"Absolutamente realizada"

Grávida aos 43, Janaina Xavier completa 25 anos de TV feliz com conquistas e quer dividir sua experiência

Ana Flávia Oliveira e Beatriz Cesarini Do UOL, em São Paulo Sergio Zalis/Globo

Desde menina, quando ainda vivia na cidade de Toledo, no interior do Paraná, Janaina Xavier já sabia o que queria da vida: trabalhar na televisão. O sonho de criança e o amor ao esporte a levaram ao jornalismo. Em abril de 2021, ela completou 25 anos de carreira e está plena.

"Eu me sinto, de verdade, realizada. Todos os dias, quando eu saio de casa para trabalhar, não é um sacrifício, não é penoso, pelo contrário, é aquela coisa de você sair para se divertir, amo o que eu faço", disse a apresentadora do SporTV.

Janaina veio da calmaria do interior, mas a determinação para concretizar os sonhos sempre foi tão forte que as oportunidades vieram em ritmo de cidade grande. A repórter matou "um leão por dia", como ela mesma diz, para ser reconhecida como profissional competente em meio ao universo masculino do jornalismo esportivo. Na trajetória, foi reconhecida por ídolos, participou de coberturas marcantes e chegou à bancada do SporTV News.

Em longa conversa com o UOL Esporte, Janaina passeou pela sua trajetória e relembrou de coberturas doloridas, como o acidente com o voo da Chapecoense em 2016 e o incêndio no Ninho do Urubu em 2019. A jornalista ainda comentou radiante sobre a segunda gravidez aos 43 anos.

Sergio Zalis/Globo
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Esporte foi consequência

Janaina cresceu acompanhando as vitórias esportivas do pai, Raul de Paula Xavier, que quase embarcou na carreira de jogador profissional. Mas, ao ser aprovado no vestibular de medicina, seguiu outro caminho. A paranaense herdou a paixão por esporte, mas preferiu manter as agulhas e o estetoscópio distantes, porque sempre sonhou com a televisão.

"Escolhi o jornalismo porque eu queria trabalhar em televisão, e aí trabalhar com o esporte foi quase uma consequência. O meu pai conversou com um grande amigo lá de Cascavel que já trabalhava em Curitiba, na [emissora] CNT, o Fernando Gomes. Ele tinha um programa de esporte chamado 'Mesa Redonda', e meu pai pediu para que eu acompanhasse a produção e tudo mais. Na época, nem poderia fazer estágio ainda, não tinha remuneração, mas eu fui. Isso que marcou o início da minha carreira e eu nunca mais saí até eu terminar a faculdade", contou.

"Essa experiência foi minha faculdade, porque eu fazia de tudo: produzia, ia para rua, fazia reportagem, voltava, editava fita beta [formato de gravação em vídeo], colocava no ar... e eu também participava do programa entregando prêmios, assim que eu comecei a entrar no ar. Aos pouquinhos, eu fui aparecendo com reportagens e fiquei até me formar, sem receber um centavo", relembrou.

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Frustração virou oportunidade

Toda a experiência que Janaina acumulou na CNT rendeu frutos. Assim que se formou na faculdade aos 21 anos, ela foi convidada para trabalhar na RPC, a afiliada do Grupo Globo no Paraná. A ideia do canal era colocar a jovem para dar as informações sobre o clima no telejornal local.

Após alguns testes, ela foi aprovada para a função e estava pronta para estrear na Globo. A família se reuniu para ver a jovem apresentando a previsão do tempo, mas um balde de água fria surpreendeu a todos. A chefia da emissora disse que a jornalista "era vesga e não ficou bem no vídeo".

"Saí da sala dos diretores chorando. Pensa como foi ter que telefonar para os meus pais e contar essa história. Foi a minha primeira frustração assim profissional, eu nunca esqueci. E, apesar de tudo, acabou que foi a grande virada da minha vida, porque me colocaram no esporte."

Pensa a família inteira esperando para assistir à minha estreia na Globo. Quando eu chego na TV de manhã, me chamam na sala da direção e falam: 'Olha, sabe o chefe lá de São Paulo? Então, ele avaliou que você é vesga e que não funciona no plano americano. A gente correu atrás de outra pessoa'. Fui embora chorando.

Janaina Xavier

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Janaina em entrevistas com o tenista Rafael Nadal e o ex-jogador Clarence Seedorf (superior); jogadora Marta e o lutador Anderson Silva (à esquerda) e Pelé (à direita).

No esporte, precisou enfrentar "um leão por dia"

Apesar de não ter conseguido ser a "garota do tempo", a jornalista foi mantida na emissora, mas em outra função. Com 21 anos, Janaina embarcou no mundo do esporte como repórter da Globo no Paraná, em ambiente hostil com mulheres, em uma época em que as entrevistas pós-jogo eram muito mais informais, sem a preparação da sala de imprensa.

A repórter já levou muito "chá de cadeira" esperando pelos jogadores na porta de vestiários, enquanto os colegas homens podiam entrar onde ela não conseguia. De quebra, ouviu várias respostas atravessadas de técnicos de renome pelo fato de ser mulher e em início de carreira.

"Já tomei toco do Felipão, do Leão. Você via que eles pensavam: 'O que essa menina está me perguntando?'. Gente, eu queria ver uma cobra, mas eu não queria ver o Leão na minha frente. Tinha que matar, de verdade, um leão por dia para mostrar que eu entendia. E não é que eu, com 21 anos, sabia tudo de futebol. Não sabia nem futebol, nem de nada da vida, né? É claro que a gente comete gafes, fala bobeira, é uma fase de maturação, de aprendizado", reflete.

Apesar das dificuldades no início, a jornalista conseguiu criar relações fraternas com treinadores, que acompanharam todo o crescimento profissional da paranaense.

"O Abelão me viu começando, então hoje ele me olha e fala 'nossa, olha onde você tá'. Mesma coisa o Felipão... Depois eu fui cobrir seleção brasileira, a Copa no Brasil com ele de treinador, e ele olhava: 'guria, tu ta aqui'. Eu fui criando essas relações, porque eles estavam comigo desde lá de trás", concluiu.

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Janaina e a filha Maria Eduarda com o técnico Felipão (à esquerda) e a jornalista durante cobertura da seleção na Copa de 2014 (à direita)

Soco em torcedor no estádio do Morumbi

Coros lotados de palavrões que depreciavam Janaina, como repórter e como mulher na beira do gramado, eram comuns nos estádios de futebol. Para não afetar o próprio trabalho e o andamento das transmissões, a jornalista colocava os fones de ouvido na tentativa de fugir das ofensas.

Mas, quando determinadas situações fogem do limite, fica complicado de se abster, diz a jornalista. Em 26 de abril de 2000, a seleção recebeu o Equador no Morumbi, em um momento de pressão nas eliminatórias para a Copa 2002. Escalada para fazer reportagens sobre o clima da arquibancada com um cinegrafista e um auxiliar, Janaina foi surpreendida por um torcedor que agarrou seu queixo.

"A torcida estava muito brava com a seleção brasileira e sempre arruma um culpado. Na época, era o Galvão Bueno. [Era] 'fora Galvão, fora Globo' o tempo todo. Eu estava ali com microfone da Globo, e um torcedor apareceu, do nada, e pegou no meu queixo para reclamar. Quando ele encostou em mim, eu dei na cara dele, de reflexo, de defesa mesmo, sabe? Só que a torcida inteira em volta inflamou contra toda a equipe, e a gente teve que fugir. Saímos correndo pela arquibancada do Morumbi até que chegou um segurança e conseguiu levar a gente embora", relatou.

A história não acabou aí. Meses depois, o mesmo torcedor encontrou Jana em um restaurante, na cidade de São Paulo. Ele abordou a jornalista e disparou: "Lembra de mim? Eu sou o torcedor que você bateu no Morumbi". Com medo, a apresentadora, então, se desesperou e pediu ajuda aos amigos para sair do estabelecimento.

Não me orgulho de ter feito o que fiz, mas foi absolutamente instinto de defesa, enfim. Foi a situação mais complicada que passei na minha carreira nesse sentido. Já passei alguns perrengues, e, talvez, se fosse um repórter homem ali naquele momento, o torcedor não tivesse tido a mesma coragem de ir pra cima e querer agredir.

Janaina Xavier

André Valentim/Divulgação

O peso por ter sido esposa de narrador

E quando amor e carreira se juntam? Em 2005, Janaina conheceu o narrador Luiz Carlos Júnior quando ainda era repórter da afiliada da Globo no Paraná. Eles se apaixonaram, começaram a namorar, mas sofriam com a distância entre Curitiba e Rio de Janeiro, onde o narrador morava. A solução para driblar os 843 km que separam as duas cidades e reduzir os gastos com a ponte área? Mudar para a Cidade Maravilhosa.

"Não tinha vaga de repórter, era uma vaga de produtor com salário superpequeno, mas eu pensei que era o jeito de eu ir. Todos me apoiaram e deu tudo certo. Com o tempo, as coisas foram acontecendo, a minha vaga de repórter surgiu, enfim, continuei fazendo o que eu já fazia, só que no Rio. Aí a gente casou em 2007, e nossa filha Maria Eduarda nasceu no fim de 2009", contou.

Casar com alguém da mesma empresa e profissão tem suas vantagens, como a compreensão da rotina um do outro, mas também existem dificuldades. Justamente por carregar o rótulo de "esposa do narrador", Janaina se viu perdendo oportunidades profissionais.

"Até para eu ter uma promoção ou aumento de salário pensavam: 'Não, mas espera, ela está bem, porque ela é mulher do Luiz, então vamos colocar quem precisa mais antes'. Eu sentia internamente e me posicionava em relação a isso: 'ele é ele, eu sou eu, né?' As pessoas esqueciam que eu tinha uma história de dez anos de carreira antes de conhecê-lo", pontuou a jornalista.

"E o Luiz brigou muito por mim lá dentro nesse sentido. Às vezes, quando ele me via chateada, se posicionava. As coisas foram chegando mais tarde para mim. E a gente passou por vários chefes, várias direções. Tinham líderes que não gostavam de casal na mesma empresa e tentavam dar uma separada. Por outro lado, tinha outro que chegava e curtia. Tem que ir se encaixando de acordo com as novas diretrizes de quem está ali te gerindo", afirmou. O casal se separou em 2019.

Arquivo Pessoal

Copa da Rússia: longe da filha e virada na carreira

Do relacionamento com Luiz Carlos nasceu, em 2009, Maria Eduarda, hoje com 11 anos. Tornar-se mãe fez Janaina repensar alguns caminhos profissionais. Ela escolheu a maternidade em um momento no qual a carreira poderia ter decolado. O sonho de cobrir a maior competição de seleções em outro país teve que ser adiado para 2018, na Rússia — antes, ela acompanhou Copa de 2014 no Brasil.

Apesar de não ter saído do país em 2014, Janaina teve que ficar em Teresópolis, longe da filha. Ao retornar da cobertura da seleção, a jornalista sentiu que precisava ficar mais perto da menina. A solução foi pedir para deixar a reportagem.

"Embora a Copa fosse aqui no Brasil, eu não via a minha filha, e ela tinha quatro anos. Quando eu voltei, ela era outra criança, estava estressada, chateada, malcriada. Eu senti que ela precisava de mim porque éramos eu e o pai fora de casa. Eu chamei meu chefe, na época era o Fábio Seixas, para uma conversa e falei: 'ó, olha, eu voltei da Copa e tomei uma decisão, eu fico na reportagem até 2016, até acabar a Olimpíada. Quando acabar a Olimpíada, não quero mais. Eu preciso fazer outras coisas, preciso pensar na minha filha e ter mais rotina", contou.

Foi assim que ela, antes mesmo do planejado, deixou a rotina da reportagem e foi para a bancada do "Planeta SporTV", que estreou no início de 2015. E foi apresentando o programa que Janaina participou da cobertura da Olimpíada no Rio e, depois, realizou o grande sonho de cobrir uma Copa fora do país.

Momentos mais difíceis da carreira

Renata Caldeira/TJMG

Caso do goleiro Bruno

"Eu fui para Contagem (MG) para cobrir o julgamento do Bruno. E eu era a única repórter de esportes lá, todos os repórteres eram de geral. Um pouquinho antes [do crime], entrevistei o Bruno herói no Maracanã, campeão brasileiro. O Bruno me conhecia. Eu estava o tempo todo cobrindo o Flamengo. Lembro que no primeiro dia no tribunal, ele me olhou no olho. Tinha a sensação que eu era a única pessoa que ele conhecia lá dentro. Ele levanta, me olha e abaixa a cabeça. Aquilo me deu uma coisa."

Reuters

Voo da Chapecoense

"Acordei cedo com o telefone tocando. Era casada ainda, e quem atendeu foi o Luiz. A pessoa falou assim: 'nossa, graças a Deus', porque achavam que ele podia estar no avião. Só que ele ia para Porto Alegre para fazer a Copa do Brasil, ele ia viajar à tarde. E aí que a gente soube. Eu fui para TV, só que até então não tinha nem me tocado que tinha jornalista lá dentro, ou seja, eu tinha amigos de verdade lá dentro. Me falta até ar de lembrar daquele dia assim porque foi muito difícil. Aquilo mexe."

Reprodução/SporTV

Incêndio no Ninho do Urubu

"A gente não sabia o que estava acontecendo direito, e o meu programa, o 'News', entrava no ar às 8h45. Entrei no estúdio às 7h15 sozinha, só com a imagem do Globocop e as informações chegando. Uma hora e pouco depois o [comentarista André] Loffredo chegou, colocaram ele no ar, e a gente foi junto até as 10 e pouco da manhã. Naquele dia, saí com contratura muscular na perna, fiquei uma semana mancando depois porque o nível de tensão, nível de estresse. Foi uma cobertura muito difícil para mim."

Reprodução/Instagram/@rr_tv

Morte de Rodrigo Rodrigues

"Mais recente foi a notícia da morte do Rodrigo [Rodrigues, por complicações da covid-19, em 2020]. Esse dia foi muito difícil. Embora já soubesse que podia acontecer, a gente já estava com tudo meio preparado. Eu falava 'não é possível que vai cair no meu colo', no sentido de que eu que vou ter que cumprir essa missão aqui. Era um grande parceiro. Faz tempo que não vou pra TV [está trabalhando de casa na pandemia], mas às vezes dá sensação que você vai cruzar com ele na escada, sabe?"

Reprodução

Polêmica com Joice Hasselman

Foi uma foto sem nenhum cunho político, sem nenhum tipo de posicionamento político da minha parte, até porque ali havia uma relação pessoal e não política. Eu jamais faria isso, até pelo meu histórico. Ninguém nem sabe dizer se eu sou uma pessoa de esquerda ou de direita. Eu não sou uma pessoa que me posiciono politicamente, até porque sempre fiz questão de cumprir as regras estabelecidas pelo código de ética da empresa que eu trabalho. Nesse dia, sem querer, eu as descumpri, entendi que as descumpri sem intenção."

Janaina Xavier, ao explicar polêmica foto que postou com a então candidata à Prefeitura de São Paulo pelo PSL, Joice Hasselman, em novembro de 2020, às vésperas da eleição. Como punição, a jornalista foi afastada por dois dias da apresentação do programa SporTV News.

Sergio Zalis/Globo/Reprodução Sergio Zalis/Globo/Reprodução

Futuro e maternidade

À espera da segunda filha, que será chamada de Maria Vitória, Janaina olha para o futuro. Ela se diz totalmente realizada profissionalmente e confia poder compartilhar com os mais jovens o conhecimento acumulado em 25 anos de carreira.

"Eu já dei check em quase tudo. Eu sou muito grata pelas oportunidades que eu tive e o que vem agora, eu recebo de bom grado, de bônus, com muita alegria. Se eu puder repetir mais uma Copa, olha que lindo, se eu puder fazer uma Olimpíada fora vai ser mágico, mas eu já sou muito realizada dentro da minha profissão. Eu acho que já fiz quase tudo que eu queria. De repente, mais para frente, eu posso migrar, sair do ar, tentar passar a minha experiência para profissionais mais jovens, não sei", disse a apresentadora ao revelar o desejo de ser chefe de reportagem.

"É uma coisa que eu gosto de fazer. Tem muito repórter que me procura, eu tenho muitas amigas, passei muitos anos na rua, então elas gostam de conversar, de pedir opinião, tal. Acho que eu faria isso bem, de uma forma bem verdadeira."

Mas, por enquanto, a apresentadora só pensa em uma coisa: maternidade. "Estou monotemática", brinca. Ela diz que a gravidez aos 43 anos, fruto do relacionamento com o advogado Gustavo Bonini Guedes, ajudou a superar crises de ansiedade.

"Eu estou muito mais calma. Durante a pandemia, me descobri com crise de ansiedade: baixei em hospital, inclusive, saí do estúdio de ambulância com hipertensão, coisas que nunca tinha tido. Fiquei muito assustada. Eu estava em tratamento, tomando ansiolítico [medicação com efeito calmante] para ficar bem quando eu soube que estava grávida. Eu falei 'meu Deus, e agora? Será que podia, que tem algum problema?' Fui me acalmando — está tudo bem com a neném. Mas a primeira coisa que eu fiz foi cortar as minhas medicações. [..] Eu tirei e eu nunca estive tão bem. É muito incrível, eu não sinto mais nada, sabe?"

Janaina encontra-se radiante. O sorriso abre fácil ao falar da gravidez, anunciada em abril, ao vivo, durante o programa SporTV News.

Victor Carnevale

Meu sonho, agora, é que minha filha chegue cheia de saúde e que a gente possa viver esse momentinho, que para mim foi a raspa do tacho, a cereja do bolo. Quando eu nem imaginava, veio esse presente lindo realizando um sonho do Gustavo [Guedes], realizando um sonho da minha filha Maria Eduarda."

Janaina Xavier sobre gestação aos 43 anos.

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