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03/05/2007 - 09h01

Chileno vai ao pódio por paradeiro de irmão morto

Alexandre Sinato
Em São Paulo

Como outros jovens durante o governo democrático e socialista de Salvador Allende, Sergio Tormen tinha muitos sonhos. Mas um deles era especial para ele: representar o Chile no Pan de 1975, marcado para sua cidade natal, Santiago. Bicampeão nacional na prova de 50 km, o ciclista viu seus planos desmoronarem a partir de 11 de setembro de 1973, quando um golpe militar levou o general Augusto Pinochet ao poder.

Entre suas primeiras decisões, o ditador cancelou os Jogos Pan-Americanos por lá (foi transferido para a Cidade do México) e determinou a perseguição implacável de pessoas ligadas ao governo anterior. O Estádio Nacional se transformou em centro de detenção. As "caravanas da morte" caçavam opositores por todo o país. E não demorou para o próprio Sérgio cair preso.

Era o dia 20 de julho de 1974. Sergio estava em uma oficina acompanhado do irmão caçula, Peter, e do também ciclista Luis Guajardo e Juan Moraga, dono do estabelecimento. Os quatro foram detidos pela Dina, a polícia política de Pinochet. Sergio tinha 25 anos.

Dois dias depois, Peter foi solto. Ele tinha 15 anos e foi a última pessoa a ver o irmão mais velho com vida. Com os olhos parcialmente vendados, entreviu Sergio muito ferido. "Tenho a convicção que Sergio fez algo para que o liberassem, porque naquela época, crianças ainda mais jovens eram assassinadas pelo regime. Peter, no máximo, levou uns sopapos", conta outro irmão do clã ciclista, Richard.

O PAÍS SOBRE A BICICLETA
Arquivo Pessoal / Richard Tormen
Sergio Tormen (à esquerda) treina em velódromo seguido por dois ciclistas...
Arquivo Pessoal / Richard Tormen
... aparece em foto (à direita) ao lado de colega da seleção nacional de ciclismo...
Arquivo Pessoal / Richard Tormen
... e posa para foto (à esquerda) com outros integrantes do time chileno da época
Foi Richard quem mais correu atrás de informações do irmão desaparecido. Tanto que traçou um plano: conquistar o máximo de títulos com sua bicicleta para ser recebido pelo ditador chileno e exigir saber o paradeiro de Sergio. "Mais do que defender meu país, mais do que lutar por mim, competia para receber informações do meu irmão. Sonhava com isso todos os dias. Queria chegar a Pinochet e dar-lhe minha medalha em troca do paradeiro do meu irmão. Naquela época, ainda tinha esperanças de que ele estivesse vivo", contou Richard, hoje com 55 anos e ainda residente em Santiago, em entrevista ao UOL Esporte.

"Minha mãe já havia tentado de tudo para conseguir alguma informação de meu irmão e nunca lhe deram uma resposta convincente. Tudo que fiz como ciclista, a partir do momento em que meu irmão desapareceu, tinha como objetivo ser recebido pelas autoridades máximas", recorda Richard.

A meta foi atingida em 1979, no Pan-Americano de San Juan (Porto Rico). Além de um bronze na prova contra o relógio, Richard ganhou o ouro na perseguição por equipes, levando o Chile ao degrau mais alto do pódio, coisa que não acontecia havia 12 anos. Foi o único ouro chileno em 1979.

Richard Tormen retornou ao Chile certo de que iria falar diretamente com Pinochet. Enganou-se. O general preparou uma recepção coletiva a todos os atletas, e Richard não conseguiu se aproximar dele. Na imprensa chilena estava censurada qualquer referência ao irmão desaparecido do medalhista.

Ele era companheiro de aventuras, confidente e amigo de Sergio, seu irmão dois anos mais velho. Sergio já era um ciclista profissional e viajava pelos países vizinhos para competir quando, em 1973, Pinochet deu o golpe que derrubou o governo socialista. Foram cerca de três mil mortes ao longo de 17 anos de ditadura (1973-1990). Repressão, pessoas desaparecidas e autoritarismo, entre outros ingredientes básicos de uma ditadura latino-americana.

Hoje, quando o Chile é governado pelo Partido Socialista há oito anos e tem uma presidente (Michelle Bachelet) cujo pai também morreu nas celas da ditadura, Richard se considera uma pessoa resignada, assim como o restante de sua família. Do pouco que lhe comunicaram sobre o irmão, ficou sabendo que o corpo foi atirado ao mar. Nem por isso sente ódio das pessoas que fizeram isso com Sergio. "Sei que aqueles que apontaram as armas para ele, assim como aqueles que o lançaram ao mar foram obrigados a isso. Por isso, não sinto ódio, apenas tenho bronca e desprezo."

Richard culpa apenas duas pessoas pelo que aconteceu: Pinochet e Manuel Contreras, general e que chefiou a Dina. Falecido em dezembro do ano passado, o ex-presidente chileno respondeu a vários processos por seus crimes (chegou a ficar em prisão domilicar em Londres no ano de 1998), mas nunca foi condenado. Já Contreras, em 2006, recebeu dez anos de prisão justamente pelo caso de Sergio Tormen. Hoje cumpre a pena.

'CASO TORMEN' VIRA LIVRO
Capa do livro "Mi hermano Sergio", que revela o drama vivido pela família Tormen
Toda a história envolvendo Sergio Tormen, sua morte e a família Tormen resultou em um livro que logo estará nas bancas do Chile. A obra se chama “Mi hermano Sergio” e foi escrita por Ítalo Hernández.

Narrado em primeira pessoa, o livro mostra o ponto de vista e as cicatrizes de Peter, o irmão caçula seqüestrado junto com Sergio em 1974. Além dele, foram ouvidos outros envolvidos no caso, como jornalistas e esportistas da época. Mas os familiares são as principais fontes.

“Eu não era amigo de Sergio, era muito mais jovem que ele. Em 1974, tinha apenas três anos. No entanto, vivemos no mesmo bairro e meu pai era próximo da família Tormen. Cresci vendo os irmãos Tormen correndo no estádio Nacional”, recorda Hernández, que já prepara outro livro relacionado ao duro período, desta vez sobre os desaparecidos do estádio Nacional.

Crítico em relação ao período em que o Chile viveu sob o regime ditatorial, o autor acusa Pinochet de ter empobrecido o país e deixado o esporte no esquecimento. Ainda hoje, segundo ele, a atividade é pouco incentivada pelo poder público.

“Os escassos triunfos esportivos que o Chile teve a partir dos anos 90, com o retorno da democracia, foram resultados do esforço de algumas pessoas que trabalharam com disciplina”, argumenta ele.
PINOCHET: ESPORTE ESTAGNADO
"Quando saiu a sentença pelo caso do meu irmão, para mim era relevante saber, queria saber quem tinha feito isso com ele. Agora nada disso me interessa mais", confessa, dolorosamente, Richard.

Peter, o caçula, também usou as armas da família para perseguir a Justiça. Testemunha aos 15 anos da prisão e tortura do irmão, ele esperou até 1987 para ir ao ataque. Naquele ano, aos 28 anos, o terceiro ciclista da família conquistou a tradicional Volta do Chile e escancarou sua dor represada diante dos microfones e câmeras da TV chilena. Ao vivo, mas com cortes.

"Nessa época, havia nos canais de televisão um delegado militar atento para cortar a transmissão se houvesse algo parecido. Foi o que aconteceu", diz Richard. Na oportunidade, parte do público e da imprensa criticou duramente Peter por ter exposto o problema em cadeia nacional em pleno regime militar (a ditadura só acabaria três anos depois).

"Só soube depois o que ele fez, mas gostei. Eu já havia golpeado a porta do silêncio, e não me responderam nada. Peter fez o desabafo por si mesmo, pois já sabíamos que ele estava morto. Criticaram Peter porque mais forte que a censura era a autocensura. Todos tinham medo de ser acusado de algo", sentencia Richard.

Protagonistas de um livro que será lançado em breve no Chile, Peter e toda a família Tormen foram vítimas do medo instalado pela ditadura e do poder alcançado por ela. "Esse caso jamais foi tratado abertamente, o jornalismo no Chile atualmente se censura muito. Além disso, com poucas exceções, os proprietários dos grupos jornalísticos são pessoas que em algum momento colaboraram com o regime de Pinochet", opina Ítalo Hernández, autor do livro sobre a morte de Sergio.

Hoje, a família Tormen relembra o episódio com consternação. Richard, Peter ou mesmo as cinco irmãs evitam alimentar o tema com sentimentos negativos. "O ódio não leva a nada, só nos mata", completa o medalhista pan-americano.