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23/04/2007 - 09h00

Caribe "saqueia" suas raras medalhas no atletismo

Felipe Mendes
Em São Paulo

Kareem Streete Thompson, das Ilhas Cayman, e Alleyne Francique, de Granada, certamente não irão causar furor quando desembarcarem no Brasil para competir no Pan. Provavelmente passem despercebidos entre as feras do esporte. Mas eles estarão à espreita para tomar de assalto o pódio.

Para os países que representam, porém, além de serem lendas vivas, estes atletas são a grande esperança de medalha nos Jogos -em especial Francique, que é o sexto melhor do mundo nos 400 metros rasos. Ilhas ou ilhotas do Caribe transformaram a modalidade esportiva mais antiga da história no caminho para o tesouro do Pan.

"É uma questão da formação daqueles povos do Caribe. Em geral, há uma cultura muito forte do atletismo, diferentemente do Brasil" afirmou o presidente da Confederação Brasileira de Atletismo, Roberto Gesta Melo, "Na Jamaica, por exemplo, o atletismo é como o futebol aqui. Uma paixão nacional", completou.

Com tanto prestígio, os frutos só poderiam ser de alta qualidade. Entre os 15 melhores atletas do mundo dos 100 metros rasos, quatro são do Caribe. Das Antilhas Holandesas, Churandy Martina, o recordista caribenho é o 12º.

No Pan, os últimos premiados foram Santa Lúcia e Granada que, ainda em 2003, não haviam conquistado nenhuma medalha continental. Dominic Johnson pulando 5m40 no salto com vara, e os granadenses Alleyne Francique e sua companheira Hazel-Ann Regis, nos 400 metros rasos, provaram pela primeira vez o gosto de subir em um pódio.

A TRIPULAÇÃO CARIBENHA
Divulgação
O antilhano Churandy Martina é o recordista caribenho dos 100 m
AFP
Cydonie Mothersill, das Ilhas Cayman foi prata no Pan de 1999
Divulgação
Conterrâneo de Mothersill, Kareem Thompson levou outra prata em 99
IAAF/Divulgação
Bronze em 2003, o granadino Alleyne Francique corre 400 m
AS 42 DELEGAÇÕES DO PAN
A coincidência se repete nas ilhas Antigua e Barbuda, São Vicente e Granadinas, Ilhas Cayman e Dominica. Além de todas terem áreas menores do que 800 km², também "usurparam" 100% das suas medalhas nas pistas de atletismo.

A diferença, porém, é que estes países já haviam conquistado os melhores lugares no atletismo, muitos anos antes dos Jogos de Santo Domingo. A primeira leva veio em 1963, no Pan realizado em São Paulo. Ainda sem nenhuma medalha, a ilha de Barbados conseguiu três competindo em terras brasileiras, duas delas no salto em altura.

Depois disso, um jejum de 32 anos vigorou pelo atletismo das ilhotas do Caribe. Neste intervalo, quem se deu bem foram as grandes potências do mar das Antilhas, como Cuba, Jamaica e Porto Rico.

Foi só em 1995, nos Jogos de Mar del Plata (Argentina), que algumas ilhas conseguiram sair do zero. Uma delas foi Dominica, com Jerome Romaine levando a prata no salto triplo. Já Antigua e Barbuda conheceu seu primeiro bronze graças à corredora Heather Samuel nos 100 metros rasos. E São Vicente e Granadinas, com Eswort Coombs, ficou em terceiro lugar, só que nos 400 metros rasos.

Os Jogos de Winnipeg (Canadá), em 1999, também renderam boa safra, principalmente para as Ilhas Cayman, que hoje têm duas medalhas de prata. Mesmo com pouquíssima tradição no esporte, Chris Thompson conquistou uma no salto em distância. A outra veio em 2003, com Cydonie Mothersill, nos 200 metros livres.

Aliás, o Pan de Santo Domingo foi considerado o mais democrático na distribuição de medalhas. Acostumados a não ganhar quase nada, os micropaíses ficaram com importantes 24,7% das medalhas do Pan.

Em Granada, tanto Hazell-Ann, quanto Alleyne Francique viraram ídolos e foram considerados os atletas do ano. Em seu discurso Hazell-Ann disse orgulhosa: "Nós podemos ser um país pequeno, mas definitivamente estamos no caminho de causar um enorme impacto, principalmente nos esportes". Até mesmo as Bahamas, o quinto país caribenho no quadro do Pan e o terceiro no ranking dos Jogos Olímpicos só conseguiram tanto sucesso por meio do atletismo. Das suas 19 medalhas, apenas duas estão fora dos lançamentos de discos, saltos e corridas. Foram os ouros conquistados pelas velas de Kenneth Albury e da dupla Durwood Knowles e Sloane Farrington em 1959, nos Jogos de Chicago.

Treinamento nos EUA
O conhecido ditado "santo de casa não faz milagre" pode também ser aplicado aos competidores do atletismo caribenho. Logo que começam a se destacar nos campeonatos regionais, os atletas são procurados pelas universidades norte-americanas com propostas irrecusáveis.

PARTICIPAÇÃO DO ATLETISMO NO TOTAL DE MEDALHAS
Ilhas Cayman 100%
Granada100%
Dominica100%
Antígua e Barbuda100%
Santa Lúcia100%
São Vicente e Granadinas100%
Bahamas94,7%
Barbados66,7%
Trinidad e Tobago37%
Além de oferecerem a vaga uma bolsa de estudos na universidade, os atletas deixam seu país com a promessa de uma melhor estrutura de treinamento, alimentação e moradia. O objetivo é basicamente um: treinar esses talentos para que eles possam competir na National Collegiate Athletic Association, liga universitária a que se dá muita importância.

Foi o caso de Coombs, Francique, Regis e muitos outros que deixaram seus países de origem para treinar e competir fora. Quando acontecem os jogos internacionais, o sentimento nacionalista faz com que estes atletas defendam as cores de suas verdadeiras casas. Além disso, a qualidade dos atletas norte-americanos faz com que não seja necessária a naturalização destes atletas.

Por incrível que pareça, esses "caça-talentos" também atuam no Brasil. É o que revela o presidente da Confederação Brasileira de Atletismo, Roberto Gesta Melo: "Algumas universidades também vêm procurar talentos aqui, mas são poucos os que vão. O grande empecilho é o domínio da língua inglesa, que é exigido".