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24/04/2007 - 09h00

Chávez monta Pan alternativo em busca de aliados

Antoine Morel
Em São Paulo

As mais de 30 delegações estão de malas prontas. São mais de 4.000 atletas preparados para tentar medalhas em 45 modalidades. As frases anteriores parecem um relato dos preparativos para o Pan do Rio. Mas não são. O evento em questão, porém, é os "Juegos Del Alba" ou, se preferir, os Jogos da Alternativa Bolivariana para a América. A competição, que começa no sábado em Caracas (Venezuela), é organizada pelo presidente Hugo Chávez e chama atenção pela grandeza e pelo marketing político.

Tanto é que foi preciso adiar em um dia a estréia das competições para que os quatro pilares da nova esquerda da América do Sul estejam presentes. O anfitrião Chávez receberá Evo Morales, da Bolívia, Nestor Kirchner, da Argentina, e o recém-eleito Rafael Correa, do Equador, na capital do seu país para festejar o evento que mostrará à América seus ideais.

Criado por Chávez e o cubano Fidel Castro, esse "Pan alternativo" já está em sua segunda edição (a primeira foi em 2005) e acontece até o dia 12 de maio. Os Jogos de Alba são a amostra do novo antiamericanismo na região. A Alba, em sua definição, foi criada em 2003 para se opor (até no trocadilho) à Alca - projeto norte-americano de criar uma área de livre comércio no continente.

Da mesma forma propagandista que desde 1999 revitalizou o bolivarismo (ideário de união dos países hispânicos criado por Simon Bolívar, militar que lutou contra o jugo espanhol), Chávez teve a idéia de organizar os Jogos para difundir a Alba.

BOLÍVAR INSPIRA OUTROS JOGOS
Divulgação
Não só os Jogos da Alba (Alternativa Bolivariana para a América) foram inspirados nos pensamentos de Simon Bolívar. Os Jogos Bolivarianos acontecem desde 1938 - anterior, portanto, ao primeiro Pan, que aconteceu em 1951. A idéia dos Jogos foi criar um evento que juntasse as nações libertas por Bolívar: Panamá, Colômbia, Equador, Venezuela e Peru.

Apesar de estar ligado à Odepa e ao Comitê Olímpico Internacional, os Jogos Bolivarianos seguem uma lista de esportes próprios. Assim como a Alba contará com dominó e a arte marcial kempô, o evento dos seis países tem disputas de bilhar e raquetebol (espécie de squash que estava no programa pan-americana nas últimas três edições).

Além dos Jogos Bolivarianos, há outras "Olimpíadas" regionais, como os Jogos da América Central e Caribe (também anterior ao Pan) e os Jogos Sul-Americanos (competição esvaziada, cujo presidente é o brasileiro Carlos Arthur Nuzman).
No ano do Pan do Rio, os organizadores da Alba fazem questão de não bater de frente com o torneio brasileiro. Dizem que o evento na Venezuela é apenas uma preparação para as competições de julho aqui. Além de enfatizar o compromisso social e de união dos povos, o governo Chávez destaca os números dos Jogos da Alba de 2007. Com 4300 atletas inscritos, o site do evento chama atenção para 43 países participantes, como Curaçao - separado das Antilhas Holandesas - e todas as ilhotas do Caribe. Se confirmado, o número seria maior aos 42 do Pan do Rio. Paradoxalmente, a assessoria do Instituto Nacional de Esportes Venezuela (o equivalente ao Ministério do Esporte) divulga apenas 31 delegações, sem várias ilhas do Caribe entre os inscritos.

Desde que assumiu o poder na Venezuela, há 3.000 dias, Chávez - reeleito em dezembro de 2006 - criou uma imagem de oposição ao país de George W. Bush. "A Alba nasce como uma proposta alternativa à Alca e responde a um viés permanente de confrontação entre os povos latino-americanos e caribenhos contra o imperialismo", diz o texto que apresenta o bloco. Proposta nova, idéias antigas. Fidel Castro, patrono do novo conjunto, foi durante o século 20 o grande antagonista dos EUA na região. Com o enfraquecimento econômico após a queda do bloco socialista liderado pela URSS, Cuba e seu governante adoentado passaram o bastão nos últimos anos para Chávez como protagonista da esquerda latino-americana.

Em seus princípios básicos, a Alba se diz um bloco de países que não prega apenas a cooperação econômica, mas principalmente de boas práticas de desenvolvimento social e esportivo. Foi justamente em uma partida de beisebol, em 1999, entre Cuba e Venezuela que surgiram os ideais da Alternativa Bolivariana.

Passados oito anos, a dupla já conseguiu o apoio do boliviano Evo Morales, signatário do bloco em 2006, e está conquistando os presidentes do Equador e da Argentina. O Brasil, que mandará cerca de 50 pessoas aos Jogos na Venezuela, diz, por meio do Itamaraty, que sua única ligação com os venezuelanos é via o bloco do Mercosul. Mesmo assim, o ministro do Esporte, Orlando Silva Junior, foi convidado para a abertura no próximo sábado.

Sem se envolver nos aspectos políticos, alguns atletas brasileiros aproveitam a competição como treinamento para o Pan-Americano. É o caso do beisebol, que tem a Venezuela como referência. "Quem nos convidou foi diretamente o presidente da federação venezuelana de beisebol e nos chamou porque ele quer todas as equipes do Pan", confirma Ricardo Igushi, coordenador técnico do Brasil. Para Jorge Otsuka, presidente da Confederação Brasileira de Beisebol, o nível técnico será tão forte quanto o Pan. Ele apenas lamenta a falta dos EUA.

O boliche brasileiro também. Cesar Maciel, presidente da confederação brasileira, diz que a "seleção norte-americana não vai por questões políticas". Mesmo assim, ele se anima como uma boa preparação para o Pan. "Na nossa modalidade vão mais de 10 países. São bem fortes. O único país que vai poder ter mais de uma equipe vai ser a Venezuela. A Colômbia é muito forte", garante Maciel, que deve enviar os quatro convocados para os Jogos do Rio. Ao todo, o Brasil contabiliza 46 atletas enviados.

Para o governo venezuelano, quanto mais atletas e países melhor. Tanto que os EUA estarão representados, com nove jogadores de uma inusitada modalidade: dominó. "Nós fomos convidados pela federação venezuelana. Nós temos muitos amigos lá. Nós vamos lá pelo esporte, não pela política", afirma Manuel Oquendo, presidente da DominoUSA, entidade que cuida do esporte na terra de Bush.

Além dos EUA, a Espanha também terá representantes no dominó. Potência no esporte, os espanhóis repetem o que já foi feito em 2005, nos Jogos da Alba em Havana. Lá, também participaram os russos e os franceses. O xadrez, o rúgbi, a escalada, as bolas criollas (mistura de bocha com pelota basca), o kempô e o sambo (ambas artes marciais asiáticas) são outros esportes não olímpicos na competição de Chávez.

SURGIMENTO DO PAN
O projeto dos Jogos Pan-Americanos surgiu na década de 30, inspirado nos Jogos Centro-Americanos, cuja primeira edição aconteceu em 1926. Durante as Olimpíadas de Los Angeles-1932, um grupo de países latino-americanos e o Comitê Olímpico Internacional (COI) fizeram uma proposta de competição que reunisse todos os países do continente. Era a época do governo de Franklin Roosevelt nos EUA e sua "política de boa vizinhança" em direção aos países latino-americanos.
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Para o presidente do Instituto Nacional de Esportes Venezuela (o equivalente ao Ministério do Esporte), Eduardo Alvarez Camacho, os Jogos servirão como um ícone do fortalecimento dos países, "marcando uma diferença em relação a outros eventos deste tipo, já que haverá uma integração de alto conteúdo político social". O discurso é divulgado no site oficial da Alba.

Em 2005, Cuba usou as estruturas do Pan-Americano de 1991, em Havana, para sediar a primeira edição, sem muita divulgação. Para os Jogos que começam no sábado são esperadas delegações numerosas. A Nicarágua, com a eleição sandinista Daniel Ortega, levará 250 atletas. A Venezuela estará com 1.764, muito maior que o prometido para o Rio, que deverá ficar em no máximo 500.

A divulgação de uma boa estrutura e organização do evento é de grande importância para os venezuelanos. Tanto para a promoção da Copa América de futebol, que será em junho por lá, quanto para a candidatura de sediar os Jogos Pan-Americanos de 2015, já divulgada pelo ministro Camacho. Por isso a Telesur, criada na Venezuela, cobrirá para todos os países da América Latina o evento. O governo venezuelano anunciou também que pretende criar uma TV Alba para difundir o ideal contra a Alca e os EUA.