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22/03/2007 - 09h00

Brasileiras superam catimba de Fidel em Havana

Claudia Andrade
Em São Paulo

"Lo siento, pero hoy aquí gana Cuba." Foi assim que Fidel Castro deu as "boas-vindas" à seleção brasileira feminina de basquete na final contra Cuba, no Pan-Americano de Havana-91. O líder cubano queria alcançar o mesmo impacto da semifinal com os EUA, quando sua presença no ginásio deu novo fôlego às cubanas, que viraram o jogo contra as rivais e avançaram à final.

PAULA SE IRRITA COM LÍDER
A ex-jogadora Paula se aborrece com o fato de todos falarem apenas em Fidel Castro quando o assunto é a conquista do ouro pelo Brasil. Para ela, a presença do líder cubano na premiação ofuscou o trabalho do time nacional. “A cena dele no pódio acabou roubando o glamour de ganhar o Pan, e todo o sacrifício que tivemos para chegar até ali”, diz.

Paula recebeu atenção especial do líder cubano depois da vitória. Na época, ainda não imaginava que também passaria pela política, episódio que não deixou boas lembranças. “Eu tinha uma visão inocente da coisa. Mas a verdade é que nunca quis ser política”, ressalta a atual diretora do Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa, ligado à Prefeitura de São Paulo.

A última passagem da ex-jogadora em um Pan terminou em polêmica. Em Santo Domingo-2003, quando estava à frente da secretaria de Alto Rendimento do Ministério do Esporte, Paula tornou público que a sua viagem e a do então ministro Agnelo Queiroz haviam sido pagas pelo COB, apesar de ambos contarem com verbas do ministério. Também reclamou de ter ido a Santo Domingo para fazer turismo, e criticou a proximidade de Agnelo com o presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman. Em seguida, pediu exoneração do cargo.
Na decisão, as brasileiras foram protegidas pela treinadora Maria Helena Cardoso. Foi ela quem atendeu ao chamado de Fidel, que, na verdade, havia pedido para falar com Paula e Hortência.

“Ele chegou e não foi para a tribuna de honra. Desceu à quadra e ficou atrás do banco de Cuba”, lembra. “Quando o mensageiro disse que ele queria falar com as duas, eu pensei: não vou tirar minhas jogadoras do aquecimento pra ir conversar com ele. Mas era o Fidel, então eu fui até lá”, continua.

A treinadora pediu desculpas por não liberar as atletas e disse que depois do jogo elas poderiam falar com ele. Foi então que ouviu a frase provocativa. E respondeu que era preciso jogar primeiro.

Na verdade, a tentativa de desequilibrar o time nacional tinha começado já na véspera. “Ele deu declarações para os jornais dizendo que sabia como fazer para nos marcar”, conta Hortência.

As brasileiras ficaram preocupadas quando a presença de Fidel deu novo impulso às cubanas na semifinal. O time de Maria Helena assistiu ao jogo da arquibancada, depois de garantir a classificação para a disputa do ouro batendo as canadenses.

“Eu tentei despistar dizendo que tinha um jogo de beisebol marcado para o mesmo horário e lembrando que o esporte nacional em Cuba era o beisebol. Mas não adiantou”, diz a treinadora.

Depois da breve conversa com o líder cubano, a técnica teve de matar a curiosidade da seleção, que queria saber o que Fidel tinha dito. “Eu falei que isso não importava. E que, se o povo daqui ia jogar para esse barbudo, nós tínhamos que confiar no barbudo lá de cima, que era mais poderoso. Foi uma forma de neutralizar a presença daquele deus cubano no ginásio.”

FIDEL ESPORTISTA
Arquivo Folha
Fidel posa com bola de basquete na escola, onde foi considerado o melhor atleta
A catimba do líder cubano foi feita com conhecimento de causa, já que ele também foi jogador de basquete. E praticante de vários outros esportes. Na infância, saltava dos trampolins de um balneário em Birán, onde nasceu. No ensino médio, se destacou primeiro na escalada e depois no futebol, atletismo, boxe, nado, beisebol e no basquete. Chegou a ser eleito o melhor esportista da escola, entre mais de mil alunos.

No beisebol, uma das modalidades em que mais se destacou, Fidel Castro teria sido avaliado e até mesmo recebido propostas de times norte-americanos, quando defendia a equipe da Universidade de Havana. Depois de sair vitorioso na Revolução Cubana de 1959, Fidel montou um time chamado de “Barbudos”, uma referência ao aspecto dos guerrilheiros e à vizinha ilha de Barbudas.
O restante da história está na memória da maioria dos brasileiros, como o momento mais marcante do Pan de 91. As brasileiras venceram as cubanas por 97 a 76, e Fidel Castro participou da cerimônia de premiação, brincando com Paula e Hortência, dizendo que não entregaria medalha para elas. “Ele disse: `vocês são bruxas; não erram uma´”, lembra a treinadora.

Paula conta que o líder cubano perguntou se elas já tinham jogado assim tão bem. A resposta, sem falsa modéstia, foi que sim. Depois daquela final, em uma entrevista para a televisão cubana, Fidel voltou a mencionar o Brasil, ao citar o que mais havia lhe chamado a atenção durante os Jogos.

“A figura do Fidel ali, no pódio, marcou para o Brasil todo. Ele é um líder, as pessoas param para ouvi-lo. Ele tem carisma e é uma figura importante, por isso foi o mais marcante dos Jogos, sem dúvida”, conclui Hortência.

A vitória, porém, teve uma dimensão grande para as brasileiras. “Foi a primeira vitória importante da equipe e marcou a arrancada de uma geração inteira”, ressalta Hortência. Para Maria Helena, Havana significou “ápice” de sua passagem pela seleção. “Você vê quando o grupo está focado no trabalho. Além da Paula e da Hortência, nós tínhamos a chegada e o crescimento da Janeth, além da subida da Marta. Era um grupo muito unido.” A imagem reforçada por Paula. “Era uma seleção muito bem entrosada e harmoniosa. Se alguém chamava para ver um jogo, todas iam. É muito difícil ter uma união assim, em qualquer grupo”, afirma.