam que tinham mães que ainda não tinham depositado o dinheiro", afirmou J., um dos atletas que estiveram com Diego nas chácaras.

Após o sumiço de Diego, ele foi para uma chácara em Itu. No local, a forma física do menino chamou atenção. "O responsável lá disse que meu filho chegou magro e não estava treinando. Se chegou magro, é porque não estava se alimentando bem. Mas ele não me falava nada, não queria atrapalhar a chance da carreira dele", diz a mãe de J., que não quis se identificar.

A ameaça

Com o sumiço de Diego em Araras, alguns meninos foram levados para a cidade de Itu. Em um áudio recebido pela reportagem, ele aparece ameaçando um dos atletas. "Agora vocês estão fodidos. Brincaram comigo e agora vão ver... eu posso ir para o inferno, mas vocês vão primeiro conhecer o demônio".

Caso em Registro virou denúncia do Ministério Público

Diego foi denunciado pelo Ministério Público de São Paulo no início de 2017 por um suposto crime cometido na cidade de Registro, em 9 de fevereiro de 2015. Ele é acusado de ter se apropriado de R$ 600. O dinheiro seria usado para a profissionalização de um atleta pelo Comercial Esporte Clube, time da cidade.

O relato no processo indica que Diego usou a conta de um cozinheiro do clube para receber o dinheiro sem que ele chegasse ao Comercial. Na sequência, deixou a cidade com a quantia sem dar entrada no processo de profissionalização do jogador.

O caso seria mais um dos golpes aplicados por Diego no interior de São Paulo. Marco Batalha, presidente do Comercial, afirma que o clube estava licenciado à época e, portanto, não estava profissionalizando nenhum jogador.

"Ele dizia à molecada que ia fazer a profissionalização, mas nem era algo que ele podia fazer. E o clube também não estava profissionalizando ninguém naquele tempo. Ele pegava o dinheiro dos meninos e falava para não comentarem dentro do clube".

Marco afirma ter conhecido Diego pelas redes sociais no início de 2015. Na conversa, ouviu a promessa de que se tratava de um captador de jogadores que levaria atletas para treinarem no clube do interior paulista. O acordo permitia que Diego usasse as instalações do clube pagando uma taxa mensal.

A parceria durou quase um ano e acabou quando os casos de promessas de profissionalização vieram à tona. "Quando a gente descobriu, quase pegamos o Diego. Mas ele fugiu deixando tudo para trás: roupa, documento".

Diego diz desconhecer o processo e afirma nunca ter estado em Registro. No ano seguinte ao ocorrido, o Comercial passou a mandar seus jogos na cidade de Salto, também no interior de São Paulo. O processo ainda está em curso e corre em segredo de Justiça.

Último caso em Curitiba

O último registro que se tem de Diego Ferreira de Matos é em Curitiba, no Paraná. É lá que está registrado um boletim de ocorrência contra ele datado em 8 de agosto deste ano.

O dono de uma chácara, que pediu para não ter o nome revelado, o acusa de não pagar o aluguel prometido. Diego teria postergado a entrega de documentos e omitido que havia menores de idade no local. Ao ser pressionado, fugiu sem dar notícias.

A Polícia Civil de Curitiba confirmou a existência de boletins de ocorrência por calúnia, ameaça, extorsão e estelionato contra ele. Os menores, que saíram de São Luís, no Maranhão, por uma oportunidade em São Paulo, ficaram quatro dias sob a guarda do Conselho Tutelar antes de serem levados de volta às respectivas famílias.

Diego nega ter desaparecido em Curitiba. Ao falar com a reportagem, disse que saiu para levar um atleta para um teste e, ao voltar, o Conselho Tutelar havia sido chamado pelo dono da chácara. Ele enviou fotos de atletas dormindo em colchões no chão, dizendo ter sido expulso do local para a entrada de outro grupo.

O proprietário diz que Diego sabia desde o início que o grupo precisaria sair por dois dias. Ele diz ter aceitado deixar que os atletas dormissem em um salão para que não precisassem pagar duas diárias de hotéis. Durante esse tempo, afirma ele, Diego teria propositalmente sujado o local e criado um cenário de degradação para tirar fotos e extorqui-lo futuramente.

Menores abandonados também em Joanópolis

O Conselho Tutelar já havia sido chamado para um caso semelhante em 2018, na cidade de Joanópolis, interior de São Paulo. Mais uma vez, o nome de Diego é apontado como responsável. Um boletim de ocorrência foi aberto contra ele por estelionato.

Diego teria chegado na cidade com a promessa de preparar atletas para excursões na Argentina e na Ásia. Vitor Henrique, pai de um dos atletas, disse ter pagado R$ 500 como taxa única para que o filho pudesse treinar no local.

"Um empresário investiu no meu filho e o levou a esse alojamento. Lá, cada um tinha que pagar R$ 500. Depois de uma semana que eles estavam lá, que todo mundo deu dinheiro para ele, ele simplesmente sumiu. O cara sumiu, desapareceu".

O desaparecimento de Diego fez com que as autoridades de Joanópolis assumissem o caso. O Conselho Tutelar foi acionado, e a prefeitura arcou com o transporte para os menores de idade voltarem para suas famílias.

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo confirmou o boletim de ocorrência. Por envolver menores de idade, não puderam passar mais informações sobre o caso, que corre em sigilo.

Assim como no caso de Igaratá, Diego se diz inocente e afirma nunca ter estado em Joanópolis. "Tem pessoas usando meu nome para fazer isso aí".

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