Cinco anos do Allianz Parque

Estádio inaugurou nova era na história do Palmeiras. É o melhor modelo de parceria para novas arenas?

Danilo Lavieri e Leandro Miranda Do UOL, em São Paulo

Há cinco anos, o futuro começava

Há exatamente cinco anos, o Palmeiras inaugurava oficialmente seu novo estádio. Idealizado para funcionar em um modelo de gestão inovador no país e peça central da subida de patamar do clube no cenário atual do futebol brasileiro, o Allianz Parque já é parte crucial da história centenária do Verdão. A nova casa aliou o sucesso dentro de campo a uma forma de parceria que, ao contrário do que acontece com outros clubes, turbina o time financeiramente em vez de sugar recursos.

Naquele 19 de novembro de 2014, o Palmeiras perdeu por 2 a 0 do Sport. Desde então, porém, as alegrias já superaram em muito os momentos ruins na moderna arena que substituiu o antigo Palestra Itália. Neste especial, o UOL Esporte relembra os triunfos, destrincha os números e projeta os próximos desafios do estádio que se tornou mais um motivo de orgulho para o torcedor alviverde.

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O impacto do Allianz Parque nas receitas do Palmeiras

Em 2018, a combinação formada pela bilheteria dos jogos e pelo programa de sócio-tocedor Avanti, diretamente ligada ao sucesso do Allianz Parque, foi responsável por 23% das receitas brutas do clube. O Palmeiras tem o maior ticket médio do Brasil (cerca de R$ 57) e uma das três maiores ocupações médias.

Nos cinco primeiros anos, o estádio faturou R$ 310 milhões só em jogos de futebol. Como comparação, a Arena Corinthians fez R$ 316 milhões. A diferença é o Palmeiras embolsou o lucro na totalidade, enquanto o Corinthians sofre para pagar um empréstimos gigantesco com a Caixa.

Confira abaixo o raio-x das receitas alviverdes no ano passado:

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Renda dos jogos é 100% do Palmeiras, que também tem direito a participação nas receitas de shows

A relação entre Palmeiras e WTorre é fundamental para o bom funcionamento do Allianz Parque. A empresa, que arcou com todos os custos da construção do estádio, tem os direitos de exploração de superfície por 30 anos, até 2044, e é responsável por gerir todo o dia a dia do local — exceto em dias de jogos, quando a operação fica a cargo do clube.

O grande diferencial do modelo, favorável ao Palmeiras, é que a renda de bilheteria das partidas é 100% do Verdão, que ainda tem direito por contrato a uma participação progressiva nas receitas de aluguel para shows e eventos: ela começa em 20% e aumenta 5% a cada cinco anos.

Algumas rusgas já abalaram a boa convivência entre as partes, especialmente na época da presidência de Paulo Nobre. Alguns exemplos foram a "guerra das cadeiras" e o episódio em que uma câmera foi instalada no camarote presidencial (veja mais detalhes abaixo).

Hoje, a relação entre clube e construtora está mais tranquila. Recentemente, a WTorre trocou três executivos do alto comando que lidavam diretamente com a gestão do Allianz Parque, mas assegurou que a rotina operacional do estádio não sofrerá transformações.

Divulgação Divulgação

Grama sintética para jogar mais em casa

Em meio aos sucessos comerciais, o ano de 2019 também trouxe uma marca esportiva negativa para o modelo de gestão do Allianz Parque: foi a temporada em que o Palmeiras mais precisou mandar jogos fora do estádio por causa de shows e eventos. Até aqui, já foram sete partidas como mandante no Pacaembu, inclusive duelos importantes como as quartas de final da Libertadores contra o Grêmio, quando o alviverde foi eliminado, e o dérbi com o Corinthians pelo Brasileirão.

Para reverter esse quadro, Palmeiras e Allianz Parque já têm a solução. A implantação de grama sintética no estádio a partir de 2020 já é quase certa e vista como um passo fundamental para permitir que o time jogue mais em sua casa.

A WTorre vai bancar a reforma no gramado do estádio, enquanto o clube arcará com os custos de um campo de grama artificial no centro de treinamentos da Academia de Futebol. Com uma tecnologia mais avançada que a da Arena da Baixada, estádio do Athletico-PR, a expectativa é que o novo piso seja o mais parecido possível com grama natural.

Allianz Parque/Divulgação Allianz Parque/Divulgação

Arena multiuso: restaurantes, tour e até tirolesa

Além dos jogos do Palmeiras, dos shows e eventos, a administração do Allianz Parque tem se preocupado em tornar a arena cada vez mais multiuso. Para estimular que o espaço se mantenha rentável em dias livres, o estádio serve como estacionamento, disponibiliza camarotes para reuniões e pequenos eventos, tem centro de convenções, restaurante, tour para torcedores...

Até mesmo uma tirolesa já funciona no estádio, que sai do setor Superior Norte até o Gol Sul, percorrendo uma distância de 200 metros, a 35 metros de altura. Além, é claro, do formato Allianz Parque Hall, para shows e eventos de menor porte, em que o palco é instalado atrás do Gol Norte, com capacidade para 12 mil pessoas e sem prejuízo algum ao gramado.

Mariana Pekin/UOL Mariana Pekin/UOL
Fábio Menotti/Ag. Palmeiras/Divulgação Fábio Menotti/Ag. Palmeiras/Divulgação

Belluzzo, o embaixador da Arena

Um dos principais idealizadores do modelo do Allianz Parque colocado em prática hoje foi o ex-presidente Luiz Gonzaga Belluzzo. Ele encaminhou boa parte do projeto, mas não ficou no cargo até a inauguração porque não foi reeleito. Seus sucessores no período de construção foram Arnaldo Tirone e Paulo Nobre.

Mesmo fora do cargo, ele se manteve sempre à frente de um grupo composto por nomes importantes que tinha como objetivo garantir que o projeto não fosse derrubado por vontade da oposição alviverde — que chegou a paralisar a obra em diferentes momentos por motivos diferentes, que contavam até com denúncias em órgãos públicos.

"Fico feliz pelos palmeirenses, pela comunidade. Não gosto de falar que o sucesso é meu, que eu sou bacana. Fico feliz de ver o patamar que o Palmeiras chegou com a arena, mas eu tive pessoas ao meu lado que foram muito importantes. Além disso, o Walter Torre também caprichou no conceito de arena multiuso e na aplicação disso na prática", lembrou Belluzzo.

O stress foi um dos motivos que levaram Belluzzo a uma cama de hospital com problemas no coração. Foi de lá, inclusive, que ele recebeu o alvará da arena em outubro de 2010 das mãos do então prefeito Gilberto Kassab.

"Isso deu muito valor para o Palmeiras, mesmo lembrando de pessoas que não queriam. Mas acho que isso faz parte da condição humana, da incapacidade de compreender o bem coletivo. Na época, eu fui até para o hospital. Não foi por isso, claro que faz parte, mas foi por condições vasculares que eu já tinha. A gente lutou pela Arena porque sabia da importância que tinha para o clube e isso vai continuar por muitos anos", completou.

Keiny Andrade/Folhapress Keiny Andrade/Folhapress

Oposição tentou parar obras até com bloqueio de trator

Como lembrou Belluzzo, a oposição do Palmeiras que não concordava com o projeto do Allianz não poupou esforços para que as obras não fossem executadas. Apesar de o projeto ter sido aprovado pela assembleia de sócios e pelo Conselho Deliberativo, esses conselheiros procuravam qualquer tipo de brecha no projeto para impedir o empreendimento.

Os opositores eram liderados pelo ex-presidente Mustafá Contursi e pelo conselheiro Gilto Avallone, um representante que não se preocupava em colocar o rosto como o símbolo da resistência contra a reforma.

Houve ações incentivadas por conselheiros na Prefeitura, no Governo do Estado, no Ministério Público e até intervenções pitorescas. Em uma delas, Avallone se colocou à frente de um trator que derrubaria um dos ginásios antigos. O local foi derrubado para dar espaço a um dos prédios poliesportivos construídos no clube.

Irritada com a instabilidade política, a construtora chegou a paralisar as obras reclamando de documentos que não eram assinados e partes do contrato que não eram cumpridos. Naquela ocasião, tudo virava obstáculo: o número de quadras de tênis que seria montado, quantas árvores seriam derrubadas e detalhes burocráticos como valores de seguro ou divisão de receitas.

As rusgas entre clube e construtora

Palmeiras e WTorre já se estranharam algumas vezes, incluindo em disputas judiciais

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A "guerra das cadeiras"

A WTorre alegava ser dona de todos os assentos do Allianz Parque e reivindicava o direito de vender ingressos para todos eles. Mas uma câmara de arbitragem decidiu que a construtora tem direito a comercializar apenas 10 mil lugares, e o Palmeiras, 30 mil.

Keiny Andrade - 24.nov.2016 / Folhapress Keiny Andrade - 24.nov.2016 / Folhapress

"Big Brother Nobre"

No auge dos desentendimentos entre Paulo Nobre e a WTorre, o ex-mandatário chegou a mandar cobrir uma câmera que estava instalada no camarote presidencial do Allianz. Nobre chamou de "patética" o que, segundo dele, era uma "tentativa de fiscalizar a presidência do Palmeiras".

Divulgação/SE Palmeiras Divulgação/SE Palmeiras

Quem deve pra quem?

Em disputas ainda não definidas, o Palmeiras cobra valores de multas que a WTorre teria que pagar ao clube pelos jogos em que o time foi obrigado a fazer fora do Allianz. Já a construtora sustenta que é o Verdão quem deve, pois não teria reembolsado valores referentes a dias de jogos.

Alexandre Schneider/Getty Images Alexandre Schneider/Getty Images

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