A grama do vizinho

Corinthians supera fungos, caminhões, desgaste e trocas por "tapete" que adversário chamou de espetacular

Gabriel Carneiro Do UOL, em São Paulo
Agência Corinthians

Inaugurada em maio de 2014, a Arena Corinthians é uma óbvia e importante arma do time paulista, que tem mais de 70% de aproveitamento em quase 200 partidas em Itaquera. Além da força da torcida, que tem média de quase 35 mil pessoas por jogo no Campeonato Brasileiro, e da questão comercial, importante para pagar as próprias contas do estádio, existe mais um fator que faz diferença: o gramado.

O Corinthians é o único clube da América do Sul que tem no estádio um tipo de grama chamado PHD Perennial Ryegrass reforçado com fibras sintéticas - uma espécie de costura. Os envolvidos na operação do estádio chamam de "grama de inverno", porque ela é comum na Europa, sob climas mais amenos. É o mesmo gramado de Old Trafford, estádio do Manchester United, por exemplo, o que chamou atenção de personalidades do futebol acostumadas a tais características e novatas no futebol nacional. Houve elogios públicos dos flamenguistas Jorge Jesus e Filipe Luis.

Nada mal para um gramado que no começo do ano sofreu infestação de fungos e foi criticado por jogadores do próprio Corinthians. Mas um tratamento especial e a previsão de uma troca para o fim de 2019, confirmada ao UOL Esporte, permitiram a mudança de realidade até chegar ao "tapete" que hoje é visto e elogiado. Afinal, por que a grama do vizinho (no caso, o Corinthians) é sempre mais verde?

É a grama europeia. Olha como ela é rápida. Outro dia eu vi Corinthians x Palmeiras na Arena e o jogo é mais intenso, mais rápido. É o melhor gramado [do país]. Sem dúvida. Isso influencia muito no jogo

Filipe Luis

Filipe Luis, Lateral-esquerdo do Flamengo e da seleção brasileira

No Brasil, todos os clubes têm que começar a se preocupar e mudar os gramados para o que tem o Corinthians, que é muito melhor. O jogo fica mais espetacular, mais rápido e com menos lesões

Jorge Jesus

Jorge Jesus, Técnico do Flamengo, ex-Benfica e Sporting

O campo está um tapete. Dei um abraço no Kiko, funcionário, dei parabéns, falei: 'Ei, está melhor do que quando eu estava aqui, hein (risos)?' Eles me disseram que ficou um tempo sem jogo e isso ajudou

Tite

Tite, Técnico da seleção, durante a Copa América

Agência Corinthians Agência Corinthians

Gramado tapado gerou fungos: como foi o caos de 2019

O gramado sempre impecável é motivo de orgulho do torcedor corintiano desde 2014, mas neste ano a realidade foi diferente durante boa parte do primeiro semestre. E a culpa é, também, do clube.

Em nome de receitas, o Corinthians alugou seu estádio para receber por dois anos consecutivos um evento chamado "Monster Jam". Para quem não conhece, é uma atração em que carros e caminhões de até seis toneladas se enfrentam em provas de manobras, obstáculos, distância e saltos. Em 2017 não teve problema porque foi o último evento antes de uma troca total no gramado.

Mas no fim do ano passado não teve troca. E aí deu a zica.

"Na verdade, como a grama é viva sempre corremos algum risco. Pegamos uma época de muito calor e chuva, então você corre risco de uma doença ou um fungo. Tivemos evento aqui [Monster Jam 2018] em que a grama ficou fechada por uns dois dias. Quando tiramos ela acabou não recuperando tão bem quanto se estivesse aberta. Tivemos alguns jogos em que ela foi se recuperando e hoje ela está 100%. São coisas pontuais, não tem jeito", conta Breno Felício, diretor administrativo e comercial da Arena Corinthians desde abril de 2018.

Para explicar: a grama do inverno inglês ficou tapada por dois dias em pleno verão brasileiro. Isso gerou uma proliferação de fungos no ambiente quente e úmido e desgastou a grama, já frágil pelas chuvas. Começou a subir terra e areia a cada toque na bola e a drenagem falhou. Jogadores do Corinthians e de times adversários reclamaram. Treino aberto foi cancelado e até a troca do gramado foi cogitada.

O gramado já vinha sentindo calor. Aí cobriram. Para recuperar o gramado é difícil no verão, precisa de um período maior do que o Corinthians tinha. Mais 15 dias sem jogos poderíamos entregar o campo em uma situação que não sofreria

André Amaral

André Amaral, Diretor de operações da World Sports, empresa que cuida do gramado da Arena

Rodrigo Coca/Ag. Corinthians Rodrigo Coca/Ag. Corinthians
Agência Corinthians Agência Corinthians

O que torna o gramado da Arena "melhor" que os outros?

A maior parte dos gramados de futebol brasileiros é do tipo "bermudas", introduzido no Brasil ainda nos anos 90 para ser uma opção à grama "esmeralda", que é aquela comum no paisagismo e que ainda resiste em estádios menores. Há algumas diferenças da ryegrass, da Arena Corinthians, para a bermudas. A começar pelo plantio: a grama de inverno tem que ser semeada e germinar naturalmente, enquanto a outra pode ser colocada por placas, rolos ou tapetes.

As sementes da grama da Arena Corinthians vêm dos Estados Unidos. Além disso, ela exige um sistema de resfriamento das raízes que torna o custo pelo menos duas vezes superior em relação à manutenção. Há tubos finos de plástico por onde circula água gelada para suportar o calor do Brasil e um gigantesco aparelho de ar condicionado externo. Estima-se que a última troca tenha custado ao menos R$ 500 mil para o clube. Mas é tudo parte de um plano. "Eles queriam ter no Brasil um gramado igual ao da Premier League e foi feito", diz André Amaral.

Esse "gramado de Premier League" tem algumas características particulares em relação à maioria dos outros no Brasil:

  • É mais rápido (graças às fibras sintéticas);
  • É mais "úmido" (ou menos seco);
  • É mais resistente (corte dá dureza);
  • É mais denso (compacto, espesso);
  • Arranca menos tufos;
  • É mais aderente (jogo mais dinâmico).

Temos uma estrutura muito grande para manter o gramado nas condições ideais. Só de a gente ter toda a parte de resfriamento do gramado, um ar condicionado só para a grama, debaixo do gramado correndo tubulação de água gelada, é uma estrutura que pensamos em 2014. Queríamos ter o melhor gramado do Brasil, então nos inspiramos nos gramados de fora e trouxemos a tecnologia para cá. Esse acaba sendo o diferencial

Breno Felício

Quem joga na Europa vê um gramado idêntico à Arena. Estão acostumados. Não que a grama tradicional aqui seja pior, mas é diferente. É como jogar futebol de salão em uma quadra de cimento ou taco. Você joga, mas é diferente. O gramado de Itaquera é mais rápido, mais duro. Não dá para ter essa grama sem o sistema, então estudamos a melhor forma disso acontecer no Brasil para a grama de inverno achar que está na Europa

André Amaral

E os outros grandes paulistas?

Eduardo Knapp/Folhapress Eduardo Knapp/Folhapress

Allianz Parque

O estádio do Palmeiras enfrenta problemas com o gramado desde a inauguração. Os frequentes shows e eventos realizados no local, que é administrado pela construtora WTorre (exceto em dias de jogos), costumam deixar o campo prejudicado em pontos específicos em algumas partidas, o que já foi criticado publicamente por jogadores e dirigentes alviverdes. Em maio, houve uma troca total da grama após shows de Los Hermanos e BTS, mas os problemas persistiram: o estádio sofreu com uma infestação de fungos que comprometeu 25% do campo.

Divulgação/São Paulo FC Divulgação/São Paulo FC

Morumbi

O gramado do Morumbi já foi alvo de críticas em outros tempos. Em 2014, por exemplo, Pato culpou o campo por perder um gol. Rogério Ceni havia endossado os questionamentos e o jardineiro-chefe fora demitido. Na última temporada, o estádio recebeu uma das melhores notas na avaliação da CBF 4,67, com a nota máxima sendo 5. Esse limite só não foi atingido, segundo o Tricolor, por pontos perdidos no quesito "drenagem". Nesta temporada, durante a Copa América, também passou ileso às reclamações dos jogadores estrangeiros.

Folha Imagem Folha Imagem

Vila Belmiro

O gramado da Vila Belmiro possui as dimensões oficiais da FIFA desde 2014. O Santos utiliza a grama tipo bermuda celebration que são plantadas em base de areia de 30 cm e colchão drenante de 15 cm. Durante o inverno, o Peixe faz o "overseeding" com grama "ryegrass PHD" visando manter o padrão de qualidade diante de temperaturas mais baixas. O campo santista foi o primeiro da América Latina a ter drenagem a vácuo, há mais de 20 anos. Os drenos possuem 3 metros de distância entre si e passaram por uma modernização em 2015.

Agência Corinthians Agência Corinthians

Troca planejada para o fim do ano

Os prejuízos sofridos em 2019 fizeram o Corinthians não renovar contrato para receber o Monster Jam em 2019. O evento, inclusive, ocorrerá no gramado do Allianz Parque, estádio do Palmeiras, no dia 21 de dezembro.

Enquanto isso, o gramado de Itaquera será totalmente trocado para começar 2020 preparado. A lógica será de dois em dois anos, como conta o diretor Breno Felicio: "O ideal seria fazer anualmente, mas olhamos as condições e com acompanhamento diário sabemos necessidade de troca. O que atrapalha é o calendário, porque você tem um período curto de troca. Então, acabou o Brasileiro a gente vai ter alguns eventos já marcados desde o começo do ano, jogos empresariais, eventos com donos de camarotes, e depois já temos processo de troca."

Na Europa, o gramado é trocado anualmente. Mas no Brasil, sem shows ou eventos, é possível manter a troca a cada dois anos. De acordo com uma pessoa ouvida pela reportagem, "não vai ser nota 10, mas um 9,75. É o que dá."

A troca consiste em arrancar todo o gramado, raspar detritos e chegar até a camada de areia original, que é trocada por uma areia nova. Aí acontece uma espécie de escovação para recuperação das fibras sintéticas instaladas no solo e depois a nova semeadura.

"Faz muito sucesso, mas tem o seu custo"

O Corinthians paga três funcionários para cuidar exclusivamente do gramado durante o ano, além de pessoas para empreitadas ou momentos de necessidade, como no começo de 2019, e outras que dividem funções. Há a operação do maquinário de drenagem, irrigação e resfriamento do solo, que também exige atenção permanente. É impossível calcular o valor exato investido na manutenção do gramado, até porque valores de uma conta de energia elétrica não são dissociáveis. O único valor mais claro é da troca de gramado: R$ 500 mil a cada dois anos, em média.

"Acho que os outros clubes não usam e não é nem pelo valor, é pela manutenção mesmo. É preciso uma estrutura muito grande", diz Breno Felicio. André Amaral completa: "Ele [tipo de gramado] faz muito sucesso, mas tem o seu custo. Talvez o fator limitante seja esse, porque o custo mensal de manutenção e maquinário são caros. É o grande desafio."

Todo o investimento está dando certo. Até no verde o Corinthians sai na frente.

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