0,1%

Como Stephen Curry e o Golden State Warriors derrubaram projeções furadas e reconquistaram a NBA

Arthur Sandes e Beatriz Cesarini Do UOL, em São Paulo Jesse D. Garrabrant/NBAE via Getty Images

Ninguém sequer imaginava. Quando a temporada da NBA começou, em outubro, o Golden State Warriors não era nem tratado como um possível azarão. Nas projeções dos especialistas, nunca apareceu como candidato a ser campeão de novo. Em algumas delas foi cotado com 0,5% de chance de voltar à final e apenas 0,1% de vencê-la. Bem, as previsões estavam erradas.

A expectativa era por mais um ano de Giannis Antetokounmpo com o Milwaukee Bucks, dos Clippers de Kawhi Leonard, dos 76ers renovado ou do Phoenix Suns, que tinha batido na trave na temporada passada. Os Warriors, ignorados. Vendo em retrospectiva, porém, fica muito mais fácil de entender o título surpreendente de Stephen Curry e companhia: estrelas acostumadas a ganhar, no time mais vencedor da NBA nos últimos anos e alguns ajustes no estilo de jogo que mudou a liga inteira.

Os Warriors reconquistaram a NBA após dois anos de martírio. Desde a final perdida para o Toronto Raptors, em 2019, a franquia perdeu Kevin Durant, sofreu com as lesões seguidas de Klay Thompson, teve Stephen Curry afastado por quebrar a mão e amargou a pior campanha da liga. Mas também se reinventou, trabalhou seus coadjuvantes em uma evolução assombrosa e curou as feridas para voltar ao topo e celebrar o sétimo título de sua história.

Enquanto a NBA vivia a bolha contra a covid-19, venerava os Lakers de LeBron e depois os Bucks de Antetokounmpo, Curry e cia. passavam por uma reconstrução. Agora, o título mais imprevisível tem um gostinho diferente e comprova que eles são o time a ser batido. No patamar dos Celtics de Bill Russell e dos Bulls de Jordan, o Golden State Warriors se tornou a dinastia da NBA da atual geração.

Jesse D. Garrabrant/NBAE via Getty Images
Adam Glanzman/Getty Images Andre Iguodala, Draymond Green, Klay Thompson e Stephen Curry com o troféu de campeão da NBA

Andre Iguodala, Draymond Green, Klay Thompson e Stephen Curry com o troféu de campeão da NBA

Mark Blinch/NBAE via Getty Images

A volta dos que nunca foram

Foi a chamada tempestade perfeita. Os Warriors tiveram cinco finais de NBA seguidas nos últimos anos, algo inédito desde a década de 60, mas abriram a temporada seguinte sem perspectiva nenhuma. Kevin Durant tinha ido embora, Klay Thompson tratava uma lesão séria, Stephen Curry quebrou a mão esquerda nos primeiros jogos, e o time ficou sem seus principais talentos. Foi a pior campanha da liga em 2019-20 e a pior da franquia em duas décadas (15 vitórias em 65 jogos).

O time saiu do buraco criando uma rede de apoio para suas estrelas: trocou três atletas por Andrew Wiggins, assinou com Otto Porter Jr., draftou e deu tempo em quadra para Jordan Poole e assim deu melhores condições para Curry, Thompson e Draymond Green. Em 2020-21 o Golden State foi eliminado no play-in, mas neste ano se mostrou muito mais maduro. É a primeira vez que a pior equipe da NBA conquista o título em um período de apenas três temporadas.

O mais importante é lembrar que cada temporada é diferente da anterior. Como técnico, só preciso me adaptar às circunstâncias e seguir em frente. Temos a esperança de que esta temporada seja produtiva para nos deixar prontos para o que vem pela frente

Steve Kerr, técnico dos Warriors, durante a campanha ruim de 2019-20

Ver de longe os jogos na bolha foi o ponto mais baixo destes dois anos. Uma parte de mim se sentia bem por estar descansando, mas outra parte sentia muita saudade de estar nos grandes jogos. Me senti muito longe daquilo, de algo que eu amo fazer

Stephen Curry, sobre a ausência dos Warriors nos playoffs da bolha, em 2019-20

Mark Blinch/NBAE via Getty Images Stephen Curry, do Golden State Warriors, chuta para cesta de três pontos no jogo 6 das finais da NBA

Stephen Curry, do Golden State Warriors, chuta para cesta de três pontos no jogo 6 das finais da NBA

Ele sabe como vencer

Stephen Curry jogou sozinho quando Golden State mais precisou de seu talento, e teve ajuda quando ele próprio mais necessitou de ajuda. Teve atuações históricas mesmo na campanha terrível de 2019-20, e nas finais deste ano, quando sua bola de três não caiu pela primeira vez em 233 jogos, os companheiros estavam lá para garantir a vitória no jogo 5.

Não bastou, para Curry, tornar-se o cestinha da história dos Warriors e o maior chutador de três da história da NBA. Precisou também liderar pelo exemplo. Sem Thompson, seu "Splash Brother", e muitas vezes sem Green, o camisa 30 pegou os mais jovens pelas mãos e ajudou o time a evoluir nos dois anos de seca. O prêmio veio ontem (16), no título sobre o Boston Celtics e no prêmio de MVP das finais pela primeira vez na carreira. Como ele próprio falou depois do título e do choro em quadra, os Warriors sabem como vencer.

Aos 34 anos, Curry não dá sinais da idade. Segue preciso, decisivo e mimetizado por quase todos os times da NBA, que tiveram que procurar suas próprias versões de Stephen Curry em uma liga dominada pelas bolas de três. Foi ele o maior responsável por isso, e não parece disposto a parar agora. Talvez o maior beneficiado seja Jordan Poole, que tem aprendido rápido e quem sabe vire seu sucessor como armador dos Warriors.

"As coisas mudam muito rápido na liga. Havia uma pequena dúvida entre nós, se teríamos a chance de voltar das lesões antes de a direção tomar outras decisões. Sempre sentimos que, se pudéssemos juntar as peças de novo, poderíamos voltar exatamente onde queríamos estar"
Stephen Curry

Eu estava imóvel [durante a lesão]. Ver os playoffs nos últimos anos estava me matando. Estar de volta a esse nível? Sou muito grato aos meus companheiros pelo início de temporada que tiveram, porque criaram a base para o que estamos fazendo agora. Estou nas nuvens.

Klay Thompson

Eles [Celtics] não chegaram a 100 pontos em quatro de seis jogos. Nós vencemos por causa da defesa, e esta sempre foi a constante: não se vence um título sem defesa. Nós sabemos, entendemos e nos orgulhamos de defender, porque isso que permite ao ataque florescer.

Draymond Green

Eu escutei todos os debates e boatos, mas no fim do dia tudo depende do que fazemos na quadra. Não temos que falar, temos que entrar em quadra e trabalhar, só. Nós também tivemos dúvidas, mas sabemos que a estrada é longa e que é muito difícil chegar neste nível.

Stephen Curry

Jim Poorten/NBAE via Getty Images Treinador Steve Kerr dá instruções a Stephen Curry, Klay Thompson e Draymond Green em jogo dos Warriors

Treinador Steve Kerr dá instruções a Stephen Curry, Klay Thompson e Draymond Green em jogo dos Warriors

Uma dinastia nascida do Draft

Foi em uma noite de junho como a de ontem, mas há 13 anos, e a história é famosa: seis times da NBA optaram por outros jogadores em vez de Stephen Curry no Draft de 2009, mas a sétima escolha era de Golden State e mudaria a liga para sempre. Dois anos depois chegou Klay Thompson, e no ano seguinte, Draymond Green. Enquanto todo o mundo estava atento aos Spurs de Tim Duncan e aos talentos de LeBron James no Miami Heat, os Warriors construíam sua dinastia.

A peça que faltava era o treinador. O time já era competitivo, mas Steve Kerr assumiu em 2014 e mudou tudo: juntou o ataque em triângulo de seus tempos de Bulls com o jogo coletivo dos tempos de Spurs, potencializou o pick and roll e os arremessos de três pontos e assim criou um ataque rápido, certeiro e imparável. Os Warriors foram campeões em seu primeiro ano, e de lá para cá é história.

Seis finais em oito anos, agora com quatro títulos, tornaram Golden State um exemplo a ser seguido. Toda a NBA teve que correr atrás, e não é à toa que a velocidade do jogo subiu e as bolas de três se multiplicaram. Os Warriors voltam ao topo com os mesmos princípios que tinham anos atrás e, por um lado, nada mudou. Por outro, eles mudaram tudo.

Adam Glanzman/AFP
Jogadores do Golden State Warrior comemoram título

Consistência na era dos supertimes

Os títulos recentes diferem muito dos três vencidos pelos Warriors até os Anos 1970 porque a NBA como um todo, é claro, está completamente diferente. É a era dos super times, em que os grandes jogadores têm muito mais poder do que antes, mudam de franquia com grande frequência e assim se juntam em "panelinhas" para tentar ganhar um título.

Neste cenário, o Golden State difere dos concorrentes pela essência: Curry, Thompson e Green nunca jogaram por outra franquia. Foram escolhidos no Draft e mantidos por uma década, fosse com título ou com fracasso. O time já foi apontado como apelão quando recebeu Kevin Durant em 2016, mas reconquista a NBA sem ele, superando do seu jeito a mania dos super times -ficaram pelo caminho os Lakers de LeBron, os Clippers de Kawhi e Paul George e os Nets do próprio KD.

"Força em números" é uma espécie de lema desta dinastia dos Warriors. Virou provocação em uma derrota na temporada regular e também um desabafo de Klay Thompson depois do título. No geral quer dizer que, digam o que quiserem, o time mostra em quadra do que é capaz. O quarto título desta sequência reforça a ideia em uma NBA cheia de panelinhas.

Bob DeChiara/USA TODAY Sports Bob DeChiara/USA TODAY Sports

O retorno da tempestade

Por Vitor Camargo, da coluna 14 Anéis

Em uma época marcada por extrema movimentação de jogadores, onde é cada vez mais difícil manter um time junto por vários anos e as janelas de candidatos ao título estão cada vez menores, o que os Warriors conseguiram fazer ao longo desses oito anos deveria ser impossível.

A coisa mais próxima que a NBA viu nos últimos 20 anos foi o San Antonio Spurs de Tim Duncan e Gregg Popovich, mas nem eles foram tão dominantes ou transformadores como esse time dos Warriors.

Se esse título brilhante e dominante deixa algo claro, é isso: a dinastia dos Warriors, nestes dois últimos anos, não tinha ido a lugar nenhum; foi apenas uma breve calma antes de outra tempestade.

Ler mais

+Especiais

Reprodução

Como o assassinato do pai transformou Steve Kerr, técnico dos Warriors, dentro e fora das quadras

Ler mais
Brian Babineau/NBAE via Getty Images

Como Ime Udoka mudou o Celtics e virou o expoente da nova geração de técnicos da NBA

Ler mais
Marcus Steinmeyer/UOL

Estou curado: em sua sala de troféus, Oscar Schmidt reflete sobre vida pós-pandemia

Ler mais
Thearon W. Henderson/Getty Images

Como Stephen Curry, o MVP da NBA, treina o melhor arremesso de basquete do mundo

Ler mais
Topo