As falhas com Jack

Ginasta de 17 anos morreu após falhas no atendimento de saúde. 4 meses depois, quem será responsabilizado?

Karla Torralba Do UOL, em São Paulo Arte/UOL

Jackelyne se dedicou por 10 anos à ginástica artística, um esporte que não admite falhas, em que tudo tem de estar perfeito. Jack sabia, e muito bem, disso. Prova é o colchão de casal no chão da casa da família em Itaquera, zona leste de São Paulo. O quadrado acolchoado é quase pequeno demais para dispor todas as medalhas, fotos e troféus que a garota ganhou.

Contando por alto, as medalhas passam rapidamente de 80. A primeira foi conquistada aos 6 anos em uma escolinha perto de casa. "Essa está toda arranhada porque ela virava estrela e ficava esbarrando no chão", conta Graciele da Silva, a mãe, com um sorriso tímido de quem recorda com carinho da menina magrinha que atingiu o auge como atleta do Esporte Clube Pinheiros, onde treinou diariamente até o primeiro semestre de 2018.

Uma medalha, no entanto, está faltando. "Essa está com ela", diz.

A filha de Graciele foi enterrada com o ouro conquistado nas barras paralelas assimétricas junto à seleção brasileira no Campeonato Sul-Americano de Ginástica, em Cochabamba, na Bolívia em 2016. Jackelyne morreu em 16 de janeiro de 2019, aos 17 anos, após uma via-sacra hospitalar. Foram seis dias indo e vindo de um hospital e de uma Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) em busca de ajuda para as dores na lombar, no peito e para entender a origem das convulsões que começaram após uma queda em casa.

Segundo o laudo divulgado 60 dias após a família se despedir de Jack, ao qual a reportagem do UOL Esporte teve acesso, a menina morreu por sepse (infecção) decorrente de pneumonia. Agora, a polícia investiga quem falhou no atendimento médico a Jackelyne.

Leo Martins/UOL
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Piora diária e a busca por atendimento

Jackelyne foi levada à UPA "26 de agosto" pela primeira vez em 10 de janeiro de 2019. A queixa era de dores na região lombar. Foi ali, também, que Jack morreu após quatro paradas cardíacas.

Os depoimentos a seguir são dos pais de Jackelyne, Marco Antonio Gomes da Silva e Graciele Soares da Silva, que também foram ouvidos pela polícia em duas ocasiões. Eles relatam o desespero na busca por atendimento para a filha, que piorava a cada dia. Ao longo dos seis dias de agonia, Jack deixou de andar, não conseguia mais se alimentar sozinha e gritava de dor.

Graciele

"No dia 10, ela levantou de um colchão onde estávamos e teve um mal súbito. Na queda, bateu a cabeça e a lombar e, logo em seguida, teve uma convulsão. Demos uma fruta a ela para ver se melhorava, mas ficou muito sonolenta e teve outra convulsão. Chamamos um Uber e fomos para a UPA imediatamente.

Lá, ela tomou soro, remédio para dor e mesmo falando que ela tinha caído e teve convulsão, bateu a cabeça, não pediram exames. Liberaram para ir embora depois da medicação.

No dia 11, ela não reclamou muito de dor, mas no dia 12 voltamos para a UPA e para o hospital Planalto. Foi a mesma coisa. Chegava, falava o que aconteceu e cada médico dava mais remédio e mandava embora. Sem exame de sangue, sem raio-X, sem nada. Jack já não conseguia andar sozinha, só de cadeira de rodas e com ajuda.

O dia 14 foi o pior na UPA. Eu peguei a pior médica que tinha naquele lugar. Uma doutora. Minha filha chegou aos berros, não aguentava de dor. A médica gritou com ela:

Cala boca, senão vou te tirar da sala e não vou te atender. Seu caso não é de médico, é de psiquiatra. Só louco para estar gritando assim, você não está com dor para isso tudo'.

Ela não levantou da cadeira para examinar minha filha, não encostou nela. Ela receitou duas injeções de [ansiolítico] Diazepam. Eu falei para fazer exame, mas nada. Nem para botar o aparelhinho para escutar os batimentos dela."

Marco:

"Eu trabalho, mas estava de folga no dia 15. Fui eu quem ficou com ela o dia todo no hospital. Chegamos antes das 11h e ficamos lá no Planalto até mais de 19h. Fizeram uma tomografia e o resultado foi uma lesão no cóccix. Ela passou pelo ortopedista. A pressão dela também estava baixa, mas não fizeram mais nada. Teve um momento que eu fiquei uma hora e meia esperando atendimento e não tinha ninguém, nem paciente e nem quem pudesse atender a minha filha. Ela me pediu um abraço, não conseguia mais mexer as mãos. Fiquei com medo de machucar, porque estava com muita dor. Pedi que ela tivesse calma, porque não era possível que ninguém iria resolver isso.

Ela estava se despedindo de mim. Ela pediu para irmos embora, porque não iam nos atender e ela sentia muito cansaço. Voltamos para casa. No outro dia eu iria pedir dispensa do trabalho para poder levá-la de novo para o hospital. Não deu tempo. Eu não consegui achar o meu supervisor para pedir dispensa. Quando voltei foi para ver minha filha morta."

Graciele:

"Dia 16 ela acordou cedo e chamou minha filha mais nova. Ela se despediu e passou a senha do celular. Ela sabia que estava indo embora. Ela me pediu para ir ao banheiro, mas não conseguiu fazer nada. Dei um banho nela e ela teve outra convulsão. Saímos às pressas, com a ajuda de um vizinho. Ela ainda respirava, mas muito fraquinho. Chegamos na UPA e levaram ela para dentro. Fiquei esperando, uma agonia. Só contaram que minha filha estava morta quando meu esposo chegou.

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A família agora tenta se reerguer. O primeiro passo foi a mudança de casa. As lembranças daqueles últimos seis dias com a filha eram duras demais para Graciele. Outro motivo para a troca de endereço foi o assédio de jornalistas que, segundo a mãe, ficavam de tocaia à noite no local em busca de pistas sobre a morte da jovem atleta.

A sala do novo imóvel virou um pequeno salão de manicure. É lá que a mãe pretende voltar a trabalhar. Tudo foi presente de Jackelyne para a família melhor de vida.

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Suspeita de negligência médica

Em vez de solucionar o que aconteceu com Jack, o laudo com a causa da morte levantou ainda mais dúvidas sobre o que houve com a menina em seus últimos dias. A Polícia Civil de São Paulo investiga o caso, assim como a Secretaria Municipal de Saúde, para saber se houve negligência médica.

"A partir do laudo, estamos investigando se houve negligência no atendimento à Jackelyne. Porque ela foi várias vezes para a UPA. Ouvimos novamente os pais para saber exatamente quais os sintomas que ela estava sentindo. Também pedimos os prontuários médicos ao hospital e à UPA para saber se foi usado o procedimento correto. São sete médicos [envolvidos no atendimento da atleta] e vou questioná-los com todos os documentos em mãos", explicou a delegada Áurea Aubanez, do 32º Distrito Policial de Itaquera.

À reportagem, a Secretaria Municipal de Saúde admitiu que houve falhas no atendimento à jovem, e ressaltou que a investigação pela Autarquia Hospitalar esbarrou em uma alegação de "sigilo médico" dos funcionários da UPA "26 de agosto". O caso deve ser encaminhado ao Conselho de Medicina.

"A Autarquia Hospitalar Municipal constituiu uma comissão de averiguação que levantou todas as passagens dela por unidades de saúde, analisou os registros e colheu 13 depoimentos. A investigação preliminar, apesar de ter encontrado problemas no fluxo do atendimento e indícios consistentes de falha de conduta médica, não conseguiu obter informações conclusivas, por conta de alegações respaldadas no sigilo médico, principalmente em relação aos atendimentos realizados na UPA '26 de agosto'.

Diante da dificuldade encontrada, a Secretaria Municipal da Saúde aguarda a conclusão da análise da Comissão de Ética Médica do Hospital M. Waldomiro de Paula, para então encaminhar as informações obtidas ao Conselho Regional de Medicina", explicou a Secretaria por meio de sua assessoria de imprensa.

O UOL Esporte também questionou o órgão sobre a conduta da médica que teria gritado com Jackelyne. "Com relação às declarações da mãe de Jackelyne sobre uma frase ofensiva de uma das médicas, a Secretaria Municipal de Saúde considera este comportamento inadmissível no serviço público e o episódio também será apurado".

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Sonho de ser a nova Daiane dos Santos

A ginasta chegou ao Esporte Clube Pinheiros, conhecido por revelar atletas olímpicos, aos 7 anos. Logo na peneira para novos atletas, encontrou pela primeira vez Daiane dos Santos, de quem era fã. Com o cotidiano na modalidade, as duas acabaram se tornando próximas.

Dai, como Jackelyne chamava a campeã mundial, deu de presente à novata um de seus collants da época em que brilhou ao som de "Brasileirinho" e foi ao seu último aniversário em outubro. Daiane esteve também no velório da amiga três meses depois. A família guarda um quadro com autógrafo, fotos e cartões de Daiane.

Plano de saúde?

Segundo os pais da ginasta, eles nunca souberam exatamente quais os benefícios oferecidos à filha pelo acordo com o Pinheiros - ela não tinha, por exemplo, plano de saúde. Eles nunca tiveram acesso ao contrato assinado com o clube e afirmam que a menina se tratava na rede pública de saúde quando necessitava de atendimento médico.

"Todo ano a gente assinava contrato, mas nunca tivemos uma via nossa. O contrato era para ela treinar. A gente não sabia que ia ter isso ou aquilo. Eu nunca parei para ler. Não porque sou ignorante, mas porque ela queria estar lá e é um clube grande, pensei que não agiriam de má-fé", explicou Marco, o pai.

Hoje, os pais dizem que Jackelyne poderia ter sido atendida em uma rede particular. Para eles, como atleta do clube Pinheiros, ela teria direito a plano médico e seguro de vida. O clube contesta a informação.

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Procurado, o Pinheiros afirmou que os atletas são orientados a entrar em contato imediatamente com o clube em casos de problema de saúde e negou a exigência de todos os atletas terem convênio médico pago pela entidade.

"Os contratos de atletas em formação são formalizados de acordo com a Lei Pelé. O atleta em formação não recebe salário, mas um auxílio financeiro em forma de bolsa de aprendizado para fomento de sua formação pedagógica, despesas com transporte e locomoção, entre outras rubricas.

Não há obrigação legal de contratação de convênio médico. De todo modo, o clube franqueia acesso a seus atletas ao seu departamento médico e, em situações que decorram das atividades esportivas, muitas vezes o clube custeia tratamentos médico-hospitalares. A atleta Jackelyne, como todos os nossos demais atletas, são atendidos pelo departamento médico, quando necessário.

Quando são necessárias intervenções emergenciais, que decorram das atividades esportivas, os atletas são encaminhados a hospitais de referência conveniados. Em casos de incidentes fora do ambiente de atividade do atleta, a orientação é a comunicação imediata ao clube", escreveu o clube em comunicado.

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Família alega que não foi procurada pelo clube

Marco e Graciele afirmam terem sido contatados por representantes do Esporte Clube Pinheiros apenas quatro meses após a morte da filha. Segundo o casal, o velório só foi pago pelo seguro de vida da atleta após um amigo de Jack, também ginasta, tê-los alertado sobre a existência do benefício.

"Eu já ia ver como pagar o velório, R$ 3.500. Aí veio o pessoal do seguro dela, seguraram mais um tempo para fazer o velório por isso. Foi através de um amigo em comum que ficamos sabendo, até então eu nem sabia. Se ele não estivesse perto, o que aconteceria? Foi um dia após o outro, eu estava em estado de choque", disse Graciele.

O Pinheiros, por outro lado, disse à reportagem ter colocado representantes para acompanhar o caso assim que soube da morte. "O clube prontamente descolocou representantes para acompanhar todo o procedimento após o conhecimento do óbito, franqueando transporte por veículo próprio do clube para deslocamento de pessoas ao velório e acionando o seguro vinculado ao contrato, que custeou todas as despesas relativas ao funeral. O Pinheiros prestou todo o suporte possível e sempre esteve à disposição da família da ginasta".

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Jack foi dispensada por WhatsApp

Há, ainda, outro capítulo na relação abalada entre a família Silva e o clube Pinheiros. Depois de lesionar o quadril em 2018, Jackelyne não se recuperou completamente. Segundo os pais, a ginasta reclamava que, nos treinos, era deixada de lado nas atividades do clube. Jack também relatou que teria sido chamada de gorda várias vezes pelos técnicos. Situações que teriam diminuído sua animação em relação ao esporte. O clube, por sua vez, nega qualquer prática de bullying.

Em outubro do mesmo ano, Jackelyne se afastou do Pinheiros para cuidar da mãe, que havia passado por uma cirurgia bariátrica. Dois meses depois, em dezembro, uma mensagem no WhatsApp do coordenador técnico Raimundo Blanco informava que Jack não seria mais atleta do Pinheiros em 2019. Ela morreu antes de o contrato ser desfeito legalmente.

Os pais questionam o fato de o Pinheiros não ter entrado em contato diretamente com eles para falar sobre a situação da atleta no clube. "Uma mensagem dessa no celular pra uma adolescente pode acontecer muita coisa, é errado. Ela é menor, tem responsáveis por trás dela. Não é certo", falou Graciele.

A reportagem teve acesso à íntegra da mensagem enviada por Blanco em 18 de dezembro. O Pinheiros confirmou a mensagem enviada à atleta. O texto dizia:

"Boa tarde Jackie. Queria te comunicar que teu compromisso com o ECP termina em 31 de dezembro de 2018 e não vejo nenhuma possibilidade de continuação. Estou sabendo que a Pitchi te escreveu pedindo para você passar pelo clube para a assinatura dos contratos e recibos para que você possa receber os valores referentes a fins de 2018. Mais [sic] você não apareceu. Bom espero esteja [sic] tudo bem com você. Espero que tua passagem pelo ECP tenha te ajudado em parte de tua vida e desejo boa sorte nos novos desafios. Abraço".

Em nota, o clube citou um balanço periódico de avaliação com os atletas para o encerramento do acordo. Confirmou, também, que o contrato continuava vigente na data da morte da jovem.

"No fim de setembro de 2018, Jackelyne teve uma conversa com os responsáveis técnicos da ginástica artística. A atleta foi liberada dos treinamentos e foi orientada a repensar, com a sua família, a continuidade de sua relação com o clube na qualidade de atleta de alto rendimento. Durante este período, o clube manteve contato constante com a atleta.

Como é costume em situações assim, durante o recesso de treinos, a coordenadora administrativa (Ilda Pitchi) permaneceu em contato com a atleta, orientando e lembrando sobre a importância da manutenção e cumprimento das responsabilidades administrativas. Apesar das orientações da coordenação, a atleta não mais compareceu ao clube para cuidar dessas questões.

No mês de dezembro de 2018, o técnico enviou uma mensagem à atleta Jackelyne, via Whatsapp, em que mencionava o não comparecimento da atleta ao clube, mesmo após haver sido solicitado pela coordenação, e confirmando a decisão de não seguir com a atleta na equipe.

Formalmente, não foi feito o distrato do contrato. É importante registrar que a família não procurou o clube quando Jackelyne começou a ter problemas. Portanto, o clube desconhecia os problemas de saúde da atleta e foi surpreendido pela notícia do falecimento. O contrato ainda não havia sido rescindido e encontrava-se vigente quando a atleta faleceu".

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Pinheiros se reunirá com advogado da família

Após a morte de Jack, a família passou a ser representada pelo advogado Jonas Marzagão. Ele está auxiliando em questões legais, como um processo criminal, na qual é apurada a responsabilidade dos médicos, e juridicamente, no caso do contrato com o Pinheiros.

O advogado notificou o Pinheiros em 9 de maio para que pudesse ter acesso ao contrato de Jackelyne. Porém, o advogado e os pais não haviam tido retorno em relação ao assunto até 20 de maio, dia em que a reportagem acionou o clube e pediu explicações sobre o contrato que tinham com a ginasta ao clube. Dois dias depois, a reportagem foi informada que uma reunião entre as partes havia sido agendada para esta semana.

Sobre a existência de uma segunda via do contrato, o Pinheiros disse desconhecer a informação de que a família não tenha ficado com uma via do documento após a assinatura. "A via de contrato da atleta foi devidamente entregue", informou por meio de sua assessoria de imprensa.

Retrato de Jackelyne aos 10 anos de idade. Foto: Alessandro Shinoda/Folhapress Retrato de Jackelyne aos 10 anos de idade. Foto: Alessandro Shinoda/Folhapress

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