Você é ridículo

Referência em esportes americanos na ESPN, Everaldo Marques fala sobre a carreira, bordões e início "pirata"

Brunno Carvalho e José Edgar de Matos Do UOL, em São Paulo
Leo Martins/UOL

Everaldo Marques sabia do longo e concorrido caminho que teria para narrar futebol. Para se destacar com o microfone na mão e cumprir o sonho de infância, ser versátil surgia como requisito básico. Para isso, pensou uma estratégia simples: mostrar-se disponível e interessado em narrar o que quer que fosse.

Neste campo, os esportes americanos apareceram como alternativa palpável. Em crescimento no Brasil, eram o caminho ideal para chamar a atenção. A estratégia deu tão certo que transformou Everaldo na cara do futebol americano no Brasil.

Uma década depois, a parceria com Paulo Antunes se consolidou, agradou e criou fãs temporada a temporada. Mas, quando ainda "tudo era mato", foi necessário até combater "fake news" e vencer a resistência de um público que se reunia no Orkut para exigir excelência nas transmissões.

Hoje consolidado como um dos principais narradores do Brasil, Everaldo Marques ralou para realizar o sonho. Narrou Copa do Mundo em um "risca-faca" de São Bernardo, quase jogou tudo para o alto na Jovem Pan e chegou à ESPN com ajuda de Paulo Vinicius Coelho, o PVC, e Alex Tseng, responsáveis por arranjar um simples teste na emissora então comandada por José Trajano.

Ao UOL Esporte, Everaldo relembrou em uma conversa de mais de duas horas a trajetória para realizar o sonho de infância. Nas transmissões, se transformou em um dos mais estudiosos, como ele gosta de dizer, em busca constante por informação. "Sou jornalista acima de tudo", afirma um orgulhoso nerd dos microfones.

Posso não ser o melhor, mas sou um dos mais estudiosos

Everaldo Marques tenta sempre que possível acrescentar novidades em suas narrações. Não importa se é na abertura dos Jogos Olímpicos ou em uma partida da segunda divisão do Campeonato Inglês. Para ele, qualquer transmissão é encarada como final de Copa do Mundo.

"Ninguém vai inventar a roda, as narrações esportivas existem há 50 anos. O que eu tento é fazer de um jeito que consiga acrescentar algo às pessoas, seja informação, diversão. Eu nunca vou ser especialista em todos os esportes, mas eu me cobro para fazer a lição de casa".

O método de trabalho faz com que ele chegue de três a quatro horas antes à redação da ESPN para se preparar. Na abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, decidiu se debruçar durante três semanas para encontrar curiosidades sobre quase todos os países que iam desfilar na parada das bandeiras.

"Tecnicamente eu sou um bom narrador. Tenho a voz mais bonita do mundo? Não, não tenho. Mas eu sou um dos caras mais estudiosos que eu conheço. Sei que tenho uma parte artística razoável, de razoável para boa, mas eu sou jornalista acima de tudo. Então o mais importante para mim no jogo é a emoção do jogo, a história do jogo, os números que explicam o que está por trás. É isso que eu estudo".

Chama meu amigo de ridículo!

O bordão não é a prioridade para Everaldo Marques, mas um deles virou assinatura: "você é ridículo". A brincadeira surgiu como uma forma de elogio ao astro Stephen Curry, referência do Golden State Warriors e uma das estrelas da NBA. A partir do adjetivo improvisado, Evê transformou "ridículo" em sinônimo para craque.

O bordão fez sucesso e passou a ditar moda entre os fãs do narrador. Não é incomum Everaldo Marques ser parado na rua por um admirador ávido para ter um áudio do narrador chamando alguém de ridículo.

"As pessoas pedem para tirar foto e falam assim: 'você grava um áudio chamando fulano de ridículo?' Aí eu gravo com a pessoa junto comigo, porque senão eu gravo sozinho e de repente usa de outro jeito e pega mal. Eu gravo: 'oi, fulano, estou aqui do lado de ciclano e ele tá pedindo pra eu dizer que você é ridículoooo!'".

Eu nunca me preocupei com isso, sabe? Os caras que eu adorava ver e ouvir, eles não tinham muitos bordões. Se tem o bordão para dar um molhinho porque repercute na internet, as pessoas repetem, é divertido. Mas a transmissão não depende disso. O bordão é a cereja do bolo, se o bolo não tiver bom, não vai servir para muita coisa.

Everaldo sobre bordões

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Fãs de Lady Gaga deram dor de cabeça

Imagine um cenário: você é fã da Lady Gaga e descobre que ela cantará no intervalo do Super Bowl, a decisão da NFL. Durante o show, o narrador que você nunca viu na vida chama a sua cantora favorita de ridícula. Estranho, não? O bordão saiu pela culatra.

Essa grande fatia do público naquela noite não tinha como interpretar o "ridículo" no sentido everaldiano do termo. E o narrador pagou o preço disso na internet: virou alvo da raiva dos fãs da diva pop nas redes sociais. Os "Little Monsters" exigiam uma retratação.

"Quem veio atrás de mim querendo meu fígado eram esses Little Monsters, os fãs mais radicais da Lady Gaga. Teve gente que tuitou meu nome completo, dizendo 'vamos acabar com a vida dele'", relembra.

A confusão fez o nome de Everaldo Marques parar nos trending topics do Twitter. Levou um tempo até os fãs entenderem que tudo não passava de um elogio à cantora. "Quando as explicações vieram à tona, muita gente entrou em contato para pedir desculpas e ficou tudo bem".

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Protocolo contra "haters"

A mobilização dos Little Monsters aparece apenas como um capítulo na relação entre Everaldo Marques e os "haters" da internet. Ativo nas redes sociais, especialmente no Twitter, o narrador adotou um protocolo para combater quem apenas usa o espaço para atacá-lo.

"É legal tomar um block de um cara conhecido, o cara guarda como troféu. Esses aí eu não bloqueio, porque bloquear você dá o gosto. Tem o protocolo de fazer o cara falar com a parede. Eu bloqueio e desbloqueio. Nisso, ele parou de me seguir e precisa voltar. Se volta, silencio, porque ele vai falar para a parede, não vai aparecer para mim", explica.

A relação do narrador com a internet é antiga, antes mesmo da consagração como a voz dos esportes americanos. Desde a época de Orkut, Everaldo Marques se relaciona com seguidores, pede dicas e até combate fake news, ainda no início de trajetória com a NFL.

"Entrei muito pressionado, porque se eu fizesse uma c... muito grande eu ia dar motivo para esses caras gritarem. Uma hora depois do começo do jogo, fui olhar o Orkut. Pensei: se eu for olhar minuto a minuto e logo de primeira levar uma paulada, vou me abalar. Deixa eu tocar, no intervalo do jogo eu fui olhar e tinha lá: 'pô, o cara sabe as regras'; 'pô, ele está fazendo direitinho'. Aí as pessoas perceberam que aquela boataria levantada não tinha fundamento", comentou.

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Meritocracia é uma besteira

Everaldo Marques nunca teve vida fácil para chegar onde chegou. Filho de um zelador e uma doméstica vindos da Paraíba, suou para concluir os estudos sendo arrimo de família desde os 20 anos. Por isso, ataca o conceito meritocrático de que é só se esforçar que você chega lá.

"Como é que alguém que estudou a vida inteira em escola pública vai competir com alguém que estudou a vida inteira em escola particular e nos cursinhos mais caros? Se fosse uma corrida de automobilismo, eu não estava largando junto, mas três voltas atrás. Como os caras querem que eu ganhe essa corrida?", argumenta.

"Tive que ralar muito para pagar minha faculdade, porque meus pais não tinham como me ajudar. No segundo ano, quase tranquei, porque não tinha dinheiro, e os caras falam em meritocracia, isso é besteira", sentencia Everaldo Marques, que economizava cada centavo para cuidar de si, da mãe e do pai.

As lembranças da época da faculdade são de um orçamento muito curto e dificuldades típicas de boa parte dos brasileiros. O narrador sabe que, hoje, é um privilegiado - e valoriza muito as conquistas.

"Economizava meu vale-transporte na CETESB [Companhia Ambiental do Estado de São Paulo], que era onde eu estagiava, para pagar a faculdade. Economizava para poder comprar um cachorro-quente na faculdade; caso contrário, não jantaria, só em casa. Nada contra quem tinha pai que pudesse ajudar, mas nunca foi meu caso", afirma.

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Narrou final de Copa em rádio pirata


Everaldo ainda sonhava em ser narrador da Jovem Pan quando teve a chance de narrar sua primeira Copa do Mundo, com apenas 20 anos. Em uma rádio pirata de São Bernardo do Campo, na grande São Paulo, o "risca-faca" era seu estúdio e os amantes do forró, que lotavam a casa a cada partida da seleção de Zagallo, seu som ambiente.

"A gente narrou meio que 'piratamente' os jogos da Copa do Mundo de 1998. A gente ia para um forró chamado Coco Louco; era um forró chique do ABC, um galpão risca-faca total. Os caras metiam o jogo no telão com o áudio do Galvão", relata.

"Quando saía gol do Brasil, a casa lotada explodia. A partir do segundo jogo contra Marrocos, fizemos todos. Com 20 anos de idade, narrei uma final de Copa do Mundo", comemora.

A frequência da rádio comunitária, segundo o jornalista da ESPN, alcançava apenas três quarteirões. O foco dele estava na oportunidade de narrar. "Nesses jogos, o pagamento era simples: 'vai ali no bar que tem um mocotó pago para você'", diverte-se.

A cada transmissão eu estou realizando o sonho que tenho desde os nove, dez. A gente não brinca com sonho de infância, a gente leva a sério.

sobre querer ser narrador

Sonho o fez sair da Jovem Pan

Ruim de bola quando criança, ele encontrou um sonho ao narrar as partidas de futebol dos amigos. E nem mesmo as dificuldades financeiras ou respostas negativas o afastaram do objetivo traçado na infância.

Na Jovem Pan, primeiro estágio não remunerado, o ainda projeto de jornalista pediu três vezes ao dono da rádio [Seu Tuta] para estrear. Não deu certo.

"Três vezes bati lá e três vezes dei com a cara na porta. Em 2001, o Nilson César foi para o futebol de vez e falou: 'bota o moleque, ele quer ser narrador'. Fiz as duas últimas transmissões de 2001 da Fórmula 1. Para 2002, tinha a esperança de continuar como narrador, de ser titular da F-1. Seu Tuta [Antônio Augusto Amaral de Carvalho, dono da Jovem Pan] teve outra ideia, e ganhei a chance de ser correspondente; cobri duas temporadas e meia", relembra.

Everaldo se recorda com carinho do trabalho na Fórmula 1, especialmente por acompanhar de perto um esporte que lhe fascina desde criança. Mas o real sonho de infância não veio na Jovem Pan, que chegou a vetar o jornalista de transmitir os Jogos Olímpicos de Atenas como colaborador pelo concorrente BandSports.

Algum tempo depois, surgiu outra oportunidade, e ele não deixou escapar. "Eu fui no vice-presidente da rádio, braço direito do dono e falei: 'oh, o seu Tuta me disse na proposta do BandSports que, se fosse qualquer outro canal, ele deixava, que o problema não era narrar, era ser Band. Só que agora é Directv. Vou estar de folga e não interfere na minha escala da Jovem Pan".

Ele foi, narrou uma noitada de boxe. Na segunda-feira, de volta à rádio, viu o emprego e o sustento da família se segurar por apenas um fio. A escapada tinha pegado mal com o chefe. "Você não quer ser narrador? Então, vai ser narrador no quinto dos infernos. Se você quiser continuar trabalhando normal aqui, pode continuar. Se quiser pegar suas coisas e ir embora, pode ir também".

Everaldo manteve o emprego. Mas foi o empurrão que precisava para bater na porta das TVs e ir atrás do sonho de criança.

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Queria um croissant, ganhou um furo

Ser correspondente da Fórmula 1 era a função de ocasião que Everaldo exercia enquanto sonhava com a narração na Rádio Jovem Pan. Mas em uma dessas ironias da vida, a função resultou no grande "furo" de reportagem da curta carreira como repórter. Enquanto fazia uma gentileza para a assessora de imprensa da Williams durante o fim de semana do GP de Ímola de 2003, o jornalista ganhou por acaso a informação de que a mãe de Michael e Ralf Schumacher havia morrido.

"Cheguei no autódromo às 8h da manhã, já que peguei carona com um engenheiro da Williams com quem dividia quarto. Pisei no paddock e vi a Silvia, então assessora da Williams, carregando uma caixa com cartolina. Fui ajudar e brinquei que queria em troca um suco de laranja. Ela disse que me arrumaria um croissant. Perguntei se o Ralf Schumacher estava animado para a corrida, e recebi como resposta: 'está sim, apesar de a mãe dele ter morrido", diz.

Os olhos de Everaldo Marques saltaram. Ele deixou o café-da-manhã de lado e saiu correndo para mandar a notícia para o Brasil. Nenhum outro jornalista do mundo tinha essa informação. O noticiário, até então, dava conta de que os irmãos Schumacher tinham deixado a Itália de helicóptero na noite anterior para visitar a mãe na Alemanha.

"Passei a mão no telefone e liguei para o Brasil. Dei a notícia por volta das 3h30, 4h da manhã. Escrevi a nota para o site do Flávio Gomes [Grande Prêmio] e desci de volta para buscar mais informações. Fui na Ferrari e recebi como resposta: 'quem te disse que ela morreu?'. O Luca, assessor da Ferrari, entrou no motorhome e fechou a porta. A Sabine, assessora do Schumacher, saiu como um foguete na direção da Williams. Pensei: 'alguém fez merda'", relembra.

"Daqui a pouco sai a Silvia, assessora da Williams, e diz: 'Everaldo, a informação que te dei está errada'. Ninguém confirmava, e eu lá. Somente umas três horas depois que eu tinha dado a notícia, veio o 'maluco' da FIA [Federação Internacional de Automobilismo] e distribui o comunicado que dizia 'em virtude da morte da mãe, Ralf e Michael Schumacher estão dispensados da cerimônia de pódio", recorda-se.

O croissant foi adiado. A fome passou. "Tive a informação da morte da mãe dos Schumachers antes de todo mundo por uma circunstância acidental", afirma o narrador, que segue acompanhando Fórmula 1 como amante da modalidade.

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Narrou mais de 60 esportes diferentes

Everaldo Marques se orgulha da versatilidade com o microfone na mão. Ao todo já narrou 63 esportes, contando transmissões bizarras de modalidades que sequer são reconhecidas pelo COI. A contabilização foi inspirada pelo colega Sergio Arenillas, do SporTV, e soma tudo o que fez desde a experiência peculiar no forró, durante a Copa do Mundo de 1998.

"De bizarros, a gente já teve, logo no começo aqui, rodeio, que é uma coisa que, né? A gente já teve desafio do barco viking, que é uma espécie de Olimpíadas do Faustão, que o cara tem que atravessar um circuito, para em frente a um alçapão e tem uns números girando na frente dele. O participante bate em uma campainha e tem que resolver uma conta matemática. Se erra, o alçapão abre", descreve com detalhes.

"Tem também o Homem Mais Forte do Mundo, um clássico. É lançar barril por cima da parede, arrastar caminhão, avião. Mas, esses às vezes não dão tanto trabalho, porque você pode cair só para o lado do entretenimento, zoar os caras e brincar com os participantes. Esportes mais sérios são os que dão mais trabalho, na realidade".

Causos da carreira

  • 12h diárias de pesquisa

    "Quando me avisaram que estaria nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, comecei a pensar sobre a Cerimônia de Abertura e enquanto a parada das nações era extremamente repetitiva. Afinal, são 207 países, não é? Eu me irritava como telespectador: 'aí vem a Argélia. A Argélia tem 204 atletas. A Argélia fica na África e tem a moeda X'. Umas três semanas antes da Olimpíada, fui até o João Palomino e perguntei se ele me considerava para a cerimônia de abertura. A partir dali, passei 12h por dia pesquisando cada país para contar coisas do tipo: 'o porta-bandeira de Marrocos foi adotado por uma família marroquina aos 13 anos de idade'. Se tiver disposição, você acha este tipo de informação. Deu um trabalho insano, mas valeu muito.

  • Pedido de ajuda no Orkut

    "Falaram para mim: 'olha, temos um desafio aí. Vai começar a Volta da França'. Eu sabia o que era, tinha uma noção de quem era o Lance Armstrong, mas eu não sabia nada de ciclismo. Aí recorri a um velho amigo que anos depois viria a trabalhar aqui na ESPN, o Bruno Vicari. Quando pintou o Tour de France, falei: 'preciso de ajuda'. Chamei o Bruno, a gente saiu para almoçar, levei um caderno e pedi: 'desenha para mim'. Na época, em 2006, eu pedi ajuda no Orkut, tinha algumas comunidades que eu acompanhava. Me apresentei e dizia: 'estou aqui humildemente pedindo a ajuda de vocês'."

  • "Fluente" em coreano

    "Fiz um Coreia do Sul x Argélia em que me preocupei com a pronúncia dos [nomes] coreanos no máximo que podia. Normalmente, neste jogo o narrador toca de lado: escolhe um Kim, um Koo e um outro, e só eles pegam na bola. Pensei: 'vou tentar'. Estudei e fui. No meio da transmissão, chegou uma DM no Twitter de um sul-coreano radicado em São Paulo, que me disse: 'sei que é difícil, mas te agradeço pelo esforço de tentar ajudar as pronúncias do meu país, você me ganhou com isso'. São coisas pequenas, mas que para mim valem todas as horas de estudo e pesquisa."

  • Desenterrou tropas americanas em Natal

    "Narrei um Estados Unidos x Gana, em Natal. Quando estava começando a pesquisa para o jogo, pensei: 'o que os Estados Unidos têm a ver com Natal'?. Eu sabia que tinha um fio solto. Relembrei que a maior base militar americana na Segunda Guerra foi em Parnamirim; perto de 50 mil americanos passaram por Natal na guerra. Contei a história durante o jogo. Fui checar meus e-mails depois do jogo e um professor de história do interior do Rio de Janeiro me mandou: 'pô, você foi o único cara que lembrou dessa história, fiquei feliz de ter acompanhado'. Fiquei feliz com isso."

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